A política externa de Donald Trump em seu segundo mandato presidencial recolocou a América do Norte e a América Latina no centro de uma estratégia baseada em pressão econômica, ameaças comerciais, demonstrações de força e reivindicações de maior influência norte-americana no continente. Canadá, México e diversos países latino-americanos passaram a lidar com uma diplomacia na qual tarifas, sanções, declarações públicas e ameaças de intervenção aparecem frequentemente como instrumentos de negociação.
Mais do que episódios isolados, esse comportamento revela uma concepção de relações internacionais na qual a assimetria de poder econômico e militar dos Estados Unidos é utilizada como mecanismo de pressão. A questão que permanece é: até que ponto essa estratégia fortalece os interesses norte-americanos e até que ponto produz desconfiança, retaliações e instabilidade nas próprias relações que Washington pretende controlar?
A relação de Trump com o Canadá talvez seja um dos exemplos mais emblemáticos dessa mudança de postura. Estados Unidos e Canadá possuem uma das relações econômicas mais integradas do mundo. Mesmo assim, Trump transformou tarifas e ameaças comerciais em instrumentos recorrentes de pressão sobre Ottawa.
Em 2025, o governo norte-americano elevou para 35% as tarifas sobre produtos canadenses não abrangidos pelo acordo comercial norte-americano. A medida foi acompanhada de uma tarifa de 40% sobre mercadorias que fossem consideradas transbordadas por terceiros países para evitar as tarifas americanas.
O paradoxo é evidente.
O acordo que estrutura grande parte do comércio entre Estados Unidos, México e Canadá, o USMCA, foi negociado justamente durante o primeiro governo Trump e entrou em vigor em 2020. Entretanto, no primeiro processo de revisão conjunta realizado em 2026, Washington recusou-se a renovar o acordo em sua forma atual, mantendo aberta a possibilidade de uma ampla renegociação.
A pergunta inevitável é: como construir uma relação comercial previsível quando o próprio acordo negociado pelo governo norte-americano passa a ser tratado como insuficiente poucos anos depois?
O problema não é simplesmente Trump defender interesses comerciais dos Estados Unidos. Todo governo tem essa prerrogativa. O aspecto controverso está no método. A utilização recorrente de tarifas como instrumento de coerção transforma questões econômicas em crises diplomáticas e aumenta a insegurança para empresas, agricultores e consumidores.
O resultado é uma relação na qual um dos mais antigos aliados dos Estados Unidos passou a ser tratado, em determinados momentos, mais como adversário comercial do que como parceiro estratégico.
Com o México, a estratégia é ainda mais complexa porque envolve simultaneamente comércio, imigração, segurança e combate ao narcotráfico.
O governo Trump utilizou ameaças tarifárias para pressionar o México em questões relacionadas à imigração e à segurança. Segundo o Congressional Research Service, a relação bilateral tornou-se volátil durante o segundo mandato, com Washington utilizando tarifas e outras medidas para pressionar o governo mexicano e vinculando questões comerciais a demandas de segurança.
Há ainda um elemento particularmente sensível: a ameaça de intervenção militar contra organizações criminosas dentro do território mexicano.
Combater o tráfico internacional de drogas é uma preocupação legítima de qualquer Estado. O problema diplomático começa quando a cooperação policial e de inteligência dá lugar à possibilidade de operações militares unilaterais em território de outro país.
A soberania mexicana, nesse contexto, torna-se um ponto de tensão permanente.
Ao mesmo tempo, existe uma ironia econômica difícil de ignorar. Estados Unidos e México dependem profundamente um do outro. O comércio bilateral e as cadeias produtivas norte-americanas estão fortemente integrados. O próprio USMCA mantém grande parte desse comércio livre de tarifas. Em junho de 2026, 87% das importações norte-americanas provenientes do México entraram nos Estados Unidos sob regras do acordo.
Portanto, pressionar economicamente o México pode produzir efeitos que ultrapassam a fronteira.
A indústria automobilística é um exemplo. Uma cadeia produtiva que atravessa os dois países não pode simplesmente ser reorganizada por decreto presidencial. Peças produzidas no México podem ser utilizadas em veículos montados nos Estados Unidos. Tarifas aplicadas a um lado da fronteira podem, portanto, aumentar custos do outro lado.
É a velha questão que parece desaparecer quando a política transforma comércio em espetáculo: quem realmente paga a conta de uma tarifa?
Se Canadá e México experimentaram a pressão econômica, vários países latino-americanos passaram a enfrentar uma política externa norte-americana marcada também pelo componente militar.
Em 2026, a administração Trump intensificou operações militares contra embarcações acusadas de transportar drogas no Caribe e no Pacífico. Segundo a Associated Press, até setembro haviam ocorrido 69 ataques desse tipo, com pelo menos 231 mortos. A própria reportagem registra que, em grande parte dos casos, as autoridades norte-americanas não apresentaram publicamente evidências de que as embarcações atingidas transportavam drogas.
Esse dado levanta uma questão que não pode ser ignorada: combater o narcotráfico pode justificar operações militares letais sem transparência suficiente sobre as provas?
A administração Trump afirma estar combatendo organizações que considera equivalentes a grupos terroristas. Críticos e organizações de direitos humanos, entretanto, questionam a legalidade e a proporcionalidade dos ataques. A controvérsia, portanto, não está apenas na existência do narcotráfico, mas nos limites que devem ser impostos ao poder militar.
A estratégia também avançou para operações conjuntas em território latino-americano. Segundo a AP, os Estados Unidos buscaram acordos para operações contra grupos criminosos em países como Colômbia, Honduras e Guatemala, enquanto o governo guatemalteco negou ter firmado o acordo mencionado por Washington. O Equador já havia iniciado operações conjuntas com os Estados Unidos.
Nesse cenário, ressurge uma velha questão da história interamericana: onde termina a cooperação internacional e começa a intervenção?
O Panamá também entrou no radar da nova política hemisférica de Washington.
A preocupação norte-americana com a crescente presença econômica chinesa na América Latina tornou-se um dos componentes importantes dessa política. A administração Trump passou a pressionar governos latino-americanos para reduzir ou limitar vínculos estratégicos com Pequim.
No Panamá, essa pressão esteve relacionada ao controle de infraestrutura vinculada ao Canal. Segundo a Associated Press, o governo panamenho acabou assumindo o controle de dois portos administrados por uma empresa de Hong Kong depois de intensa pressão de Washington.
A questão revela que a disputa entre Estados Unidos e China já não está restrita ao comércio mundial.
Ela chegou diretamente à América Latina.
Washington pretende preservar sua posição histórica no continente. Pequim ampliou sua presença comercial, financeira e infraestrutural. Os governos latino-americanos, por sua vez, procuram aproveitar a competição entre as duas grandes potências para ampliar suas próprias possibilidades econômicas.
Não é necessariamente uma escolha entre Washington e Pequim.
Para muitos países latino-americanos, pode ser uma tentativa de negociar com ambos.
O Brasil também entrou na lista de países atingidos pela nova política tarifária de Washington.
Em julho de 2026, os Estados Unidos anunciaram tarifas de 25% sobre diversos produtos brasileiros, atingindo setores como móveis, etanol, máquinas, calçados e açúcar. A medida alcançaria aproximadamente US$ 7 bilhões em exportações brasileiras para o mercado norte-americano, segundo a Reuters. (Reuters)
A disputa ganhou uma dimensão política. Autoridades brasileiras questionaram os fundamentos das tarifas, enquanto representantes do governo norte-americano apresentaram argumentos relacionados a práticas comerciais consideradas injustas.
Em setembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o Brasil manteria as negociações antes de aplicar medidas de reciprocidade, embora tenha preservado a possibilidade de reação caso as negociações fracassassem.
Mais uma vez, aparece o mesmo padrão: uma questão comercial deixa de ser exclusivamente comercial.
Tarifas passam a funcionar como instrumento de pressão política.
A política de Trump para a América Latina também procura conter a expansão chinesa. Washington tem pressionado países da região para limitar acordos estratégicos com Pequim, especialmente em áreas como infraestrutura, tecnologia, telecomunicações e portos.
A preocupação norte-americana não é inteiramente nova. A competição entre grandes potências sempre esteve presente na política internacional. O elemento novo é a intensidade da pressão.
Segundo a AP, a administração Trump adotou medidas contra autoridades chilenas relacionadas a um possível projeto de cabo submarino com participação chinesa e pressionou o Peru em relação ao porto de Chancay, construído com participação chinesa.
O problema é que a América Latina não é propriedade geopolítica de nenhuma potência.
Os países latino-americanos possuem interesses próprios. Precisam de investimentos, tecnologia, mercados consumidores e infraestrutura. Se Estados Unidos e China disputam influência, os governos da região podem tentar transformar essa competição em oportunidade.
É uma mudança importante em relação à velha lógica de dependência.
Outro elemento característico do estilo Trump é a utilização intensa de declarações públicas e redes sociais como instrumentos de política externa.
A diplomacia tradicional costuma trabalhar com negociações reservadas, compromissos graduais e construção de consensos.
Trump frequentemente faz o contrário.
A ameaça aparece primeiro. A negociação vem depois.
Tarifas são anunciadas como instrumento de pressão. Declarações públicas elevam a temperatura. Depois, representantes dos governos procuram transformar a crise em negociação.
Esse método pode produzir resultados imediatos porque aumenta o custo político para o adversário. Mas também possui um efeito colateral: reduz a previsibilidade.
E relações internacionais dependem de previsibilidade.
Empresas precisam saber quais serão as regras comerciais. Governos precisam saber se acordos serão respeitados. Aliados precisam saber se continuarão sendo tratados como aliados quando discordarem de Washington.
Sem essa previsibilidade, a diplomacia transforma-se em permanente negociação de emergência.
Existe um paradoxo central na política externa de Donald Trump.
Ao mesmo tempo que procura fortalecer a posição dos Estados Unidos no continente, sua estratégia pode estimular Canadá, México e países latino-americanos a diversificar parceiros.
Quando Washington aumenta tarifas, os parceiros procuram outros mercados.
Quando Washington pressiona governos para reduzir relações com a China, esses governos podem buscar maior autonomia.
Quando a ameaça militar substitui a cooperação, aumenta a preocupação com soberania.
Quando acordos comerciais são constantemente colocados em dúvida, diminui a confiança na estabilidade desses acordos.
Isso não significa que a política de Trump seja necessariamente desprovida de objetivos estratégicos. Pelo contrário. Há objetivos bastante claros: reduzir déficits comerciais, estimular produção doméstica, combater o narcotráfico, controlar fluxos migratórios, ampliar a influência norte-americana no hemisfério e limitar a presença chinesa.
A questão está nos instrumentos utilizados para alcançar esses objetivos.
A política externa de Trump para a América do Norte e a América Latina expõe uma tensão fundamental da política internacional contemporânea.
Os Estados Unidos continuam sendo uma potência econômica e militar extraordinária. Mas poder não é sinônimo de consenso.
Canadá, México, Brasil e os demais países latino-americanos possuem interesses próprios, governos soberanos e diferentes estratégias de relacionamento internacional.
Uma tarifa pode pressionar.
Uma ameaça pode intimidar.
Uma operação militar pode destruir um alvo.
Mas nenhuma dessas ferramentas, isoladamente, constrói confiança.
A verdadeira eficácia de uma política externa não pode ser medida apenas pelo número de tarifas impostas, pela quantidade de acordos obtidos sob pressão ou pela demonstração de força militar. Também precisa ser analisada pelos efeitos produzidos no longo prazo: estabilidade, previsibilidade, cooperação, respeito à soberania e capacidade de construir relações duradouras.
As chamadas "trapalhadas" de Trump, portanto, não devem ser vistas apenas como episódios pitorescos de um presidente conhecido por declarações controversas. Elas fazem parte de uma concepção mais ampla de poder.
Trump parece encarnar o manual do narcisista moderno: um homem que se vê como protagonista absoluto de uma peça em que todos os outros são meros figurantes. Sua megalomania é tão expansiva que transforma cada gesto em espetáculo, cada frase em slogan, e cada crítica em prova de conspiração contra sua grandeza. É como se o espelho fosse sua verdadeira base eleitoral — refletindo apenas a imagem que ele deseja ver, inflada, dourada e impermeável à realidade. Afinal, para quem acredita ser a personificação da história, a verdade não passa de um detalhe inconveniente a ser reescrito com letras maiúsculas e exclamações infinitas.
O desafio para os Estados Unidos está justamente aí: transformar força econômica e militar em influência sustentável.
Porque ameaçar é relativamente fácil.
Negociar é mais difícil.
E construir confiança é muito mais difícil ainda.
E eu tenho cá as minhas dúvidas de que Trump seja reeleito presidente em 2028.