O pastor Hernandes Dias Lopes construiu carreira sólida pregando contra a mentira. É referência na Igreja Presbiteriana do Brasil, com plateia nacional e discurso afiado contra as fake news que circulam nas redes sociais. Até aí, nada de novo: pastor condena mentira, público aplaude, todos dormem em paz, sonhando com o paraíso. O problema começa quando o próprio pregador resolve testar os limites daquilo que condena.
Em publicações recentes, ele criticou a gestão econômica do país com termos como "gastança sem freios" e previu um futuro "sombrio". Discurso político clássico, dos que qualquer comentarista de plantão repete em qualquer rede. Só que esse comentarista específico tem púlpito, microfone e uma autoridade espiritual que seus seguidores não costumam questionar. A mistura é perigosa: opinião política vestida de convicção religiosa.
Poucos dias depois veio o capítulo mais interessante. O pastor gravou uma reflexão baseada no livro de Miqueias, denunciando corrupção nos três poderes e aparelhamento do Estado. Tema bíblico legítimo, sem dúvida. Mas a construção do vídeo traçava um paralelo tão direto com a realidade institucional brasileira que não exigia nenhum esforço de interpretação. Bastava respirar e entender o recado.
E aí vem a parte engraçada: ele afirmou, no próprio vídeo, que "não estava falando do Brasil". Frase que funciona como aquele "não foi nada pessoal" dito depois de uma indireta certeira. A plateia entendeu perfeitamente do que se tratava, e o material viralizou em grupos de WhatsApp como peça de campanha política informal. A intenção declarada e o efeito produzido moravam em cidades diferentes.
Ironia bíblica à parte, vale lembrar que João 8:44 Jesus identifica o diabo como o pai da mentira. Provérbios 12:22 chama os lábios mentirosos de abomináveis ao Senhor. Apocalipse 21:8 reserva aos mentirosos um lugar nada convidativo. Mas esse povo da Bíblia debaixo do braço [ou no iPhone] anda mentindo tanto que a vergonha não sente. Hipocrisia pura!
O detalhe curioso é que esses mesmos textos, aplicados com rigor, servem de espelho. Quem usa a Bíblia como arma contra a mentira alheia precisa aceitar que a régua vale para todo mundo, inclusive para quem segura a régua. Dizer "não estava falando do Brasil" enquanto se descreve com precisão cirúrgica a crise institucional brasileira é, no mínimo, uma mentira de bolso, pequena, confortável, quase inofensiva. A frase "sereis medidos com a mesma medida com que medirdes" é um ensinamento bíblico de Jesus registrado nos Evangelhos de Mateus 7:2 e de Lucas 6:38.
Esse tipo de manobra não é exclusividade de nenhuma vertente religiosa ou política. É um recurso retórico velho: dizer sem dizer, insinuar e depois negar a insinuação. funciona porque protege quem fala e ainda garante repercussão. Só não funciona quando o próprio discurso tem como bandeira o combate à mentira. Aí a contradição salta aos olhos de qualquer um.
O mais irônico é que a Igreja Presbiteriana, historicamente cautelosa com o envolvimento direto de seus líderes em disputas político-partidárias, viu um de seus nomes mais respeitados pisar exatamente nessa linha tênue. O resultado foi checagem de fatos, debate público e o pastor deslocado de sua zona de conforto: de crítico da mentira alheia para objeto de checagem da própria fala.
Não se trata de negar o direito de qualquer cidadão, pastor incluso, de opinar sobre política. o problema é a embalagem. quando a crítica política se disfarça de sermão bíblico e depois se protege atrás de um "não estava falando disso", o discurso perde credibilidade em dobro: como análise política e como pregação espiritual. tentar ocupar os dois lugares ao mesmo tempo, sem assumir nenhum deles, é a receita perfeita para acabar sendo criticado nos dois.
Fica a lição, válida para púlpitos, redes sociais e qualquer tribuna: quem condena a mentira com tanta veemência devia ser o primeiro a evitar as meias-verdades disfarçadas de metáfora bíblica. O pai da mentira, segundo o próprio texto sagrado, é craque em parecer sincero. Seus críticos mais inflamados deveriam, por coerência, prestar atenção redobrada em si mesmos.