O evangelicalismo brasileiro descobriu que a fé vende mais quando embalada em luzes, telão e microfone de estádio. A liturgia deixou de ser contemplação e virou show. Será coincidência que o culto de hoje se pareça tanto com um reality show de auditório, com aplausos cronometrados e choro sob comando?
O sincretismo que esses templos negam publicamente aparece disfarçado em cada detalhe: batismo com estética de balada, pregação com cadência de coach motivacional, e um deus que, milagrosamente, sempre concorda com a pauta política do pastor da vez. A "pureza doutrinária" tão anunciada convive bem com técnicas de persuasão emprestadas do marketing e da psicologia comportamental. Fé pura, dizem. Estratégia pura, na prática.
A política entrou pela porta da frente e sentou no altar. Pastores que juram só falar do "espiritual" recomendam candidato com a mesma convicção com que condenam o pecado. O templo, que deveria ser espaço de acolhimento, virou comitê eleitoral com hinário.
Reduzir eleições a uma batalha entre o bem e o mal é conveniente: dispensa debate, argumento e dúvida. Quem questiona vira "do lado errado". Assim, escolher um projeto de país se resume a escolher um lado do apocalipse, num roteiro que sempre tem o mesmo mocinho e o mesmo vilão, ano após ano.
A pauta de costumes virou capital político mais rentável que a pauta social. É mais fácil mobilizar fiéis contra minorias do que discutir desigualdade, saúde pública ou educação. Afinal, indignação moral é combustível barato e recorrente para o próximo turno eleitoral.
Chama atenção o silêncio seletivo: corrupção, quando cometida por aliado, vira "perseguição"; quando cometida por adversário, vira prova do "mal". A moral evangélica, tão rígida em público, mostra-se bastante flexível quando o correligionário está em jogo.
E há, de fato, um remanescente. Gente que resiste tanto ao doutrinamento progressista quanto à cooptação conservadora, e que ainda acredita ser possível pensar por conta própria dentro da fé. Pequeno grupo, é verdade, mas incômodo o suficiente para lembrar que fé e pensamento crítico não deveriam ser mutuamente excludentes. Gente focada apenas no Novo Testamento.
Resta a pergunta que incomoda os dois lados do palco: quando a fé vira palanque, quem realmente está sendo salvo, o fiel ou o projeto de poder de quem prega?