(Continuação)

Imagem criada pela IA, com orientações do autor.
Na primeira parte, abordei sobre a crise de identidade da escola atual, passando pelo seu papel na sociedade, as características da Educação formal e o fim da Educação Básica; discorri sobre a gestão escolar, o corpo docente e o discente, sobre a autonomia, o processo democrático e o desenvolvimento de projetos. Na segunda parte, tratei sobre a função da escola sob a perspectiva da formação plena dos cidadãos, a prática de vida em sociedade e o crescimento do país e a edificação da nação; e, por fim, sobre o estabelecimento de limites e a construção de valores por meio da interação família e escola, indo um pouco para além de seus muros.
Nesta terceira parte, retorno ao interior da escola, com ênfase na escola como organismo vivo, como um lugar de crescimento e como uma sociedade em miniatura; com ênfase nos relacionamentos interpessoais, na importância de princípios e valores na prática de vida e a consequente vida prática no cotidiano escolar; e, por fim, refletirei sobre o caráter da escola pública perante as ideologias, a Psicologia, a religião, as tecnologias e a Inteligência Artificial e a Língua Portuguesa.
Ao pensar a escola como um organismo vivo, percebemos que ela pulsa, se transforma e aprende junto com aqueles que a habitam. Cada sala de aula é como uma célula que carrega a vida do conhecimento, dos relacionamentos, dos conflitos. O crescimento não ocorre apenas nos conteúdos ensinados, mas sobretudo nas relações humanas que se tecem entre professores, alunos, funcionários e famílias. A escola, enquanto sociedade em miniatura, revela a complexidade do viver coletivo: decisões compartilhadas, convivência com as diferenças, construção de regras e valores que sustentam a vida em comum.
É nesse ambiente que princípios como respeito, empatia, responsabilidade e escuta ganham corpo e se tornam ação. Não são apenas discursos em cartazes ou projetos pontuais, mas práticas que moldam o cotidiano. A vida prática na escola é, então, um espelho da sociedade que queremos construir. Quando um estudante aprende a ouvir o outro, quando um professor reconhece sua vulnerabilidade, quando a equipe escolar coopera em vez de competir − a Educação formal ultrapassa os muros da escola e se torna formação humana.
Ao considerar a escola pública em meio às grandes forças do mundo − ideologias, Psicologia, religião, tecnologias e a Inteligência Artificial − temos o desafio de manter um olhar crítico e ético. A escola não pode ser neutra, pois ensinar também é posicionar-se. Porém, ela deve cultivar a pluralidade, o diálogo e o discernimento. A Psicologia nos ajuda a entender os processos de aprendizagem e as necessidades emocionais; a religião, quando abordada com respeito, pode fomentar o sentido de pertencimento e valores; as tecnologias e a IA podem ser ferramentas poderosas, desde que usadas com intencionalidade pedagógica e consciência dos seus impactos; e a Língua Portuguesa permanece como elo fundamental − meio de expressão, interpretação e construção de sentido.
Pensar a escola como um organismo vivo é reconhecer que ela está em constante movimento, transformação e crescimento. É isso que vimos ocorrer ao longo do século XX? Ou a escola ficou praticamente parada no tempo? Muito além de um prédio com salas e corredores, a escola é formada por pessoas que se relacionam, aprendem e constroem juntas um espaço coletivo. Pelo menos teoricamente. Assim como um ser vivo, ela tem ritmos próprios, enfrenta desafios e se adapta ao ambiente onde está inserida. Ou será que é a sociedade que tenta adaptar o ambiente a ela?
Na prática, esse organismo pulsa por meio do desenvolvimento contínuo dos seus sujeitos. Um desenvolvimento marcante, retratados nos resultados do PISA. Professores e alunos não são peças fixas em um sistema, mas indivíduos em evolução, que aprendem, desaprendem e ressignificam. Os projetos pedagógicos, por sua vez, se moldam à medida que erros se tornam aprendizados e novas ideias surgem. Cada iniciativa educativa é uma célula viva desse corpo maior chamado escola. Maravilha!
As relações interpessoais representam os laços que conectam esse organismo. O respeito, a escuta e o acolhimento formam a base dos vínculos entre estudantes, educadores, famílias e funcionários. Como é bom sonhar... Os conflitos, quando mediados com empatia, fortalecem a convivência e ajudam a construir uma cultura de paz. Essa rede de afetos e negociações é o que alimenta o dia a dia da escola. Nenhum aluno bate em uma professora por causa do celular.
A vida escolar também revela uma inteligência coletiva. Bota inteligência nisso! Decisões são tomadas em conjunto, ideias circulam entre os diferentes setores e atores, e há espaço para o diálogo. A maioria em mensagens pelo WhatsApp. A escola pensa com muitas vozes, e essa multiplicidade de perspectivas permite reflexões mais ricas e contextualizadas. Uma riqueza tremenda, que escorre paredes afora.
O coração da escola, no entanto, está nos valores que sustentam sua prática. Nas escolas provadas, valores financeiros. Princípios como solidariedade, justiça e responsabilidade não devem ser apenas discutidos em momentos específicos, mas vivenciados cotidianamente. E por que não? O que tem impedido as pessoas de praticarem isso? Quando esses valores são incorporados nas atitudes e relações, tornam-se a energia vital que mantém a escola viva e significativa. Amém!
Por fim, a capacidade da escola de se adaptar às mudanças sociais, tecnológicas e culturais reafirma seu caráter de organismo vivo. Ela respira [ou se intoxica] junto com o mundo, renova práticas sem perder sua essência, e acolhe inovações com criticidade. Ao fazer isso, permanece fiel à sua missão: formar seres humanos preparados não apenas para o mercado, mas para a vida em sociedade.
Lembrei-me da saudosa Gal: “Sonho meu, sonho meu...”
A escola é um espaço essencial para a formação dos indivíduos e para a construção de uma sociedade mais justa e consciente. No entanto, muitos desafios enfrentados no dia a dia escolar ainda são pouco discutidos fora dos muros da instituição. Este capítulo busca refletir sobre o papel da escola, seu funcionamento e as responsabilidades de todos os envolvidos. Professores, famílias e sociedade precisam compreender melhor esse ambiente para promover mudanças significativas que valorizem a Educação e garantam oportunidades para todos.
A escola pública é o coração democrático da nossa sociedade. É o lugar que mais pode transformar realidades, quebrar ciclos de desigualdade e construir um futuro mais justo para todos.
Pense nisso: quantas pessoas você conhece que mudaram de vida por meio da Educação pública? Médicos, professores, engenheiros, artistas − todos passaram pelos bancos de uma escola que pertence a todos nós. A escola pública não é apenas um prédio com salas de aula. É um projeto coletivo de esperança.
Mas essa escola precisa de nós. Precisa que a sociedade pare de desvalorizar quem dedica a vida para ensinar. Precisa que as famílias entendam que Educação se constrói em parceria. Precisa que gestores públicos invistam de verdade, não apenas no papel.
Quando criticamos a escola pública sem propor soluções, estamos atacando nossa própria base. É como reclamar da ponte enquanto serramos suas vigas. A escola que temos hoje é reflexo direto do que investimos nela − em recursos, em respeito, em apoio.
Valorizar a escola pública significa defender salários dignos para professores. Significa cobrar infraestrutura adequada. Significa participar ativamente da vida escolar dos nossos filhos. Significa entender que Educação é investimento, não gasto.
A escola pública precisa formar cidadãos críticos, preparar profissionais competentes e construir uma sociedade mais igualitária. Ela é nossa responsabilidade coletiva. Cada um de nós tem um papel nessa construção.
O futuro do Brasil passa necessariamente pela qualidade da nossa Educação pública. Não há desenvolvimento sustentável sem escolas fortes. Não há democracia sólida sem cidadãos bem formados.
É hora de assumir: a escola pública é nossa. E cuidar dela é cuidar do nosso futuro comum.
A escola ocupa um lugar fundamental na formação pessoal e na construção de uma sociedade mais consciente, justa e equitativa. Ainda assim, muitos dos obstáculos enfrentados diariamente dentro da escola permanecem restritos ao seu interior e pouco ecoam fora dos seus muros. Convido você a refletir: qual é realmente o papel da escola? Como ela funciona, e quais são as responsabilidades de todos os que a integram? Professores, famílias e comunidade precisam compreender com profundidade esse espaço para que mudanças relevantes aconteçam e a Educação seja valorizada como merece − garantindo oportunidades reais para todos.
A escola pública é a alma democrática do país. É o espaço com maior potencial para romper desigualdades, transformar histórias e construir novos caminhos para o futuro.
Já parou para pensar em quantas trajetórias foram mudadas graças à escola pública? Advogados, arquitetos, artistas, professores − todos um dia estiveram sentados em uma sala de aula que pertence a todos nós. A escola pública vai muito além de paredes e lousas. Ela representa um projeto coletivo que pulsa esperança.
Porém, essa escola não se sustenta sozinha. Ela precisa do envolvimento de cada um. Precisa que a sociedade reconheça o valor de quem faz do ensino uma missão. Precisa que as famílias compreendam que a Educação acontece em conjunto. Precisa que os gestores públicos saiam do discurso e entrem na ação, investindo de forma efetiva e contínua.
Criticar a escola pública por criticar, sem apresentar caminhos é negar as bases que sustentam nosso crescimento. É como condenar uma ponte enquanto dinamitamos seus pilares. A escola que temos hoje é reflexo direto do que escolhemos oferecer a ela no passado: e o que foi que oferecemos?
Valorizar a escola pública é defender o direito dos professores a remuneração justa, digna. É exigir instalações adequadas e seguras. É acompanhar de perto a jornada escolar dos nossos filhos. É compreender que investir em Educação é plantar o futuro, não desperdiçar recursos.
A escola pública tem como missão formar cidadãos conscientes, preparar profissionais competentes e colaborar na construção de uma sociedade equitativa. Essa tarefa é coletiva. Todos temos responsabilidade nesse processo.
O futuro do país depende diretamente da força da nossa rede pública de ensino. Sem escolas bem estruturadas, não há progresso sustentável. Sem cidadãos formados com qualidade, não há democracia sólida.
Chegou a hora de acolher essa verdade: a escola pública é nossa. Cuidar dela é cuidar do que virá. Vamos juntos?
Para entendermos a escola, necessitamos vê-la sob quatro aspectos: a gestão, o corpo docente, o corpo discente e a Proposta Pedagógica. A gestão é o motor que a impulsiona de forma plena e ativa. O corpo docente é o mecanismo que estabelece a sua velocidade. O corpo discente são os futuros cidadãos que exercerão a vida prática em sociedade. E a Proposta Pedagógica é o elo entre os demais aspectos, o combustível que dá vida ao trabalho pedagógico. A interrelação feita pela Proposta Pedagógica entre os três primeiros aspectos é que dá concretude à escola como um organismo vivo.
A escola, que é um organismo vivo e uma sociedade em miniatura, é um lugar de crescimento fundamental para a edificação de uma sociedade justa, equitativa e pacífica. Essa é a função social da escola: conduzir os indivíduos à cidadania plena por meio de uma Educação pura. Vida é o objetivo da Educação escolar.
Já se perguntou por que a escola, que “molda” [não gosto dessa palavra] o futuro de tantas vidas, ainda enfrenta tantos obstáculos invisíveis? Este texto convida o leitor a refletir sobre a importância desse espaço e o papel que todos nós desempenhamos para torná-lo mais valorizado e respeitado.
A escola [mesmo privada] não é uma organização, uma empresa, mas um organismo vivo. A essência desse organismo é o relacionamento de vida entre cada um de seus elementos: gestão, equipe administrativa, equipe pedagógica e alunos. Esse relacionamento é estabelecido por meio da comunicação. No organismo humano, quando ocorre interrupção na comunicação entre as células, o resultado é o seu adoecimento e degeneração, e, conseguintemente, a morte. Como um organismo vivo, se houver falhas ou interrupção na comunicação entre os elementos da escola, o resultado também será o “adoecimento” e o fracasso no processo ensino-aprendizagem. Se medida por indicadores [que retratam apenas o momento], a sua nota será baixa. O que os indicadores nacionais e internacionais têm mostrado?
O resultado da Educação escolar plena e pura é a formação plena de cidadãos e a edificação da sociedade. A Educação plena e pura somente pode ocorrer quando a comunicação flui de maneira efetiva entre a direção, as equipes administrativa e pedagógica e os alunos. Podemos [e devemos] incluir aqui também a família. A comunicação na escola deve fluir ininterruptamente e sem obstáculos, como o sangue nas veias de nosso corpo; qualquer interrupção ou obstáculo, por menor que seja ou em um simples vaso compromete a saúde. A escola, como organismo vivo, precisa ser saudável. A comunicação, portanto, é o sangue que corre nas veias da escola.
A comunicação deve ser, necessariamente, positiva, aberta e construtiva. Não somente positiva e aberta, mas também construtiva. E essa comunicação se concretiza por meio do diálogo. A comunicação democrática e dialógica está para a escola assim como o sangue sem impurezas para nosso corpo. Ambos são um organismo vivo.
Sim, e como todo organismo vivo, a escola também sente os sintomas de uma comunicação doente: silêncios prolongados, reuniões que viram monólogos, escuta seletiva e aquela famosa “falta de tempo” que misteriosamente surge sempre que alguém quer debater algo importante. Esses sinais não são apenas ruídos − são alertas.
Mas por que será que, mesmo conscientes da importância da comunicação, ainda resistimos ao diálogo genuíno? Será o medo da crítica, o apego ao “sempre foi assim”, ou talvez a ilusão de que comandar em silêncio é mais eficiente do que construir com vozes diversas?
A resposta está na nossa própria formação. Gerações anteriores cresceram em escolas hierárquicas, onde questionar era sinônimo de desrespeito. Aprenderam que autoridade se impõe pelo silêncio, não pela conversa. Essa herança contamina nossas relações profissionais até hoje.
Na década de 2020, a comunicação ganhou novos contornos. As redes sociais criaram a ilusão de que falamos mais, mas dialogamos menos. Mensagens rápidas substituíram conversas profundas. WhatsApp virou ferramenta de gestão escolar, mas perdemos a arte do encontro presencial.
A escola espelha essa contradição. Professores reclamam que gestores não escutam. Gestores dizem que professores resistem às mudanças. Famílias criticam sem propor. Estudantes são ouvidos apenas quando conveniente (será?). Todos falam, poucos se ouvem.
A comunicação interpessoal nesta década exige coragem. Coragem para admitir erros. Coragem para ouvir críticas construtivas. Coragem para desconstruir práticas que não funcionam mais. A geração atual de estudantes cresceu conectada, mas anseia por conexões reais. Tenho cá as minhas dúvidas, mas vamos acreditar nisso.
Eles percebem quando o diálogo é fake? Perguntamos sua opinião apenas para cumprir protocolo? Quando simulamos participação, há real interesse em suas vozes? Essa geração alfa cobra autenticidade nas relações? A geração z cobrava ou cobra?
A comunicação verbal das gerações Z e Alpha apresenta transformações significativas moldadas pelo ambiente digital. A Geração Z desenvolveu um padrão comunicativo caracterizado pela concisão e pragmatismo, incorporando gírias como "cringe" e "based" em seu vocabulário cotidiano, além de utilizar ironia e sarcasmo como estratégias discursivas para expressar opiniões e sentimentos. Já a Geração Alpha demonstra uma tendência ainda mais acentuada à brevidade verbal, influenciada por plataformas como TikTok e pela linguagem dos jogos online, resultando em expressões como "sigma" e "rizz" que frequentemente substituem construções linguísticas mais elaboradas. Ambas as gerações compartilham a preferência por comunicação direta e objetiva, porém a Alpha apresenta maior dificuldade com estruturas textuais tradicionais, priorizando formas de expressão que combinem elementos verbais com recursos audiovisuais. Essa evolução [?!] comunicativa reflete não apenas mudanças tecnológicas, mas uma reconfiguração cognitiva que impacta diretamente as estratégias pedagógicas necessárias para o engajamento efetivo desses estudantes em ambiente escolar.
O diálogo genuíno na escola começa quando paramos de defender territórios e começamos a construir pontes. Quando a comunicação deixa de ser ferramenta de poder para se tornar instrumento de transformação coletiva.
Aliás, não é curioso que em algumas escolas − públicas e privadas − a comunicação pareça ter virado privilégio de poucos?
Como se apenas algumas veias tivessem direito ao sangue limpo, enquanto outras permanecem entupidas de hierarquia e burocracia.
Então fica a dúvida: será que estamos cuidando da saúde da escola ou apenas empurrando sintomas para debaixo do tapete da diretoria ou da sala dos professores? E se a comunicação é mesmo vital… por que ainda não receitamos diálogo na dose certa, com acompanhamento regular e sem efeitos colaterais como o medo e a censura?
Não seria hora de perguntar: quando foi que começamos a achar normal sobreviver com a escola em coma comunicativo?
Se o propósito de nossas escolas é formar cidadãos plenos por meio de uma Educação pura para o crescimento do país e a edificação da nação, então a escola deve ser um lugar de crescimento. Se o propósito de nossas escolas é formar cidadãos plenos por meio de uma Educação autêntica e transformadora − capaz de impulsionar o crescimento do país e edificar a nação −, então a escola deve ser, acima de tudo, um lugar de crescimento intelectual e humano.
A aquisição do conhecimento não pode ser vista como mero acúmulo de informações. Ela precisa ser compreendida como processo essencial para que os estudantes desenvolvam competências fundamentais ao exercício da cidadania. O conteúdo ministrado nas diversas disciplinas escolares − seja nas Ciências, na Matemática, na Literatura ou na História − não existe de forma isolada: ele é o instrumento que permite aos alunos interpretar o mundo, tomar decisões conscientes e agir com autonomia. Aprendem a pensar e a ter opinião própria. Assim deveria ser.
Contudo, será que nossa realidade escolar condiz com essa premissa? Quantas instituições ainda perpetuam o modelo bancário, por meio do qual professores "depositam" conteúdos [odeio essa analogia! Com todo respeito a quem a cunhou.] em estudantes passivos? É irônico observar que, numa era de acesso ilimitado à informação, muitos alunos saem da escola sem saber questionar fontes ou construir argumentos consistentes. Não é contraditório exigirmos pensamento crítico enquanto oferecemos currículos fragmentados e avaliações que privilegiam a memorização? Como esperamos formar cidadãos autônomos se muitos ainda tratam estudantes como receptáculos vazios a serem preenchidos? A escola contemporânea enfrenta o paradoxo de preparar jovens para um mundo complexo usando métodos que os mantêm intelectualmente dependentes. Será que realmente estamos formando pensadores ou apenas reprodutores de respostas prontas? E o momento de polarização vivido no país é crítico. Muitos jovens e adultos têm preguiça de pensar, usar o raciocínio.
É por meio da articulação entre os saberes que o raciocínio lógico se fortalece, permitindo ao estudante encontrar soluções, construir argumentos e validar conclusões de forma coerente. Igualmente, a convivência com perspectivas diversas desperta o pensamento crítico, tão necessário em tempos de informação abundante e, por vezes, distorcida. Protege os estudantes de serem engodados, enganados por quaisquer tipos de pessoas mal-intencionadas. E aqui vejo a importância de os adolescentes usarem a Inteligência Artificial em seus estudos, pois para usá-la com bons resultados é necessário saber pensar e redigir bem os seus textos ao pedir algo a ela. A IA não emburrece, ela instiga o raciocínio de seu usuário.
Portanto, cabe aos professores refletirem sobre o papel essencial da escola como espaço de formação integral. Ensinar conteúdos vai além de cumprir currículos: é possibilitar que os estudantes transcendam o senso comum, cultivem a curiosidade e desenvolvam as habilidades intelectuais que os acompanharão ao longo de toda a vida. Por que não ensinar a utilizar a IA no laboratório de informática? Uso acadêmico.
Formar cidadãos plenos é formar pessoas pensantes. E para que isso aconteça, a escola precisa ser um ambiente que valoriza o saber em sua multiplicidade, estimulando o diálogo entre as áreas do conhecimento e promovendo uma Educação verdadeiramente significativa.
Essa formação demanda um rompimento radical com práticas pedagógicas ultrapassadas que ainda dominam muitas salas de aula. A interdisciplinaridade não pode ser apenas um discurso bonito nos projetos político-pedagógicos, mas uma realidade concreta que conecte Matemática com Arte, História com Ciências, Literatura com questões sociais contemporâneas. E a IA está aí para auxiliar.
O professor assume papel fundamental como mediador desse processo [mas não capacho de alunos], abandonando a postura de detentor absoluto do saber para se tornar facilitador da construção coletiva do conhecimento. Isso exige formação continuada consistente, condições de trabalho adequadas e valorização profissional − aspectos frequentemente negligenciados pelas políticas públicas educacionais.
A avaliação também precisa ser repensada. Provas tradicionais que medem apenas capacidade de memorização devem dar lugar a instrumentos que verificam competências como análise crítica, resolução de problemas complexos e capacidade argumentativa. Portfólios, projetos colaborativos e debates estruturados revelam muito mais sobre o desenvolvimento intelectual dos estudantes.
A chegada da Inteligência Artificial nas escolas não representa uma sentença de morte para os recursos pedagógicos tradicionais. Pelo contrário, revela a urgência de uma coexistência inteligente e complementar entre o digital e o analógico no processo educativo. A Suécia entrou de cara no digital e se arrependeu. Hoje é misto.
O ato de escrever à mão ativa áreas cerebrais específicas relacionadas à memória e ao processamento cognitivo que a digitação não consegue estimular. Quando um estudante registra informações no caderno com lápis ou caneta, estabelece conexões neurais que favorecem a retenção e compreensão do conteúdo. Isso é o que a neurociência afirma. Você duvida? A IA pode sugerir tópicos, organizar informações e personalizar roteiros de estudo, mas não substitui esse processo neurológico fundamental.
A lousa [com giz ou pincel] mantém sua relevância como espaço democrático de construção coletiva do conhecimento. Professores que utilizam esse recurso promovem ritmo de aprendizagem mais adequado à diversidade de estudantes presentes na sala. Paralelamente, a IA pode oferecer explicações complementares, exemplos adicionais e exercícios adaptativos para reforçar conceitos apresentados no quadro. Esse negócio de lousa digital no meio da sala, nas paredes, em todo lugar não me impressiona.
O livro impresso proporciona experiência sensorial única: o tato das páginas, a possibilidade de fazer anotações nas margens, a visualização global do conteúdo. Essas características facilitam a concentração e reduzem distrações digitais. A IA, por sua vez, pode recomendar leituras complementares, esclarecer dúvidas sobre o texto e criar conexões interdisciplinares.
Essa convivência estratégica potencializa as vantagens de cada recurso. Enquanto ferramentas tradicionais desenvolvem habilidades cognitivas fundamentais como coordenação motora, concentração e pensamento sequencial, a IA oferece personalização, feedback imediato e acesso ilimitado a informações atualizadas.
A sala de aula do futuro não será nem totalmente digital nem completamente analógica. Será um ambiente híbrido que reconhece a importância neurocientífica dos instrumentos tradicionais e aproveita o potencial transformador da tecnologia artificial para criar experiências educativas mais ricas e eficazes. Se há duas coisas em que eu não acredito é em salas de aula totalmente digitais no futuro e no tão propalado apagão de professores dentro de pouco tempo [nem de muito].
Por fim, essa transformação requer coragem institucional para questionar estruturas cristalizadas e implementar mudanças profundas no cotidiano escolar. Somente assim conseguiremos preparar jovens capazes de enfrentar os desafios de uma sociedade em constante transformação.
A escola, como um organismo vivo, precisa crescer, pois o crescimento é uma das coisas mais necessárias para um organismo. Toda a equipe escolar, desde a direção até os alunos, precisa crescer, tanto em valores quanto em conhecimento. Nesse sentido, nossas escolas hoje estão desesperadamente carentes de crescimento. O crescimento é para a vida prática, e somente se dará por meio de uma alimentação sólida.
O aprendizado que se desenvolve na escola vai muito além do ato de ler e escrever. Essas habilidades, ainda que fundamentais, são apenas o ponto de partida para algo maior: a capacidade de expressar ideias com clareza, compreender mensagens com profundidade e aplicar o conhecimento na vida cotidiana.
Saber colocar seus pensamentos no papel é um exercício de organização mental, de articulação de ideias e de construção de argumentos. É por meio da escrita que o estudante consolida o que aprendeu, manifesta sua visão de mundo e se comunica com os outros de forma eficaz.
Da mesma forma, compreender ou interpretar um texto vai além de decifrar palavras: é entender intenções, perceber nuances, identificar instruções, refletir sobre significados. Saber ler um contrato, seguir corretamente uma bula de remédio, compreender uma receita culinária ou interpretar os manuais que acompanham equipamentos são exemplos concretos de como o conhecimento escolar se desdobra no cotidiano.
Essas habilidades linguísticas − leitura crítica e escrita coerente − são vitais para o exercício da cidadania. Elas proporcionam autonomia, evitam equívocos e abrem caminhos para uma participação mais ativa na sociedade.
Por isso, é essencial que a escola não apenas ensine conteúdos, mas estimule nos alunos a capacidade de compreender e transformar esses conteúdos em ferramentas úteis para suas vidas. Ensinar é formar leitores atentos e escritores conscientes − pessoas que sabem aprender com o mundo e agir sobre ele com sabedoria. E isso não é responsabilidade somente de Língua Portuguesa. E vale aqui lembrar que o celular é ferramenta de trabalho, de comunicação, e pode ser usado para estudar; ele não foi criado somente para o lazer.
Diante da responsabilidade da escola de formar cidadãos plenos, torna-se evidente que o processo de aprendizagem precisa transcender a simples memorização de conteúdos. O ensino deve ser pautado no desenvolvimento do raciocínio lógico, da capacidade crítica e da autonomia intelectual. Esses elementos são alicerces para a construção de uma sociedade mais consciente, participativa e justa.
Mais do que ler e escrever, é essencial que os estudantes saibam compreender e interpretar textos que fazem parte do seu dia a dia. Essas habilidades não apenas ampliam o repertório dos alunos, como também garantem que eles estejam preparados para tomar decisões com segurança e clareza.
A escola, portanto, deve ser um ambiente que valorize o saber como ferramenta de transformação. Cabe aos professores incentivar a curiosidade, promover o diálogo entre as áreas do conhecimento e tornar o aprendizado significativo. Ao fazer isso, contribuirá para a formação de leitores atentos, escritores conscientes e cidadãos capazes de agir com responsabilidade e discernimento. Obviamente, os estudantes devem ter interesse, e isso é uma escolha. Acho ridículo esse negócio que falam ou escrevem por aí de que os professores precisam despertar o interesse dos alunos. Balela! Por trás do interesse também existe o querer.
Formar para a vida é o verdadeiro sentido da Educação formal. E para isso, a escola precisa ser espaço de crescimento contínuo − onde aprender seja também refletir, compreender e transformar.
A escola não pode ser, simplesmente, um ajuntamento de pessoas. A vida diária na escola precisa estar voltada para o crescimento. Não justifica se reunir todos os dias na escola, ou pelo menos cinco vezes por semana, durante um turno inteiro − e alguns em dois turnos −, gastar tanto dinheiro com material pedagógico, salários e manutenção de prédios de escolas públicas se as pessoas não saírem dali melhores no final de cada ano letivo. Portanto, onde quer que haja uma escola pública de Educação Básica, ali obrigatoriamente devem ser visíveis os benefícios para a comunidade, começando dentro da escola pelo crescimento de todos como indivíduos. Todas as pessoas que adentram o espaço escolar diariamente para trabalhar ou estudar precisam se tornar melhores como indivíduos e como cidadãos, ou então não justifica a utilização dos termos educação, escola, ensino e aprendizado. Sei que isso parece utopia, que as coisas andam difíceis, mas é uma grande verdade.
Crescer é tornar-se melhor, aperfeiçoar-se, adquirir experiência, amadurecer. E esse crescimento precisa ser expresso em atitudes e palavras. Os frutos da Educação plena e pura são visíveis; se não houver frutos, a Educação está corrompida. Quem frequenta a escola durante muitos anos e isso não desemboca em crescimento e qualidade de vida é porque algo está errado.
A Educação escolar que se preocupa com o crescimento é fundamentada em princípios e valores, tendo o conteúdo como base. Sem princípios e valores não há crescimento. A Educação formal é um processo de crescimento não somente intelectual, mas também emocional, adquirido na convivência e socialização.
A escola é a sociedade em miniatura. O fim último da Educação escolar básica é a vida prática da sociedade. A Educação recebida na escola é consumada na sociedade, seja no âmbito profissional, social ou pessoal. A escola é uma questão de ensino-aprendizagem, e a sociedade é uma questão do exercício do que resultou desse ensino-aprendizagem. A sociedade é o lugar onde a Educação escolar se torna realidade concreta. O que a escola é e o que ela faz é expresso na vida prática na sociedade. Pelo menos deveria ser, e de maneira positiva. A cidadania plena e a edificação da sociedade são o resultado da Educação escolar plena e pura. Quando os alunos experimentam uma Educação pura e plena, o resultado é a plenitude da escola; a sua manifestação será na vida prática de cada indivíduo na sociedade. Filosofei demais? Creio que não. Eu ainda acredito na escola e na Educação.
Por isso, a escola é o primeiro lugar onde a Educação plena e pura deve tornar-se concreta. O impacto dessa Educação de forma positiva deve ocorrer primeiramente dentro dos muros da escola. Poderíamos comparar a escola, sob esse aspecto, a um laboratório; as experiências ocorrem primeiramente nele e, depois de testadas e comprovados os seus benefícios, elas ultrapassam os limites de seus muros para se expandirem. A comparação pode parecer um tanto simplista ou técnica [ou mesmo absurda, para alguns], mas é a melhor que expressa esse processo. O que não ocorrer como vida prática para a edificação de uma sociedade justa, equitativa e pacífica dentro dos muros da escola, dificilmente se concretizará para além de seus muros. É aqui que a corda arrocha para os professores.
Essa reflexão nos leva a entender que, se a escola é esse “laboratório” da cidadania e da convivência social, então todas as suas práticas − do currículo formal às relações interpessoais − precisam estar voltadas para esse ideal de formação humana. Isso significa que ensinar não é apenas transmitir conteúdos, mas formar sujeitos capazes de agir com responsabilidade, empatia, criatividade e criticidade no mundo.
Se aceitarmos que a escola é um espaço de ensaio para a vida em sociedade, torna-se essencial que ela proporcione situações reais de tomada de decisão, resolução de conflitos, construção de consensos e participação ativa. Não apenas simulacros, mas vivências concretas que preparem os alunos para o mundo além dos muros escolares. Por exemplo: práticas democráticas internas; projetos interdisciplinares voltados para a comunidade; atividades que promovam o respeito à diversidade. Formar para transformar.
A ideia de uma Educação "plena e pura" não é utópica − é a aspiração ética de uma escola que vê seus alunos como futuros construtores de um mundo mais justo. E isso exige intencionalidade nas práticas pedagógicas, nos valores que se cultivam, na coerência entre discurso e ação. Quando a escola deixa de ser apenas um espaço de transmissão de saberes e passa a ser também lugar de transformação pessoal e social, ela cumpre o seu papel de "sociedade em miniatura".
Vamos continuar esperando a vida inteira pela ação dos governantes? Vamos continuar sempre colocando a culpa no sistema? Ou será que podemos agir no chão de cada escola? A sala de aula é minha ou do governo?
Professor, essas perguntas incomodam porque expõe nossa zona de conforto. É mais fácil culpar o sistema do que reconhecer nosso poder de transformação. Claro que as condições são difíceis. Claro que faltam recursos. Mas e daí? Vamos cruzar os braços até que tudo se resolva magicamente? O que podem fazer 2 milhões de professores unidos em um só propósito?
Sua sala de aula é SUA. Ninguém decide como você se relaciona com seus estudantes. Ninguém controla se você vai tratá-los com afeto ou indiferença. Ninguém determina se você vai inovar ou repetir a mesma aula de sempre. Ou não?
O governo não escolhe se você vai conhecer a história de cada aluno. Não decide se você vai adaptar atividades para incluir quem tem dificuldades. Não controla se você vai celebrar os pequenos avanços ou focar apenas nos problemas.
Esta geração de professores tem algo que outras não tiveram: acesso à informação. YouTube, plataformas gratuitas estão aí; e a Inteligência Artificial. Metodologias ativas, neurociência, inclusão − tudo ao alcance de um clique. A formação continuada não depende mais só de cursos caros. Os gestores escolares precisam enxergar isso.
Pare de esperar aprovação para ser criativo. Pare de pedir licença para ser humano. Pare de aguardar condições perfeitas para fazer a diferença. Os estudantes que estão na sua frente hoje não podem esperar. Inovação é saber utilizar as ferramentas que você já têm. Com cuspe e giz é possível dar uma aula temática, inovadora. Se tiver cola quente no meio, melhor ainda. Não é tão simples assim, não é fácil, mas está na hora de agir.
Cada aula sua é uma oportunidade de revolução silenciosa. Cada feedback verdadeiro constrói autoestima. Cada metodologia diferente desperta curiosidade. Cada conversa genuína fortalece vínculos.
O sistema pode ser lento, mas você não precisa ser. Sua prática pode inspirar colegas. Sua inovação pode contagiar a escola. Seu exemplo pode formar outros professores.
A transformação da Educação começa em você. No seu planejamento. Na sua postura. Na sua sala de aula. “O que faz um beija-flor ter vontade de voar?”
A escola é um organismo vivo em cujas veias a comunicação efetiva é seu sangue vital; é um lugar de crescimento, onde as pessoas se tornam cada vez melhores; e uma sociedade em miniatura, onde a prática de vida resultante da Educação plena e pura deve se manifestar primeiramente.
Passarei a analisar, agora, a vida prática no cotidiano escolar dentro da perspectiva dos relacionamentos interpessoais e da importância de princípios e valores na consumação dessa vida prática.
Os relacionamentos interpessoais interferem de forma positiva ou negativa no processo educativo. Alicerçados em princípios e valores, esses relacionamentos impactam significativa e efetivamente na prática de vida no cotidiano escolar.
Dessa forma, é fundamental que a escola se configure como um espaço de construção coletiva, onde o diálogo, o respeito mútuo e a escuta ativa sejam estimulados diariamente. Os laços estabelecidos entre professores, alunos, famílias e demais membros da comunidade escolar contribuem para formar um ambiente acolhedor, que potencializa o aprendizado e favorece o desenvolvimento integral dos estudantes.
No entanto, é curioso observar que esse ambiente “acolhedor” parece funcionar melhor no papel do que na prática. Exige-se bom acolhimento dos alunos (principalmente crianças), em detrimento dos professores. Os laços, quando não frouxos, são invisíveis, sustentados por reuniões esvaziadas e projetos pedagógicos que decoram gavetas, não mentes. A resistência a mudanças é quase institucionalizada − qualquer sugestão de inovação é vista como ameaça à ordem sagrada do quadro branco e da lousa de giz.
As famílias, por sua vez, costumam brilhar... pela ausência. Participar da vida escolar dos filhos, aparentemente, exige um tipo raro de disposição que nem a promessa de coffee break gratuito consegue despertar. O que se espera é que a escola eduque, forme, acolha, alimente e ainda envie boletins mensais como prova de vida acadêmica. De preferência com boas notas. Já o envolvimento familiar? Esse é opcional, como se educação fosse responsabilidade unilateral.
Mas sigo otimista. Afinal, em algum lugar entre o discurso institucional e a realidade cotidiana, ainda há quem acredite que transformação começa com diálogo – e eu sou um desses trouxas − mesmo que esse diálogo insista em acontecer em salas vazias, com eco. Palavras soltas no ar.
Quando os relacionamentos interpessoais são pautados por empatia, cooperação e justiça, eles se tornam elementos-chave para superar desafios, mediar conflitos e promover uma convivência mais humanizada. Por outro lado, relações marcadas por autoritarismo, intolerância ou indiferença tendem a enfraquecer o vínculo entre os sujeitos, comprometendo o processo de ensino-aprendizagem.
Cabe aos professores refletir sobre suas atitudes, práticas e discursos? Buscar sempre cultivar vínculos saudáveis e colaborativos? É... Para todos os efeitos, o exemplo cotidiano é uma ferramenta poderosa na formação de valores e na criação de uma cultura escolar mais justa e solidária. Afinal, ensinar é também um ato de relação − e é nessa troca que se constrói uma Educação escolar significativa, capaz de transformar não apenas o conhecimento, mas também os sujeitos envolvidos.
1. Os relacionamentos interpessoais
A sala dos professores e as salas de aula são os termômetros dos relacionamentos interpessoais dentro da escola. É nesses dois locais que encontramos elementos inflamáveis propícios ao fogo do desentendimento. Infelizmente, a realidade de muitas escolas públicas é que a sala dos professores tem se tornado um palco de intrigas, desavenças, fofocas, divisões, quando deveria ser um lugar de troca de ideias, de experiências, de descontração. Se não se fala mal do colega, fala-se mal dos alunos. E reclamam da direção, do secretário de Educação, do governo, do sorveteiro da esquina, da vovó careca. Quarenta anos de magistério, em treze diferentes escolas, propiciaram-me ver muita coisa; portanto, sei o que afirmo. Assim, como categoria profissional, os professores tornam-se cada vez mais desunidos.
Não somente na sala dos professores e nas salas de aula, mas em toda a escola a comunicação deve fluir de maneira aberta, positiva e construtiva, com bastante diálogo e respeito às diferenças. Ninguém é obrigado a pensar da mesma forma que eu, mas precisa respeitar o meu ponto de vista. Eu, por minha vez, não devo pensar mais de mim além do que convém, pois não sou melhor do que os outros. Eu me fiz entender?
Nas escolas há muitos professores, mas apenas um corpo docente; e, como corpo, é dividido em vários membros. Todos no mesmo nível de importância no processo educacional. Um corpo dividido é um corpo morto. Dessa forma, se houver dissensão entre os professores, isso afeta toda a escola como um veneno.
Que exemplos passam as professoras e os professores aos alunos se há relacionamentos quebrados entre eles? Que tipo de exemplos dão aos estudantes tanto diretores e coordenadores pedagógicos que perseguem determinados professores? E de alguns secretários escolares em relação aos técnicos da secretaria? É vergonhoso o que acontece nesse sentido em algumas escolas públicas de nosso país. E privadas também.
A relação entre professores e alunos é de fundamental importância no processo educativo. Como é o relacionamento dos professores com os alunos? E dos alunos com os professores? Lecionar é relacionar-se. A Educação, seja ela formal ou não, é relacionamento. Antes de serem professores e alunos, ambos são seres humanos e, dentro do possível, no que depender de cada um, devem ter paz com todos.
O caráter se forma nos relacionamentos interpessoais diários. A lixa está para a madeira assim como os relacionamentos interpessoais estão para o indivíduo. Nesse sentido, também, a escola é um lugar de formação do caráter. A Educação escolar plena e pura preocupa-se com os relacionamentos interpessoais e com a formação do caráter, que ocorre paulatinamente, por meio do conhecimento. Mas o que os conteúdos das disciplinas têm a ver com todo esse discurso? Tudo! De nada adianta um aluno aprender a fazer análise sintática e resolver equações se isso não contribuir para torná-lo um ser humano melhor e um cidadão pleno. É preciso saber somar, e que ela e eu somos nós.
Os relacionamentos interpessoais entre professores e professores, entre professores e alunos e entre alunos e alunos, numa colaboração mútua, é que levarão a sociedade a compreender e a reconhecer o verdadeiro valor da Educação escolar.
Embora o ideal expresso no texto ressalte a importância da colaboração entre professores e alunos como base para uma Educação escolar valorizada pela sociedade, infelizmente, o cenário que muitos professores têm enfrentado na realidade se afasta e muito desse princípio.
Nos últimos anos, têm se intensificado episódios de conflitos interpessoais e de indisciplina que comprometem gravemente o ambiente escolar. Em especial, as brigas entre alunos e os casos de agressões verbais e físicas direcionadas aos professores revelam um clima de tensão que contradiz a proposta de cooperação mútua.
A proibição do uso de celulares em sala de aula, pensada como medida para melhorar o foco e o respeito nas atividades escolares, acabou gerando efeitos colaterais inesperados. Muitos professores relatam que, após essa proibição, aumentaram os confrontos diretos com alunos que se recusam a seguir a regra − resultando em embates acalorados, atitudes de desrespeito e, em alguns casos, ameaças e agressões físicas.
Esses comportamentos expõem uma fragilidade na construção dos vínculos pedagógicos de respeito que deveriam sustentar a prática educacional. O ideal de relações respeitosas e produtivas, que levem ao reconhecimento do verdadeiro valor da Educação, tem sido eclipsado pela necessidade urgente de lidar com a desvalorização do professor, a falta de limites, e a ausência de suporte emocional e institucional dentro da escola.
Deixo aqui uma humilde proposta de abordagem: ao escrever para outros professores, creio ser potente trazer essa análise como forma de provocar o debate sobre: o suporte que o professor precisa para atuar com segurança; o papel da gestão escolar e da família na reconstrução das relações respeitosas; a importância de políticas públicas que valorizem o professor e ofereçam estratégias de mediação de conflitos.
2. Princípios e valores na prática de vida
A escola, como organismo vivo, é um lugar de crescimento e uma sociedade em miniatura. O crescimento e o viver em sociedade envolvem a vida prática. E a escola somente faz sentido se essa prática de vida for pautada em princípios e valores.
Princípios são bases morais ou éticas pelas quais se rege o comportamento humano em sociedade; são verdades fundamentais ou preceitos morais. Valores são conjuntos de princípios, ideais e julgamentos morais. Mas não deve haver uma disciplina específica para isso nas escolas – muito menos ensino religioso; princípios e valores podem ser aprendidos e internalizados mediante a aquisição do conhecimento, construído na ministração dos conteúdos das disciplinas. Em Ciências, no ensino fundamental, ou em Biologia, no ensino médio, o estudo do corpo humano nos dá um excelente base para aprendermos sobre isso.
A construção de uma sociedade mais justa, respeitosa e equitativa passa, inevitavelmente, pelo desenvolvimento e aplicação de princípios e valores no cotidiano das relações humanas. A escola, como espaço de formação intelectual e ética, desempenha um papel central nesse processo, pois é nela que os indivíduos têm a oportunidade de vivenciar, compreender e internalizar valores fundamentais para a convivência social.
Os conteúdos não devem ser vistos apenas como informações técnicas, mas como caminhos para reflexão sobre a vida em sociedade. Ao estudar, por exemplo, o funcionamento do corpo humano, o aluno aprende que cada sistema depende do outro − revelando uma lógica de interdependência que pode ser aplicada às relações humanas. Assim como o cérebro não funciona sem o coração, o indivíduo não se desenvolve plenamente sem o apoio da coletividade.
Essa analogia evidencia que a prática da colaboração, do respeito mútuo, da responsabilidade, da empatia e da solidariedade são essenciais para o bem-estar comum. Valores como esses não são impostos, mas são construídos e vivenciados no dia a dia, por meio das relações interpessoais.
Portanto, a Educação formal não se limita à transmissão de conteúdos; ela é uma ponte para a transformação da sociedade. É por meio dela que os cidadãos aprendem a valorizar o outro, a agir com ética e a participar de forma ativa e consciente da vida em comunidade.
De nada adianta pregar uma pedagogia do afeto se a teoria for desvinculada da prática. E, na escola, o lugar do afeto é na educação infantil e, quando muito, na alfabetização. Professor não é parente, não é amigo e muito menos inimigo dos alunos. O relacionamento entre os dois deve ser pautado no respeito e no amor ao próximo. A pedagogia da Educação escolar plena e pura é, portanto, a pedagogia da prática de vida. E se essa pedagogia não for fundamentada em princípios e valores, e refletir primeiramente na vida prática dentro da escola – nas atitudes, na linguagem, nos relacionamentos –, todos perdem o seu tempo trabalhando conteúdos imensos, os quais irão se perder ao longo do caminho.
O baixo linguajar utilizado por muitos professores e professoras, vergonhoso para qualquer cidadão, o é muito mais para um “educador”. Coloquei entre aspas, porque professor não é educador. São palavras torpes, chocarrices, todo um vocabulário de baixo calão. Um indivíduo que não pauta sua vida em princípios e valores não deveria ser professor. Quem relativiza ou menospreza a moral e os bons costumes não está qualificado para ser professor. Não estou aqui fazendo apologia ao conservadorismo (principalmente o falso conservadorismo que temos visto por aí).
A realização da Educação escolar somente faz sentido quando fundamentada em princípios e valores e aplicada no viver diário do indivíduo. Vida é o objetivo da Educação. E a prática de vida tem a ver com o tipo de formação que a escola consegue dar aos alunos.
A edificação de uma sociedade justa, equitativa e pacífica, portanto, é o resultado do crescimento de muitos indivíduos como cidadãos plenos dentro da escola. E essa edificação e esse crescimento implicam o ensino de princípios e valores por meio do conhecimento.
A Educação escolar é como alicerce para uma sociedade ética e solidária. A Educação tem um papel transformador na construção de uma sociedade mais justa, consciente e colaborativa. Ela não apenas transmite conhecimentos técnicos, mas também forma, ainda que indiretamente, o caráter e os valores dos indivíduos, preparando-os para viver em comunidade com respeito e responsabilidade.
Nesse sentido, a parceria com a família e a comunidade é fundamental. A educação de valores é mais eficaz quando há envolvimento dos pais e da sociedade no processo formativo. Tais são os impactos na sociedade: redução de comportamentos violentos e intolerantes; maior engajamento em causas sociais e ambientais; relações interpessoais mais saudáveis e respeitosas; resistência a práticas antiéticas e corruptas.
A Educação baseada em valores não é apenas uma estratégia pedagógica − é uma necessidade urgente para formar cidadãos que saibam conviver com as diferenças, tomar decisões éticas e contribuir para o bem comum.
3. A vida prática no cotidiano escolar
Como tem sido a realidade da escola contemporânea? Conturbada. A escola, que historicamente foi vista como um espaço de formação, acolhimento e construção de valores, hoje enfrenta uma série de desafios que colocam em xeque seu papel na sociedade. O ambiente escolar tem se tornado, em muitos casos, um cenário de conflitos, tensões e desmotivação − tanto para os alunos quanto para os professores.
A desmotivação dos estudantes é perceptível. Muitos chegam à escola como se estivessem apenas cumprindo uma obrigação, sem entusiasmo, sem interesse pelo aprendizado. O mundo digital oferece estímulos mais rápidos e atrativos, e o currículo escolar, muitas vezes engessado, acaba não dialogando com as reais vivências dos jovens. Pelo mesmo é assim que pensam muitos pesquisadores das academias. Nesse contexto, o celular tornou-se um personagem central: proibido em sala de aula, mas desejado pelos alunos como extensão de si. Essa proibição gera revolta, resistência e uma tensão constante entre controle e liberdade.
A indisciplina é outra face desse problema. A falta de limites, o desconhecimento do papel da escola e a ausência de diálogo entre família e instituição contribuem para comportamentos cada vez mais desrespeitosos. O bullying − antes visto como brincadeira − hoje é identificado como um problema sério, que afeta profundamente a saúde emocional dos envolvidos. Em alguns casos, a agressividade ultrapassa as barreiras verbais, alcançando níveis preocupantes de violência física, inclusive contra os próprios professores.
O professor, figura essencial no processo educativo, tem enfrentado não apenas a sobrecarga de trabalho, mas também o desrespeito. A autoridade docente é constantemente questionada, e sua atuação muitas vezes desacreditada. Isso gera desgaste emocional e sensação de impotência diante de um sistema e de uma sociedade que pouco valorizam o trabalho pedagógico.
Apesar do cenário sombrio, é preciso resistir. Mais do que nunca, a escola precisa ser espaço de conhecimento, de aprendizado.
É necessário escutar os alunos, adaptar as práticas pedagógicas e fortalecer os vínculos entre escola, família e comunidade. Só com diálogo, empatia e ações concretas será possível reconstruir a confiança e transformar o ambiente escolar num local de pertencimento e aprendizado significativo.
A escola não tem sentido de existir se não estiver totalmente voltada para a vida prática do indivíduo, a vida prática do cidadão e a vida prática da sociedade. A Educação recebida na escola [o conhecimento] consuma-se na vida prática. E essa vida prática deve começar primeiramente no cotidiano escolar. O crescimento de vida de cada indivíduo por meio da Educação escolar plena e pura é o resultado do trabalho pedagógico e do relacionamento interpessoal no cotidiano da escola. Só que não tem sido tão fácil assim. Aliás, nunca foi fácil. Mexer com gente é complicado.
O viver diário no ambiente escolar visa à prática de vida. Qual é o aspecto principal da conduta da equipe escolar e dos alunos? É a vida prática dentro da escola. O cotidiano escolar é a praticabilidade da vida em sociedade. A prática de vida em sociedade é entendida e concretizada na vida prática da escola, pois a vida na escola é corporativa. A escola, como já vimos, é um organismo vivo. Se almejamos praticar uma vida justa, equitativa e pacífica, necessitamos experimentá-la e experienciá-la primeiramente no cotidiano escolar, desde a Educação infantil até o ensino médio. E isso é muito fácil. Na teoria. Na prática, são outros quinhentos. Para isso, é preciso derrubar o errôneo conceito de que tudo é relativo e também aceitar as diferenças.
A consumação da Educação escolar pura e plena é a vida prática em sociedade. A escola é a sociedade em miniatura. É no cotidiano escolar, então, que primeiramente essa Educação deve se consumar como expressão prática. E a genuína vida da escola depende de uma comunicação efetiva e de um relacionamento interpessoal saudável.
A vida escolar, esse verdadeiro “laboratório de convivência”, deveria ser o espaço por excelência onde se pratica o respeito, o diálogo, a empatia, a tolerância... tudo aquilo que colocamos com letras garrafais nos Projetos Políticos Pedagógicos e nos murais da sala dos professores. Mas, convenhamos, entre a utopia e o intervalo das 9h15 [como exemplo], existe um abismo com nome e sobrenome: realidade educacional.
Café e sobrevida. Enquanto defendemos a Educação como prática de cidadania e justiça social, lidamos, ao mesmo tempo, com faltas de estrutura, sobrecarga de trabalho, salários que parecem piadas mal contadas e alunos que vivem outras urgências. O recreio, muitas vezes, é o único momento real de expressão livre − e até aí tem cronômetro, criticam os estudantes.
Repetimos, repetimos... só não aprendemos. Insistimos que a escola deve ser o reflexo de uma sociedade justa, mas esquecemos que a sociedade que entra pela porta da escola não vem com filtro. Ela traz preconceitos, desigualdades, disputas de poder e − claro − aquele velho hábito de resolver tudo “pela força do costume”. E o costume, nesse caso, é justamente o oposto do que sonhamos ensinar.
Relacionamento interpessoal saudável. Esse conceito é lindo no papel. No entanto, já tentou aplicá-lo num conselho de classe em que se discute se um aluno pode ou não ser aprovado “pelo comportamento”? Ou quando a comunicação entre gestores e professores acontece só por WhatsApp ou por bilhetes no quadro de avisos? É preciso mais que empatia − é preciso organização, escuta, e um bom café (sem açúcar, por favor, a saúde importa).
Na teoria, somos referência mundial. A escola é essa miniatura de sociedade onde se aprende a respeitar o outro − contanto que não grite demais, não questione demais, e não fale sobre temas "polêmicos" em aula. Na prática, lecionar é quase um ato de resistência. Ser professor é participar de um movimento de construção que nunca termina, mesmo quando as paredes da sala ameaçam desabar − literalmente ou metaforicamente.
A Educação escolar plena e pura, aquela que consta nos documentos oficiais e nos discursos inflamados de abertura de ano letivo, é defendida como o caminho do crescimento individual e da transformação social. Teoricamente, a escola deveria ser o espaço onde valores como justiça, equidade e paz são vividos na prática. Mas como diria aquele velho meme educacional: “Só que não.” A realidade escolar insiste em nos lembrar que a teoria é um luxo e que a prática tem gosto de merenda fria.
Teoria brilhante, palco instável. A escola deveria ser vista como um organismo vivo, uma sociedade em miniatura, onde a convivência é laboratório diário de cidadania. No entanto, esse experimento social está submetido a variáveis pouco controláveis: estruturas precárias, desigualdades gritantes, relações humanas complexas e uma carga de expectativas que não caberia nem em três turnos; e muito pedagogismo importado. Os professores tentam exercer seu papel de mediadores do saber enquanto equilibram projetos, avaliações e reuniões que começam antes do primeiro café.
E a fatídica reprodução de vícios sociais? Paradoxalmente, o ambiente escolar muitas vezes reproduz os mesmos padrões excludentes que deveria combater. Relações hierárquicas rígidas, meritocracia disfarçada e “conselhos de classe” nos quais o comportamento pesa mais que o aprendizado real são sintomas de uma escola que espelha os vícios da sociedade, sem conseguir filtrá-los. E ainda assim, espera-se que o professor, armado apenas de seu diário de classe e boa vontade, implemente transformações profundas no comportamento dos alunos. Quase um super-herói − só que sem capa, sem poderes e com salário parcelado [Já trabalhei com salário atrasado; e foi no ano em que iniciei minha jornada no magistério].
Relacionamento interpessoal: mito ou realidade? O relacionamento interpessoal saudável é constantemente mencionado como pilar da Educação. Nas formações pedagógicas, ele aparece como solução para todos os males: indisciplina, evasão, desmotivação. Fora os que pregam a pedagogia do afeto. Mas o que acontece quando esse ideal colide com jornadas exaustivas, falta de escuta institucional e a pressão por resultados imediatos? A convivência escolar exige mais que empatia − exige coragem para questionar, disposição para reorganizar estruturas e, sim, resistência para seguir educando em ambientes que nem sempre favorecem o encontro humano verdadeiro.
Aceitar diferenças: tarefa urgente. Urgentíssima! Outro desafio é desconstruir o conceito de que “tudo é relativo”, especialmente quando usado para justificar falta de limites ou ausência de princípios éticos claros. Conviver com as diferenças requer mais que slogans − requer estrutura para lidar com conflitos, tempo para escutar, formação continuada e políticas que sustentem práticas inclusivas de fato. E, claro, requer reconhecer que a Educação não se resolve apenas com boas intenções e atividades em datas comemorativas. Inclusão é só da boca para fora.
E finalizemos aqui, entre a utopia e o boletim final. A escola, essa sociedade em miniatura, é o espaço onde a Educação formal deve se consumar como prática de vida coletiva. Mas para que isso se realize, é necessário encarar as contradições do cotidiano escolar com lucidez e senso crítico. É preciso ir além das frases de efeito e enfrentar os desafios com criatividade e perseverança − porque mexer com gente é complicado, sim, mas também é a única forma possível de transformar o mundo, uma turma por vez. Não basta ficar repetindo citações de Rubem Alves, Paulo Freire, Piaget, e por aí vai.
Sem sombra de dúvidas, é no cotidiano escolar que os relacionamentos interpessoais, pautados em princípios e valores, proporcionam o crescimento e a edificação de cada indivíduo, tendo como forma de expressão a vida prática dentro da escola, que nada mais é que a sociedade em miniatura. O que transcorre ali em seu cotidiano será, obviamente, refletido lá fora, na comunidade.
Caráter é o marco ou o traço distintivo, o modo de ser próprio. O caráter da escola pública é aquilo que ela é, o que determina a sua integridade, a qualidade da Educação por ela oferecida.
Esse caráter não se constrói da noite para o dia. Ele é moldado pelas práticas cotidianas, pelas decisões pedagógicas, pela forma como a escola se relaciona com os estudantes, com as famílias e com a comunidade. Está presente na maneira como os profissionais da Educação atuam, acolhem e ensinam.
A escola pública, quando fiel ao seu caráter, garante que cada aluno tenha oportunidade de aprender com dignidade, respeitando suas diferenças e valorizando seu potencial. Não podemos nos esquecer de que os professores precisam trabalhar com dignidade, serem respeitados em suas diferenças e valorizados profissionalmente. Esse compromisso fortalece a confiança da sociedade na escola e reafirma seu papel como espaço de construção do conhecimento, da cidadania e da transformação social.
Simplificando, caráter é como a escola é de verdade. Mostra o jeito dela de funcionar e cuidar da Educação formal dos alunos.
Esse jeito não aparece de repente. Ele vai sendo formado com o tempo, pela forma como os professores ensinam, como tratam os estudantes e como a escola conversa com as famílias e com a comunidade.
Quando a escola pública mostra seu verdadeiro caráter, ela ajuda todos os alunos a aprenderem com respeito e atenção. Isso faz com que as pessoas confiem na escola e vejam nela um lugar importante para aprender, crescer e mudar a sociedade.
Tendo como parâmetro a Educação plena e pura, analisarei agora a escola pública em relação às ideologias, à Psicologia, à religião e a sua relação com a tecnologia e a língua.
Ideologia é um sistema de ideias que orienta comportamentos sociais, políticos ou culturais, geralmente baseado em crenças dogmáticas, interesses de grupos e convicções subjetivas.
A vaidade das ideologias é um espetáculo recorrente no palco social. Travestidas de verdades absolutas, elas seduzem com promessas de ordem, progresso ou justiça, mas frequentemente conduzem a becos sem saída intelectuais. Ao se tornarem lentes únicas pelas quais os indivíduos enxergam o mundo, negam complexidade, sufocam o diálogo e alimentam polarizações.
No contexto escolar, essa rigidez é especialmente prejudicial. A Educação formal exige abertura, diversidade de perspectivas e liberdade de pensamento. Quando ideologias se tornam dogmas na sala de aula, impedem o florescimento do conhecimento crítico. Os livros e os professores viram porta-vozes de crenças, não guias de descobertas. Os alunos, reféns de narrativas, perdem a oportunidade de aprenderem a pensar por si mesmos.
Pior ainda é quando a vaidade ideológica se alia à arrogância intelectual: o sujeito não quer aprender, quer confirmar. A escola, então, deixa de formar cidadãos e passa a fabricar militantes. E é por isso que vejo o ensino religioso nas escolas públicas como um veneno, uma doutrinação, partindo do professor.
No fim das contas, será que a verdadeira função da ideologia é pensar o mundo… ou apenas convencer os outros de que ele já está pensado?
A ideologia, por definição, é um conjunto de ideias que orienta a visão de mundo de indivíduos ou grupos. Ela pode ser útil para organizar o pensamento, mas também pode limitar a capacidade de questionar, especialmente quando se torna dogmática ou invisível − ou seja, quando é aceita como “natural” sem reflexão.
O pensamento crítico, por outro lado, é a habilidade de analisar, questionar e avaliar ideias, inclusive as que parecem óbvias. Ele busca desmontar certezas, investigar pressupostos e abrir espaço para múltiplas interpretações.
Como se relacionam? O pensamento crítico desafia ideologias cristalizadas, revelando seus interesses ocultos e contradições. É como acender uma luz em um quarto onde todos estavam acostumados à escuridão. Para ser crítico, é preciso reconhecer que se está imerso em ideologias. Ou seja, o pensamento crítico nasce da consciência de que há ideologias em jogo. Quando o pensamento crítico se torna refém de uma ideologia específica, ele deixa de ser crítico e vira militância disfarçada de reflexão.
Segundo a Teoria Crítica do Discurso, ideologias operam por meio da linguagem, naturalizando relações de poder e mascarando desigualdades sociais. O pensamento crítico, nesse contexto, é a ferramenta que desvela essas estruturas e propõe alternativas.
Em sala de aula, por exemplo, um professor que estimula o pensamento crítico ajuda os alunos a perceberem que o mundo não é como é “porque sempre foi assim”, mas porque há forças − ideológicas − que o moldam. E que ele pode ser transformado.
Então, se a ideologia é o figurino... o pensamento crítico é o figurante que se recusa a seguir o roteiro?
A vaidade das ideologias é um dos grandes inimigos da escola pública e da Educação formal, seja ela pedagógica, política, político-partidária, social, econômica, cultural, religiosa ou quantas quisermos nomear aqui. A ideologia tira-nos a capacidade de discernimento, impossibilitando-nos de enxergar a realidade que nos cerca com mais clareza. O encharcamento ideológico fanatiza ou aliena o indivíduo. O fanatismo é uma paixão incondicional ou uma adesão cega a um sistema ou doutrina. A ideologização do indivíduo o imbeciliza, pois faz com que ele observe a vida e tente resolver os problemas da vida apenas com enfoque ideológico.
Ideologia é mais que um conjunto de ideias, valores, regras, crenças, tradições e mitos, sustentados por um indivíduo ou grupo social. Ela é um pensar sistemático que se torna em premissa absoluta, pela qual se enxerga, se observa, se analisa e se julga tudo na história, na vida, no cotidiano. A ideologia impede o indivíduo de ver as diferenças em geral.
E a neutralidade, é uma ideologia disfarçada? A ideia de que alguém pode ser 100% neutro em relação a ideologias é, no mínimo, ingênua. Todo indivíduo carrega consigo uma bagagem de valores, crenças, experiências e visões de mundo − e isso molda a forma como interpreta a realidade. Mesmo quando alguém afirma ser “neutro”, essa postura já revela uma escolha: a de se posicionar fora dos conflitos, o que, paradoxalmente, é um posicionamento. Esclareço que ser neutro aqui não significa ser passivo diante do mundo, mas olhar o mundo do lado de fora das principais ideologias que nos cercam, e agir a partir dessa neutralidade. Eu me fiz entender?
Optar pela neutralidade é tomar partido da não tomada de partido. Isso já é uma forma de ver o mundo − e, portanto, ideológica. Mas eu prefiro essa forma que as demais. Infelizmente, a neutralidade absoluta muitas vezes serve para mascarar interesses. Algumas pessoas se dizem neutras apenas para evitarem se comprometer, mantendo uma aparência de objetividade enquanto defende, silenciosamente, o status quo. Não é esse o meu perfil.
Em contextos políticos e educacionais, a neutralidade, algumas vezes, pode ser usada como estratégia para deslegitimar vozes críticas. Ao dizer “não sou ideológico”, o sujeito se coloca como superior, como se estivesse acima das disputas − o que é, ironicamente, uma posição ideológica elitista. Pois é: se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. E agora, quem poderá nos defender?
Conforme apontam pensadores [ideólogos?] como Max Weber e Pierre Bourdieu, até mesmo a ciência, que busca objetividade, é atravessada por valores e interesses. A escolha do que se pesquisa, como se pesquisa e para quem se pesquisa já carrega ideologia. E a Inteligência Artificial? O que podemos dizer sobre o Grok e o DeepSeek?
Sem querer generalizar, na escola, por exemplo, o professor que diz ser neutro pode estar, sem perceber, reproduzindo ideologias dominantes − como o conservadorismo, o liberalismo ou o tecnicismo − enquanto silencia outras perspectivas.
Então, se toda ideologia é um par de óculos... será que a neutralidade é só um modelo transparente que finge não estar ali? Óculos de sol?
O ditado “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come” é praticamente o slogan oficial das ideologias radicais. Danou-se. Estamos é lascados! Quando o indivíduo tenta escapar da polarização, é acusado de covarde ou omisso. Se decide se posicionar, é imediatamente rotulado, enquadrado e devorado pelo “bicho” da patrulha ideológica.
A ideologia, nesse contexto, é o próprio bicho: faminto por certezas, intolerante com nuances e impaciente com dúvidas. Ela exige fidelidade cega, como se pensar fosse uma ameaça. E o sujeito que ousa refletir, ponderar ou discordar... vira almoço.
Na escola, esse dilema é ainda mais cruel. O professor que tenta ser plural é acusado de doutrinar. O que se cala, é cúmplice do silêncio. Já o aluno, entre correr e ficar, aprende que pensar demais pode ser perigoso − melhor decorar e repetir?
No fim das contas, talvez o ditado esteja incompleto. Porque, com ideologia demais, até quem voa... vira caça. Como escreve Machado de Assim em seu livro “O alienista”: Preso por ter cão, preso por não ter cão.
E aí, será que o bicho é ideológico ou só está com fome de certezas absolutas?
As ideologias pedagógicas – que eu costumo chamar de pedagogismos – não têm a realidade e a essência da Educação, mas apenas um nome exterior; não permitem aos profissionais da Educação formal vivenciar substancialmente a práxis, pois são voltadas apenas para a teoria; são totalmente falhas devido a sua imperfeição e incompletude. As ideologias pedagógicas, ao contrário do que muitos professores pensam, não são passíveis de aperfeiçoamento nem de contextualização. Elas não são a base da Educação plena e pura. A verdadeira Educação escolar não está baseada em ideologias.
Se a neutralidade já é uma ideologia disfarçada, as teorias pedagógicas importadas funcionam como seus acessórios de luxo: elegantes, bem-intencionadas, mas nem sempre ajustadas à realidade local. Muitas vezes, coordenadores pedagógicos e professores adotam modelos estrangeiros com a esperança de modernizar o ensino, sem perceber que estão vestindo um figurino que não foi feito sob medida para o nosso palco social. A cultura é outra, o contexto social é outro, a geografia é outra.
Existe aquela teoria que valoriza a construção do conhecimento pelo aluno, mas exige condições materiais e formação docente que nem sempre estão presentes nas escolas brasileiras. Sem estrutura, vira um teatro improvisado.
Outra já foca na aprendizagem mediada pela interação social. Excelente em teoria, mas em salas superlotadas e com professores sobrecarregados, a mediação vira monólogo. E a saúde mental dos professores vai para o beleléu.
Ainda persiste uma, disfarçada, que reforça comportamentos por meio de estímulos e recompensas. Quando aplicado sem crítica, transforma a escola em um laboratório de condicionamento, onde o aluno aprende a agradar, não a pensar.
E o que dizer daquela propõe que cada aluno tem talentos únicos. Mas sem políticas públicas que garantam recursos e formação, essa teoria vira apenas um cartaz bonito na parede da sala. Na vida fora da escola, tudo bem; mas isso não funciona dentro de uma sala de aula.
Outra sugere revisitar conteúdos com complexidade crescente. Na prática, com calendários apertados e pressão por resultados, o espiral vira um carrossel desgovernado. No final do ano letivo, sobram alunos caídos em volta.
Essas teorias têm valor, sem dúvida. Já li e estudei muitas delas. São cientificamente importantes. Mas quando importadas sem adaptação crítica, podem reforçar a ideologia da neutralidade: aquela que finge que ensinar é só aplicar métodos, ignorando contextos sociais, culturais e históricos. E são elas ensinadas nas graduações para formação de professores nas faculdades. E bem distantes da prática.
No fim das contas, será que estamos ensinando com teorias... ou apenas encenando um espetáculo pedagógico com roteiro estrangeiro e plateia desatenta?
Por trás de cada ideologia há interesses de grupos ou de indivíduos. Não existe ideologia falsa e ideologia verdadeira. Toda ideologia é enganosa. Tanto a ideologia dos que dominam quanto a dos que são dominados têm o mesmo objetivo: dominar. Por isso, toda mente posta em determinada ideologia é inimiga da Educação. É impossível que professores, coordenadores e gestores trabalhem com a Educação formal sem contaminá-la se forem muito ideologizados. As diversas ideologias objetivam o controle da mente e, por conseguinte, o controle da sociedade. A mente posta na ideologia é uma mente imbecilizada, ignorante, morta. As ideologias se opõem ferrenhamente à efetivação da Educação escolar plena e pura por ela ser conscientizadora, transformadora, edificadora, e promover a libertação do indivíduo. A ideologia exacerbada, portanto, é um inimigo a ser banido da escola pública.
Os imbecis e medíocres deixam-se fanatizar pelas ideologias; os sábios, em seus ideais, buscam a Educação pura e plena. A Educação pura não cria protótipos formatados em ideologias; ela abre a mente do indivíduo. Por isso as ideologias não devem se colocar no caminho da Educação escolar.
Não devemos confundir ideólogos com idealistas. Enquanto aqueles têm uma mente quantitativa, estes têm uma mente qualitativa. Quem possui um ideal está apto à mais elevada função do indivíduo: pensar; quem segue uma ideologia torna-se escravo dela. A sociedade, para se tornar justa, equitativa e pacífica, necessita de forjadores de ideais. Os ideólogos fanáticos se assemelham aos supersticiosos, que vivem abaixo do nível mínimo de inteligência.
Todos nós estamos sujeitos à ideologização, pois vivemos cercados de ideologias por todos os lados. Porém, podemos evitar que elas contaminem nossa mente e nos domine, mutilando a nossa consciência. Todos nós corremos o risco de sermos contaminados, mas podemos resistir a elas. A Educação plena e pura pode impedir que sejamos condicionados por esses modismos ideológicos.
A relativização da verdade e absolutização ideológica, eis duas grandes armadilhas para a escravização de nossas mentes. Que não nos conformemos com este século (mundo ideologizado), mas nos transformemos pela renovação de nossa mente foi o conselho deixado pelo apóstolo de Tarso.
A Educação escolar plena e pura é a maior inimiga das ideologias.
Primeiramente, duas definições fundamentais. Psicologia é a ciência que estuda o comportamento humano e os processos mentais, como emoções, memória, cognição e aprendizagem. Ela se estrutura em várias abordagens teóricas (comportamental, cognitiva, humanista, entre outras) e tem como objetivo compreender, explicar e intervir nos fenômenos psicológicos com base em evidências científicas. Psicanálise, por outro lado, não é ciência, mas uma teoria e método terapêutico criado por Sigmund Freud, centrado na investigação do inconsciente. Ela considera que muitos comportamentos e conflitos emocionais têm raízes em desejos reprimidos, experiências infantis e dinâmicas inconscientes.
Compreender essas distinções pode ser útil no ambiente escolar. A psicologia pode embasar práticas pedagógicas, manejo comportamental e estratégias de aprendizagem. A psicanálise, por sua vez, oferece contribuições sobre o desenvolvimento psicossexual, formação do eu e os efeitos inconscientes nas relações, o que pode enriquecer reflexões sobre o papel do professor como figura simbólica na construção subjetiva dos alunos.
Embora a Psicologia e a Psicanálise compartilhem o interesse pelo entendimento da mente humana, elas se distinguem em aspectos fundamentais. A Psicologia, como ciência empírica, busca compreender o comportamento e os processos mentais por meio de métodos diversos e fundamentação científica. Já a Psicanálise, desenvolvida por Freud, foca na investigação do inconsciente, propondo que os conflitos emocionais têm raízes em experiências reprimidas e desejos inconscientes. Enquanto a Psicologia aplica abordagens variadas, como a terapia cognitivo-comportamental, geralmente com objetivos claros e duração definida, a Psicanálise se caracteriza por um processo mais longo e exploratório, baseado na interpretação de sonhos, lapsos e associações livres. Essas diferenças refletem visões distintas sobre o funcionamento psíquico e a forma de tratar o sofrimento humano.
A partir da década de 1970, tanto a Psicologia quanto a Psicanálise influenciaram bastante a forma como se pensava a educação nas famílias e nas escolas. Essas influências trouxeram avanços importantes, mas também geraram efeitos negativos que merecem atenção.
Com a valorização das teorias psicológicas e psicanalíticas, muitos pais passaram a acreditar que não deveriam impor limites rígidos aos filhos, com medo de causar traumas. A ideia de respeitar o “desejo da criança” ganhou força, e em alguns casos, isso levou a uma educação mais permissiva. Os pais, preocupados em não “reprimir” os filhos, acabaram deixando de exercer autoridade de forma equilibrada. Isso pode ter dificultado o desenvolvimento da responsabilidade e do respeito às regras nos jovens.
Nas escolas, houve uma tendência de colocar o aluno no centro do processo educativo, o que é positivo quando bem aplicado. Mas não foi esse o caso. Em certos contextos, essa mudança fez com que a figura do professor perdesse autoridade. A influência de ideias como "não se deve frustrar o aluno" e a supervalorização de sua subjetividade acabaram dificultando a criação de regras claras, rotinas e exigência de esforço. Isso contribuiu para indisciplina, falta de comprometimento e enfraquecimento dos vínculos entre ensino e aprendizagem.
Em resumo, as intenções eram boas − mais compreensão, mais liberdade, mais escuta − mas sem equilíbrio, essas mudanças deixaram lacunas na formação ética, na valorização do esforço e na autoridade saudável de adultos na vida das crianças. Psicologia e Psicanálise são valiosas, mas seu uso precisa estar aliado ao bom senso e ao contexto educacional. Nos cursos de Pedagogia e nas escolas, isso tem sido um desastre. E ouvi sobre as teorias de Freud nas aulas de Psicologia, no primeiro ano do curso de Letras. Mesmo já tendo lido o livro “O mal estar na civilização”, e outros textos de Freud, não vi como aquele conteúdo poderia ajudar na sala de aula. Talvez no maternal. E não era a minha área de atuação. Não faço a mínima ideia de como saber sobre a fase anal poderia me ajudar nas aulas no ensino médio (que na época se chamava segundo grau).
A Psicologia moderna e a Psicanálise são, respectivamente, uma ciência e uma teoria que influenciaram e continuam influenciando de maneira negativa a Educação formal e a Educação familiar. A Psicologia, no afã de buscar entender a mente e o comportamento humanos, provocou uma desordem nos dois ambientes, ou seja, na escola e no lar. Os problemas disciplinares, a falta de limites e de respeito se ampliaram a partir da década de 1970. Tudo foi se tornando relativo, e os princípios e os valores foram sendo deixados de lado. A escola pública foi e continua sendo uma das maiores prejudicadas devido à influência dessas teorias psicológicas de fundo de quintal na pedagogia.
A Psicologia é uma ciência valiosa, que tem contribuído profundamente para o bem-estar emocional, social e educacional das pessoas. Falo com propriedade, pois fui e sou diretamente beneficiado por ela em momentos importantes da minha vida. Por meio de profissionais sérios e preparados, encontrei e tenho encontrado apoio, orientação e compreensão − algo que me ajudou e me ajuda a lidar com desafios e entender melhor a mim mesmo e os outros. Posso citar aqui um estresse de sala de aula, uma depressão profunda diante de uma aposentadoria inesperada, e durante e depois de cinco meses de internação hospitalar devido a um acidente vascular cerebelar.
Nas escolas, especialmente neste tempo de inclusão, a verdadeira Psicologia desempenha um papel essencial. Com alunos cada vez mais diversos, com diferentes histórias, culturas, habilidades e necessidades, é preciso sensibilidade e conhecimento para criar um ambiente realmente acolhedor. A Psicologia oferece ferramentas que permitem entender os comportamentos, desenvolver a empatia, lidar com conflitos e promover o respeito mútuo.
No entanto, o que me causa preocupação são as teorias educacionais que algumas pessoas constroem a partir da Psicologia. Muitas vezes, essas ideias acabam distorcendo ou simplificando demais princípios complexos, gerando métodos pedagógicos que nem sempre funcionam na prática ou respeitam a realidade de cada escola. O problema não está na Psicologia em si, mas na forma como ela é utilizada para justificar modelos educacionais que se tornam impositivos, desconectados da sala de aula e, por vezes, até prejudiciais.
Defender a importância da Psicologia não significa aceitar todas as teorias que se dizem baseadas nela. É preciso discernimento para separar aquilo que realmente contribui para a Educação formal daquilo que apenas parece inovador, mas não traz benefícios reais. A Psicologia merece respeito, estudo sério e aplicação cuidadosa − principalmente no ambiente escolar.
As concepções psicopedagógicas em questão e a Educação escolar plena e pura são totalmente antagônicas. Essas teorias psicológicas têm por objeto o ego da pessoa; a Educação plena e pura objetiva a formação do ser social e a vida prática em sociedade.
A psicologização da Educação foi um dos grandes males que afetou a escola pública no século passado, e continua afetando até os dias atuais. Quando analisamos a vida e obra de Abraham Maslow, Carl Rogers e Carl Gustav Jung, por exemplo, percebemos que suas teorias psicológicas se aproximam mais do ocultismo do que a Educação. Por sua vez, Sigmund Freud, o pai da Psicanálise, era escravo de suas perversões sexuais e ingeria drogas alucinógenas. Que benefícios podem trazer as teorias de homens como esses para a Educação de nossas crianças e adolescentes?
A psicologia humanista contribui para que os indivíduos se tornem cada vez mais egoístas, amantes de si mesmos, preocupados com sua autoestima e sua autoimagem, o que serve de obstáculo para a edificação de uma sociedade justa, equitativa e pacífica. É a cultura do culto ao ego, ao “eu”, em detrimento do “nós”.
Corrigir a criança passou a ser uma heresia pedagógica, ainda que fosse um simples “e” maiúsculo escrito com caneta de tinta vermelha no exercício, no teste ou na prova do aluno. Punir, então, seja qual for a forma de punição, foi banido da escola. O resultado dessa “irresponsabilidade psicológica” está aí estampado em nossas escolas, na família e na sociedade para quem quiser ver. O “certo” deixou de ser certo e o “errado” deixou de ser errado; tudo se tornou relativo. E o interessante é que esses mesmos psicólogos partidários do relativismo são unânimes em afirmar que toda unanimidade é burra.
Muitos estudiosos de outras áreas se embrenharam também na Psicologia e nos fizeram o desfavor de ditar teorias para a Educação, a maioria encharcada de ideologias. Tudo vaidades e prejuízos incalculáveis para a qualidade da Educação.
A Psicologia de fundo de quintal e a Educação plena e pura estão em lados opostos.
3. A escola pública e a religião
O Estado brasileiro é laico, ainda que a Constituição Federal, conforme o seu Preâmbulo, tenha sido promulgada “sob a proteção de Deus”. O ensino religioso nas escolas públicas, portanto, é algo inconcebível e estapafúrdio. Para esse fim existem as escolas confessionais. Mesmo sendo cristão, sou radicalmente contra.
Em nosso país há diversos segmentos religiosos, e é impossível definir conteúdos que atendam a esses diferentes segmentos e assegure o respeito à diversidade religiosa do país, e muito menos habilitar e admitir professores isentos de uma ideologia religiosa para ministrá-los. De uma forma ou de outra haverá proselitismo. Escola pública não é lugar de ensino religioso.
Em lugar da disciplina ensino religioso, de “matrícula facultativa”, o ideal é que se ministre a disciplina Ética e Moral, ou Ética e Cidadania, não facultativa, da Educação infantil ao ensino médio, e se ensinem princípios e valores, incluindo, como exemplo, a vida prática de todos os profissionais da escola, especialmente os professores. Doutrinação religiosa nas escolas públicas não.
Nada mais a dizer sobre a escola pública e a religião.
O advento das diversas tecnologias e a tecnologização da sociedade têm mudado de forma intensa o processo educativo. Não vamos nos ater aqui nas carências das escolas públicas brasileiras em relação a equipamentos, internet etc. O nosso enfoque será sobre a utilização da tecnologia pelos indivíduos, na escola e individualmente, no dia a dia.
Ao longo das últimas décadas, a inclusão de tecnologias digitais nas escolas públicas brasileiras foi apresentada como uma solução quase milagrosa para os problemas estruturais da Educação. A crença de que bastaria equipar as escoas com laboratórios de informática transformaria o ensino revelou-se, no entanto, uma ilusão persistente e pouco eficaz.
No final do século XX, especialmente a partir de 1997, o governo federal lançou o Programa Nacional de Informática na Educação (ProInfo), com o objetivo de disseminar o uso pedagógico das tecnologias de informática e telecomunicações nas escolas públicas de ensino fundamental e médio. A iniciativa previa a instalação de laboratórios de informática, capacitação de professores e desenvolvimento de conteúdos digitais. A proposta parecia promissora: milhares de computadores seriam distribuídos, e a escola pública finalmente entraria na era digital.
Contudo, o que se viu na prática foi uma série de entraves que comprometeram os resultados esperados. A formação dos profissionais da Educação, elemento essencial para o sucesso do programa, foi negligenciada ou realizada de forma superficial. Muitos professores não receberam treinamento adequado para integrar as tecnologias ao currículo, e os laboratórios de informática, em vez de se tornarem centros de inovação pedagógica, acabaram funcionando como espaços isolados, subutilizados ou até abandonados.
Além disso, a manutenção dos equipamentos e a infraestrutura das escolas não acompanharam o ritmo da implantação tecnológica. Falta de conexão à internet, obsolescência dos computadores e ausência de suporte técnico tornaram os laboratórios vulneráveis ao tempo e ao descaso. A promessa de transformação digital esbarrou na realidade concreta das escolas públicas, marcadas por desigualdades, falta de recursos e políticas educacionais descontínuas.
A ideia de que a tecnologia, por si só, poderia revolucionar a Educação ignora que o processo de ensino-aprendizagem é complexo e exige mais do que ferramentas digitais. A Educação formal só funciona com a presença de cérebros humanos. E sem uma formação docente sólida, sem planejamento pedagógico e sem condições estruturais mínimas, os computadores não passam de máquinas desligadas em salas trancadas. Atualmente, com a Inteligência Artificial, tudo tende a se repetir.
Portanto, é preciso superar o discurso tecnicista e reconhecer que a tecnologia só tem valor educativo quando integrada de forma crítica, contextualizada e com intencionalidade pedagógica. O fracasso dos laboratórios de informática nas escolas públicas não foi da tecnologia em si, mas da crença ingênua de que ela poderia operar milagres em um sistema que ainda carece de investimentos humanos, materiais e políticos. Algumas escolas públicas têm até falta de giz.
Permitam-me analisar aqui a relação da escola com a tecnologia sob cinco aspectos. O primeiro deles é a crença de que as aulas dos professores se tornarão mais dinâmicas e criativas tendo à sua disposição equipamentos como data show, lousa digital, laboratório de informática etc. Isso não é verdade, pois a maioria não sabe como utilizá-los na sala de aula, e muitos que sabem logo esgotam suas opções didáticas, caindo na mesmice. Também não é qualquer um que sabe utilizar a internet em suas aulas, o celular e seus recursos diversos, tablets etc.
O segundo aspecto é a dependência do indivíduo em relação à tecnologia. Muitas vezes a escola não sabe dosar a utilização dessas diversas tecnologias disponíveis, que aumentam quase mensalmente, e orientar seus alunos na forma de usá-las para o seu crescimento como pessoa. O indivíduo geralmente vai perdendo sua ação e tornando-se cada vez mais dependente.
O terceiro aspecto é a má utilização da tecnologia, especialmente o celular e a internet. Quem atende a uma ligação no celular na sala de aula também vai fazê-lo na igreja, em uma reunião, e até mesmo ao volante. Na internet, nem todo conteúdo é confiável para pesquisas escolares, é necessário atentar para questões de direito autoral, além do que uns uma quantidade considerável de seu conteúdo é lixo. E vale lembrar ainda que quantidade de informação não é sinônimo de conhecimento.
O quarto aspecto é o risco de o indivíduo tornar-se viciado em tecnologias e ser dominado por elas, seja a televisão, o computador, o joguinho eletrônico, o celular etc. Enfim, o uso de telas. Não poucos se isolam por horas seguidas e levam uma vida solitária, sem relacionamentos pessoais.
O quinto e último aspecto é o “emburrecimento” do indivíduo. Isso mesmo. Aliado à dependência e ao seu domínio, esse aspecto é um dos que eu considero preocupante. E a escola tem contribuído para que isso se amplie a cada ano. Tomemos apenas dois exemplos bem simples, ignorados pela maioria, inclusive professores. Com o advento da calculadora, em seus diversos formatos, fazer contas básicas “de cabeça” ou no papel caiu em desuso, e o cérebro vai deixando de ser usado, exercitado; estudar tabuada se transformou em heresia. Ocorre que equipamentos costumam nos deixar na mão em momentos de extrema necessidade, e nem sempre dispomos de um; energia elétrica também pode faltar ou a bateria acabar. Agindo nessa dependência, o indivíduo se recusa a crescer em conhecimento, exercitando o seu ser em benefício próprio e de outros. Outro exemplo é a utilização de lápis e papel e o uso da letra cursiva. A caligrafia deu lugar aos rabiscos e garranchos ininteligíveis. O que está em voga é a digitação, ainda que “catando” teclas no teclado. E por aí vai. E tem gente que ainda brilha os olhos quando fala em caderno digital. Não estou afirmando, como alguns, que a tecnologia ou a IA emburrece os estudantes; o que emburrece é não saber utilizar da forma correta. Não querer usar na Educação já é burrice.
Fica isso aqui exposto para reflexão.
Um adendo aqui como exemplo. A Suécia recuou na Educação 100% digital; vejamos as lições de um experimento ousado.
Nos últimos anos, a Suécia chamou atenção do mundo ao apostar fortemente na digitalização das escolas. Desde a década de 1990, o país investiu em computadores, tablets e materiais didáticos digitais, com a expectativa de modernizar o ensino e ampliar o acesso ao conhecimento. A proposta parecia promissora: mais interatividade, autonomia dos alunos e recursos multimídia para enriquecer as aulas.
No entanto, os resultados não corresponderam às expectativas. Estudos recentes, como o PIRLS 2021, mostraram queda no desempenho dos estudantes suecos em leitura: de 555 pontos em 2016 para 544 em 2022. Além disso, professores e pais começaram a relatar dificuldades de concentração, menor esforço na escrita e leitura superficial por parte dos alunos. A digitalização excessiva também dificultou o acompanhamento das tarefas escolares pelas famílias, já que os materiais digitais nem sempre eram acessíveis ou compreensíveis para quem não domina as plataformas.
Diante desses problemas, o governo sueco decidiu rever sua estratégia. Em dezembro de 2022, a ministra da Educação, Lotta Edholm, anunciou um plano de reintrodução dos livros impressos nas escolas. O país se propôs a investir cerca de 45 milhões de euros para garantir que cada aluno tenha ao menos um livro físico por disciplina. A decisão foi embasada em evidências científicas que apontam os benefícios cognitivos da leitura em papel, como maior compreensão e memorização.
A experiência sueca mostra que a tecnologia, embora útil, não é uma solução mágica para os desafios da Educação. Sem planejamento pedagógico, formação docente e equilíbrio entre recursos digitais e tradicionais, o uso de telas pode comprometer o aprendizado. O caso também serve de alerta para outros países que pretendem seguir o mesmo caminho: inovação exige crítica, acompanhamento e, acima de tudo, foco no desenvolvimento integral dos estudantes.
5. A escola pública e a língua
Entre vários fatores que identificam um povo, dois deles se destacam: a língua e a cultura. A Língua Portuguesa é o idioma oficial do Brasil. Portanto, em relação à escola pública, não considerarei aqui se o nosso país é monolíngue ou multilíngue nem que outros sete países têm a Língua Portuguesa como oficial. Também não será nosso assunto aqui as quase 180 línguas indígenas que ainda são faladas em nosso território – e é nosso dever preservá-las e respeitá-las como primeira língua dos diversos povos indígenas. Em relação à língua de sinais utilizada pelos deficientes auditivos e ao alfabeto braile, vale salientar que essas duas comunidades “falam” e escrevem em Português, com outra codificação. Agora, no caso dos imigrantes, que já somam cerca de 30 idiomas falados no Brasil, cabe primeiramente a quem decide viver em outro país que não o seu de origem respeitar a sua língua oficial, ainda que não a fale fluentemente, e a sua cultura. Tendo concluído esta pequena introdução, vamos ao tema da escola pública e a língua.
Os linguistas ideologizados afirmam que a expressão erro de português é discriminatória – dependendo da forma que outro indivíduo aborda, de fato o é. Afirmam isso com base nas diferenças entre as variedades da Língua Portuguesa. Assim, criticam a Gramática Normativa e aqueles que dela fazem uso e defendem o domínio da língua escrita. Entretanto, ideologizados que são, compactuam com os governantes no sentido de manter a maioria da população brasileira bem distante da Gramática e suas normas. Afastados de uma boa Educação gramatical, ou seja, do falar e escrever corretamente, essas pessoas estão excluídas do acesso às leis, à boa literatura, a textos científicos, pois seu entendimento da língua escrita fica aquém do necessário.
Não me interessa se verbos e adjetivos não flexionam na língua inglesa. O idioma de meu país é a Língua Portuguesa e é essa língua, com suas flexões, que deve ser ensinada a nossas crianças e adolescentes nas escolas públicas. Precisamos valorizar mais o nosso idioma. As falácias dos linguistas ideologizados servem àqueles que detêm o poder e as riquezas de nosso país, e que pretendem manter as desigualdades sociais em benefício próprio. É seu desejo que a maioria da população continue estropiando as concordâncias verbal e nominal, criticando como inculcadores ideológicos aqueles que são “contra” (?) a variação linguística e defendem o uso da língua culta.
Eu, particularmente, como professor de Português e escritor, não tenho nada contra o falar errado, ao linguajar caipira, aos diversos dialetos regionais de nosso país. O mais importante é a comunicação. Mas isso não impede de que o falar e escrever corretamente seja ensinado ao todas as pessoas, desde que desejem aprender. Conhecer a norma culta da língua é fundamental.
As escolas públicas de nosso país se encontram no meio dessa queda de braço. É impossível servir a dois senhores. Os profissionais da escola, ao apoiarem os linguistas ideologizados, estão virando as costas para a inclusão por meio do acesso à gramática e, por conseguinte, contribuindo para a manutenção das diferenças sociais. Portanto, a Gramática a ser ensinada na Educação Básica não deve ser apenas básica, mas integral.
A língua faz parte da identidade de um povo. Os países onde são falados muitos idiomas e dialetos são países pobres, de um povo desunido, dividido em castas e que lutam entre si.
Devo respeitar as variedades linguísticas do Português falado no Brasil, mas posso continuar considerando tais variações como erro e lutando pela inclusão social por meio do aprendizado da Gramática Normativa. Isso é ter um ideal, e não uma ideologia.
(Continua na IV PARTE)
Prof. Maurício Apolinário