Educação inclusiva e valorização dos professores
PENSANDO FORA DA CAIXA
Inclusão - Neurociência - Inteligência Artificial
Textos

 

 

 

Maurício Apolinário

 

 

 

 

 

 

Quando a lousa racha, mas o giz resiste

O que a pedagogia não resolve, o chão da escola escancara

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Brasília – DF, 2025

 

 

 

 

 

 

 

 

Vocês podem dizer que eu sou um sonhador,

mas eu não sou o único.

(John Lennon)

 

 

 

 

 

 

 

Às professoras

Thaís Faria (SP)

(Thaís Neurociência)

Beatriz Bonadiman (SC)

(Professor Z)

dedico este livro.

 

 

 

 

 

Prefácio

 

     No Poeminho do Contra, Mario Quintana escreve "Todas as pessoas que atravancam o meu caminho, essas passarão. Eu, passarinho".

 

     Antes de aprendermos a escrever, precisamos aprender a ler. A leitura e a escrita estão interligadas. Para ser um exímio escritor, é preciso ser um bom leitor.

 

     Quando o Maurício me convidou para escrever o prefácio do livro e eu li esta obra antes de ser publicada, lembrei-me de toda essa ligação que eu tenho com a docência e em como eu sou grata por hoje também ser professora e transmitir um pouco do meu conhecimento em jornalismo e escrita.

 

     As linhas invisíveis do conhecimento nos ligam.

 

     Eu conheço a história do Maurício e ela me emociona. Para mim ele é um exemplo admirável por conseguir vencer todos os desafios que a vida foi apresentando até aqui. Ele tem uma grande bagagem de conhecimento e sabedoria. Quando descobriu que o filho era autista e logo em seguida recebeu o mesmo diagnóstico, ele ganhou forças extras para lutar. Se antes as suas armas eram as palavras dentro da sala de aula, agora o seu protagonismo é evidente através da escrita de sua obra.

 

     Eu aprendi a ler a vida e a escrever a minha própria história muito nova porque tive bons professores. Desde os cinco anos eu lia as histórias em quadrinhos dos jornais e sempre ganhava livros clássicos de presente da minha mãe e das minhas tias. Eu fui estimulada a ler muito e a montar uma biblioteca em casa.

 

     Eu sempre tive muito contato com professoras e recebia muitas aulas valiosas dentro de casa: minha mãe, minha tia e minha tia-avó materna eram professoras.

 

     A minha mãe foi arte-educadora por mais de 40 anos e fazia de cada brincadeira um aprendizado. Voltava das salas de aula das escolas públicas exausta mas com aquele brilho no olhar de dever cumprido. Sempre ensinou bons valores e cada aluno era único para ela. Fez o melhor que pôde, chegando a comprar material escolar e muitos itens pessoais para quem não tinha boas condições financeiras.

 

     Ao longo da vida tive contato com muitos professores exemplares que me fizeram pensar, questionar, observar e estudar. Aprendi sobre rotina, disciplina, persistência e dedicação.

 

     Quando o meu filho entrou pela primeira vez na escola, pensei que ele teria professores inesquecíveis. Logo chegou a pandemia da Covid-19 e eu virei a professora dele em casa. Nunca imaginei dar aula para uma criança e muito menos para o meu próprio filho. Utilizando a metodologia da escola, eu o alfabetizei em português e em inglês.

 

     Ingressei em uma jornada cansativa por dois anos que exigiu muito de mim, mas cada esforço valeu muito a pena.

Eu aprendi a valorizar ainda mais o trabalho dos professores e a enxergar o preparo psicológico e pedagógico que precisam ter, a paciência, o amor e o interesse em ser exemplo.

 

     Se foi difícil exercer o homeschooling, eu fiquei imaginando como é a rotina de uma sala de aula com muitas crianças precisando de atenção e acompanhamento individual.

 

     Ao colocar nesta obra a sua ampla visão sobre a Educação e tantas informações relevantes para o futuro, Maurício Apolinário oferece aos leitores e professores um presente: a oportunidade de ler e escrever uma nova história dentro das salas de aula do Brasil.

 

     Este livro é uma luz que ilumina os caminhos da Educação e abrilhanta o campo de pesquisa na área.

 

     Ao observar o mundo em constante transformação, Apolinário nos traz uma visão realista e ao mesmo tempo sensível que engloba as novas tecnologias sem perder de vista a essência dos estudantes e a convivência necessária para a formação de vínculos entre professores e alunos.

 

     Uma leitura necessária e importante a todos que desejam refletir sobre o tema e que trabalham na área de Educação.

 

                Vanessa Guimarães é jornalista, palestrante, escritora e consultora de comunicação.

Trabalha com comunicação há mais de 20 anos, tendo percorrido da redação de jornal impresso à assessoria de imprensa, dos veículos digitais à comunicação interna de diversas empresas.

Autora dos livros Entre Trilhas e Caminhos, Gestão do Tempo para o Home Office, Inbound Marketing e Caixinha de Segredos.

Criadora da metodologia Marketing Afetivo.

Idealizadora do GAM (Grupo de Apoio Mútuo).

Ministra treinamentos e palestras em todo o Brasil.

 

 

 

 

SUMÁRIO

Introdução

I  PARTE – OS FUNDAMENTOS DA ESCOLA

POR QUE EXISTE A ESCOLA?

  1. Uma breve reflexão
  2. Uma breve história sobre o surgimento da escola
  3. Alguns mitos sobre a escola e a Educação

A CRISE DE IDENTIDADE DA ESCOLA ATUAL

  1. O papel da escola na sociedade
  2. A escola transforma ou reproduz a sociedade?
  3. O fim da Educação básica
  4. Legislação, gestão e resultados
  5. Características da Educação formal
  6. As tendências e as práticas pedagógicas
  7. A escola, a indisciplina e a violência

GESTÃO ESCOLAR COM PROPÓSITOS

  1. A autonomia da escola
  2. O que motiva a escola?
  3. Respostas eficazes para os principais problemas da escola
  4. A definição dos propósitos da escola
  5. A prática da democracia
  6. O desenvolvimento de projetos pela equipe escolar

PROFESSORES COM PROPÓSITOS

  1. A autonomia didático-pedagógica
  2. O que motiva o professor?
  3. Respostas eficazes para os principais problemas da sala de aula
  4. Uma didática dialógica e de caráter democrático
  5. O desenvolvimento de projetos pelo professor
  6. Professor não é educador

ALUNOS COM PROPÓSITOS

  1. Autonomia e limites
  2. O que motiva o aluno a estudar?
  3. Respostas eficazes para os problemas da sala de aula
  4. O caráter democrático do ato educativo
  5. A participação dos alunos em projetos

PROPOSTA PEDAGÓGICA COM PROPÓSITOS

  1. A autonomia da Proposta Pedagógica
  2. O que motiva a existência da Proposta Pedagógica?
  3. A Proposta Pedagógica e a prática escolar
  4. Proposta Pedagógica e contextualização
  5. A Proposta Pedagógica e a experiência prática dos alunos
  6. As tecnologias na Proposta Pedagógica
  7. A Proposta Pedagógica e a inclusão

II  PARTE – A ESCOLA E A SOCIEDADE

A FUNÇÃO SOCIAL DA ESCOLA

  1. A formação plena dos cidadãos
  2. A prática de vida em sociedade
  3. O crescimento do país e a edificação da nação

A ESCOLA E A FAMÍLIA

  1. O estabelecimento de limites
  2. A construção de valores
  3. A interação família e escola

III  PARTE – A ESCOLA EM SI MESMA

DIVEROS ASPECTOS DA ESCOLA

  1. Um organismo vivo
  2. Um lugar de crescimento
  3. Uma sociedade em miniatura

A ESCOLA E A PRÁTICA DE VIDA

  1. Os relacionamentos interpessoais
  2. Princípios e valores na prática de vida
  3. A prática de vida no cotidiano escolar

O CARÁTER DA ESCOLA PÚBLICA

  1. A escola pública e as ideologias
  2. A escola pública e a Psicologia
  3. A escola pública e a religião
  4. A escola pública e a tecnologia
  5. A escola pública e a língua

IV  PARTE – UM PROFESSOR APOSENTADO COM PROPÓSITO

ALGUMAS FALÁCIAS SOBRE A ESCOLA

  1. Conteúdo acadêmico importa
  2. Currículo tem sua função
  3. Organização facilita o aprendizado
  4. Professor não faz milagres
  5. Professor não é educador
  6.  A escola não é uma Pazlândia

Conclusões

ANEXO I

ANEXO II

 

 

 

 

INTRODUÇÃO

 

     Todos nós somos sabedores de que não existe escola ideal e que é impossível passar ‘receitas prontas’ e infalíveis para que uma escola seja bem-sucedida em todos os aspectos que lhe dizem respeito quanto ao trabalho a ser desenvolvido, seja nas atividades fim ou nas atividades meio. Porém, há princípios que podem nortear uma escola a buscar ser o melhor possível como instituição de ensino e aplicáveis tanto nas escolas públicas quanto nas escolas privadas do Brasil.

 

     Também não é segredo para ninguém o quanto está difícil lecionar para alunos da Educação Básica, especialmente nas escolas públicas – sobretudo nestes tempos das telas. Dirigir uma escola pública não está nada fácil. Os problemas vão da indisciplina na sala de aula à violência dentro e fora da escola; da falta de infraestrutura adequada à falta de materiais de apoio pedagógico e de expediente; da falta de espaço físico e de mobiliário à grande quantidade de alunos por turma; da má gestão escolar à má formação e despreparo dos nossos professores; do excesso de conteúdo voltado para o Enem aos conteúdos descontextualizados; da falta de comprometimento das famílias ao desinteresse dos alunos pelos estudos; da responsabilização de uma educação integral de crianças e adolescentes aos fatídicos pedagogismos.

 

     Isso sem falar do despreparo das escolas quanto à inclusão. E dos professores, então? A maioria dos professores, por sua vez, encontra-se exasperada diante da indisciplina e da falta de respeito dos alunos – incluindo a crise devido à proibição do uso do celular na sala de aula –, pois já lançaram mão de todos os métodos conhecidos com algumas turmas e alguns alunos mais difíceis, mas se descobriram vencidos, exauridos de estímulos, de forças, de esperanças, de motivação. A tendência tem sido piorar a cada ano. Não bastassem os estresses, as desilusões, os baixos salários e a afronta dos alunos, os professores, geralmente, ainda são responsabilizados pelo caos do ensino público, pela má qualidade de nossa Educação, mormente quando saem os resultados do PISA.

 

     Sem contar a ambiguidade do termo Educação. Temos a educação escolar, que formaliza saberes acadêmicos, e aquela que transmite valores e comportamentos sociais, geralmente realizada pela família. Ambas se entrelaçam, moldando o indivíduo em sua totalidade, mas operam em contextos e métodos diferenciados, refletindo a complexidade do termo. Eu costumo separar criteriosamente as duas. A família educa e a escola ensina. À escola cabe a instrução [ainda que briguem comigo], e à família cabe a educação.

 

     Muitos professores alegam que a maior culpa de a Educação estar desse jeito é dos pedagogos, de suas teorias mirabolantes e utópicas que nunca funcionaram. Outros dizem que os maiores culpados são os governantes. Ainda outros – senão a maioria – culpam as famílias. Não esquecendo aqueles alunos que não querem aprender. Mas a corda acaba sempre arrebentando é nas mãos dos professores.

 

     Infelizmente, criou-se no país uma cultura de pregar que existe a escola ruim, para os que têm menos oportunidades – as pessoas de baixa renda – e a escola boa, para quem tem melhores condições econômico-financeiras – ou seja, a elite. E isso vem se arrastando ao longo de décadas. Já que os governantes, os políticos não o fazem, o que a própria escola pode fazer para mudar tal mentalidade cultural?

 

     Por outro lado, a atuação de alguns profissionais corrobora os problemas da Educação, e os que ocorrem nas escolas continuam ‘eternamente’. Por exemplo, aqueles professores que têm uma postura digna e correta na escola privada, porém na pública não fazem nada de produtivo; alguns diretores, possuídos por uma mentalidade maléfica, só querem saber de mostrar o seu suposto poder inútil; e essa politicagem lamentável dos governantes que envolve a Educação, não permitindo que muitos bons projetos tenham continuidade. Além disso, a dificuldade em se demitir um mau professor da rede pública contribui muito para a queda de nível do ensino público. Infelizmente, isso é um fato a considerar. E proliferam os professores de contrato temporário.

 

     Muitos professores, abordados, deixam bem claro que não estão muito a fim de debater esse tema, alegando que é um assunto sempre muito chato e que se discute em todas as reuniões pedagógicas da escola; e não deixam de ter razão. Outros dizem que já estão cansados de oferecer soluções, mas que a equipe docente não consegue fazer tudo sozinha, pois depende do sistema educacional [do qual ela mesma faz parte] como um todo para tudo funcionar a contento. E ainda há um grupo que denuncia a existência de vários coordenadores e diretores de pulso fraco, que não têm condições de dirigir a escola, atravancando todas as ideias propostas por eles. E ainda há aqueles que acreditam que o maior culpado pelo fracasso da Educação são as famílias, que não educam direito os seus filhos. Entretanto, e os teóricos que defendem ideias fundamentadas apenas em argumentos retóricos, sem não em argumentos científicos, baseados em teorias seculares de autores defuntos, e de outros países? Mas onde e por quem essas ideias dos teóricos e pedagogos são interpretadas e postas em prática? Não é nas secretarias de Educação e nas escolas?

 

     E aí me surge aqui a seguinte pergunta: por que algumas escolas públicas conseguem avançar e outras não? Trata-se de um caso a ser analisado. Cabe um adendo aqui.

 

     José Pacheco, enquanto diretor da Escola da Ponte, em Portugal – aquela idolatrada por muitos professores brasileiros, e a qual não me impressiona –, tinha uma abordagem bem peculiar para lidar com os relatórios exigidos pela Secretaria de Educação local.

 

     Ele sabia que as transformações radicais que implementava na escola, como acabar com salas de aula tradicionais, turmas fixas e provas, não eram bem-vistas pelos superiores, que preferiam o modelo convencional. Para "driblar" essas exigências sem confrontar diretamente as autoridades, Pacheco e sua equipe elaboravam relatórios que, na superfície, pareciam atender às demandas burocráticas, usando a linguagem técnica esperada, mas, na prática, não revelavam completamente o que acontecia na escola. Ele usava uma estratégia de escrita que respeitava as formalidades, mas mantinha o foco nos resultados positivos dos alunos, como a autonomia e o bom desempenho, sem detalhar as mudanças estruturais que poderiam gerar resistência. Isso permitia que a escola continuasse funcionando com seu modelo inovador sem chamar muita atenção para as rupturas com o sistema tradicional.

 

     Essa tática era, na verdade, uma forma de proteger o Projeto Pedagógico da Escola da Ponte. Pacheco entendia que, para manter a autonomia da escola e continuar promovendo uma Educação baseada na liberdade, responsabilidade e solidariedade, era preciso jogar dentro das regras do sistema, mas com inteligência. Ele e sua equipe se valiam dos relatórios de avaliação externa, que destacavam a excelência acadêmica e a inclusão social da escola, para reforçar a legitimidade do projeto. Esses relatórios, como os da Inspeção Geral da Educação e Ciência, mostravam que os alunos da Ponte tinham desempenho superior ao de outras escolas, o que ajudava a calar as críticas. Assim, Pacheco conseguia manter as autoridades satisfeitas com dados e resultados, enquanto, nos bastidores, revolucionava a educação com um modelo que priorizava o protagonismo dos alunos e a participação da comunidade.

 

     Não estou aqui fazendo apologia a enganar os outros, nem aconselhando a fazer a mesma coisa ou semelhante no Brasil. É que idolatram tanto essa escola em nosso país, mas não percebem que a melhoria dos resultados ocorreram porque a equipe da escola colocou as mãos na massa, sem ficar esperando pelos superiores, por uma ação governamental, resolução política. É apenas isso. Meu propósito é uma reflexão.

 

     A escola pública no Brasil precisa mais de ação [e gestão] do que de teorias pedagógico-metodológicas. Teorias nós temos até demais, além das distorções na prática dessas próprias teorias, algumas beirando ao absurdo [e outras ao ridículo]. E não adianta ficar esperando pela ação dos governantes, pois a coisa tem de acontecer é no chão da escola.

 

     Não é mais hora de ficar inventando novas pedagogias, novas metodologias, um novo modelo de escola, ou mesmo, como propõem alguns mais exacerbados, extinguir a escola. E não será a tecnologia, a Inteligência Artificial, que salvará a Educação. A escola existe, a Educação escolar está aí, então vamos todos trabalhar em cima do que já temos. É preciso deixar de lado as ideologias imbecilizantes, o pedagogismo e ideais extremistas. A Educação e a escola pública estão acima disso, são muito mais valorosas.

 

     Uma escola sem turnos, sem turmas, sem séries, sem proposta pedagógica e sem avaliações – e totalmente centrada no aluno − pode ser tudo, menos uma escola. E cá entre nós, eu não tenho nada contra a fila indiana na sala de aula. Podem organizar as carteiras do jeito que for, trocar seus formatos, retirá-las por completo; podem colocar lousa digital no meio da sala, em todo lugar, para o professor escrever andando pela sala, o que precisa mudar está além disso Eu aqui escrevo tendo em mente uma escola em que o ensino é dividido por séries [ou anos] e o conteúdo por disciplinas, haja vista que, apesar dos vários problemas e mudanças enfrentados – além de críticas ferrenhas −, é o sistema de ensino cuja metodologia tem resistido aos tempos, propiciado a formação de bons profissionais, em todas as áreas, e que pode seguir uma linha de adequação e contextualização séria, responsável e de bom senso para atingir seus resultados, por mais criticado que seja. No mais, são modismos passageiros.

 

     As escolas não precisam de inovações disruptivas, mas de inovações incrementais. Explico. A inovação disruptiva representa uma mudança profunda e radical nos processos, estruturas ou modelos tradicionais. Ela rompe com o que está estabelecido, substituindo práticas anteriores por abordagens completamente novas. Na escola, isso pode significar a adoção de tecnologias ou métodos que transformam toda a lógica do ensino e da aprendizagem, como o ensino 100% remoto por plataformas de Inteligência Artificial, por exemplo, a substituição total de livros por realidade virtual (lembrando que isso não deu certo na Suécia), ou a extinção das aulas expositivas em favor de laboratórios híbridos e personalizados. A inovação incremental é a melhoria contínua e progressiva de práticas já existentes na escola. Em vez de romper com o modelo tradicional, ela busca aperfeiçoar o que já funciona, adaptando métodos de ensino, conteúdos ou rotinas de forma criativa, acessível e eficaz. Isso envolve criatividade. Obviamente, a formação continuada dos professores é fundamental. E formação continuada deve ocorrer no mínimo mensalmente, caso contrário, não é continuada.

 

     Não precisamos ir a Portugal ou qualquer outro país em busca de exemplos de inovação em escolas. Temos, no Brasil, ricas e prósperas experiências. Senão, vejamos.

 

     O trabalho pedagógico nas escolas tem passado por transformações significativas nos últimos anos, impulsionadas por avanços tecnológicos, mudanças nas demandas sociais e a necessidade de tornar a educação mais dinâmica e inclusiva. Essas inovações buscam não apenas melhorar o processo de ensino-aprendizagem, mas também preparar os estudantes para um mundo em constante evolução, promovendo habilidades como pensamento crítico, colaboração e criatividade. Isso tudo mediante os conteúdos, o conhecimento. Abaixo, exploro algumas das principais inovações no trabalho pedagógico, com exemplos práticos de como elas estão sendo aplicadas nas escolas da Educação Básica brasileiras.

     A integração de tecnologias digitais no ambiente escolar é uma das inovações mais marcantes no trabalho pedagógico. Ferramentas como plataformas de aprendizagem online, aplicativos educacionais e dispositivos interativos, como celulares, tablets e lousas digitais, têm transformado a maneira como os professores ensinam e os alunos aprendem. Essas tecnologias permitem personalizar o ensino, atendendo às necessidades individuais dos estudantes e promovendo maior engajamento. Isso sem abandonar o bom livro impresso.

 

     Em uma escola municipal de São Paulo, professores de matemática do ensino fundamental utilizam plataformas como o Khan Academy para oferecer exercícios personalizados. Cada aluno avança no seu próprio ritmo, enquanto o sistema fornece relatórios detalhados ao professor, indicando quais tópicos precisam de reforço. Além disso, o uso de jogos educativos, como o "Prodigy", torna o aprendizado mais lúdico, incentivando os alunos a resolverem problemas matemáticos de forma divertida.

Outro exemplo é o uso de realidade aumentada (RA) em aulas de ciências. Aqui já complica um pouco em escolas da rede púbica. Mas vamos lá. Em uma escola no Rio de Janeiro, os alunos utilizam aplicativos de RA para visualizar modelos 3D de células ou do sistema solar, o que facilita a compreensão de conceitos complexos. Essa abordagem não substitui o ensino tradicional, mas o complementa, tornando as aulas mais interativas e visualmente ricas.

 

     As metodologias ativas, como a sala de aula invertida, a aprendizagem baseada em projetos (ABP) e a gamificação, colocam o aluno no centro do processo educativo, incentivando-o a ser protagonista do próprio aprendizado. Essas abordagens estimulam a autonomia, a resolução de problemas e o trabalho em equipe, habilidades essenciais para o século XXI. Tais metodologias não precisam acontecer em todas as aulas, mas semanalmente ou quinzenalmente, uma por vez. Senão cansa os alunos pelo excesso.

Em uma escola de ensino fundamental em Recife, os professores adotaram a aprendizagem baseada em projetos para trabalhar temas interdisciplinares. Não se trata somente de projetos desenvolvidos pela escola toda, mas também por disciplina. Em um projeto sobre sustentabilidade, os alunos foram desafiados a criar soluções para reduzir o desperdício na escola. Divididos em grupos, eles pesquisaram, propuseram ideias, como a criação de uma composteira, e apresentaram os resultados para a comunidade escolar. Esse tipo de atividade não apenas reforça conteúdos de Ciências e Geografia, mas também desenvolve, indiretamente, competências socioemocionais, como liderança e colaboração.

 

     Na sala de aula invertida, os alunos estudam o conteúdo em casa, por meio de vídeos ou textos, e utilizam o tempo em sala para discussões, atividades práticas e resolução de dúvidas. Uma escola em Belo Horizonte implementou essa metodologia em aulas de História, permitindo que os estudantes chegassem às aulas com perguntas preparadas, o que enriqueceu os debates e aprofundou o aprendizado.

 

     A inclusão e a personalização do ensino são pilares fundamentais das inovações pedagógicas. Com a diversidade de alunos nas salas de aula, os professores têm buscado estratégias para atender às necessidades específicas de cada estudante, incluindo aqueles com deficiências, transtornos de aprendizagem ou talentos excepcionais. E a Inteligência Artificial está aí para ajudar. Mas é preciso aprender a utilizar.

 

     Em uma escola pública no Paraná, professores utilizam planos de ensino individualizados para alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Esses planos são elaborados em conjunto com a equipe de apoio pedagógico e incluem adaptações, como materiais visuais e rotinas estruturadas, que ajudam os alunos a se engajarem nas atividades. Além disso, o uso de tecnologias assistivas, como aplicativos de comunicação alternativa, tem permitido que estudantes com dificuldades de fala participem mais ativamente das aulas.

 

     Outro exemplo é a prática de "ensino diferenciado", em que o professor oferece diferentes caminhos para o aprendizado de um mesmo conteúdo. Em uma aula de português, por exemplo, alguns alunos podem escrever um texto, enquanto outros criam um podcast ou um vídeo, dependendo de suas habilidades e interesses. Essa abordagem valoriza a diversidade e promove a equidade no aprendizado.

 

     Na década de 1960, houve, em uma escola rural no interior de Goiás, um jovem professor que realizava um ensino criativo, inovador, sem tecnologia, apenas fazendo uso da mente. E os alunos gostavam e aprendiam. Lembrando que essas salas de aula rurais costumam ser multisseriadas.

 

     As inovações pedagógicas também passam pela capacitação constante dos professores (semanal, quinzenal ou mensal) e pelo trabalho colaborativo [diário] entre eles. A formação continuada é essencial para que os professores dominem novas ferramentas e metodologias, enquanto a colaboração permite o compartilhamento de boas práticas e a criação de projetos interdisciplinares.

 

     Em uma rede de escolas em Fortaleza, os professores participam de grupos de estudo semanais, onde discutem artigos sobre Educação, compartilham experiências e planejam aulas colaborativas. Não é apenas a coordenação pedagógica que fala. Em um desses projetos, professores de Ciências, Artes e Língua Portuguesa uniram esforços para criar uma exposição sobre mudanças climáticas, na qual os alunos produziram textos, maquetes e desenhos. Essa colaboração não apenas enriqueceu o projeto, mas também fortaleceu o senso de comunidade entre os docentes.

 

     Além disso, plataformas como o Google for Education oferecem cursos gratuitos que ajudam os professores a se familiarizarem com ferramentas digitais, como o Google Classroom, que facilita a gestão de tarefas e a comunicação com os alunos.

 

     O desenvolvimento de competências socioemocionais − como empatia, resiliência e trabalho em equipe − tem ganhado espaço no trabalho pedagógico. Essas habilidades são tão importantes quanto os conteúdos escolares, pois preparam os alunos para enfrentar desafios pessoais e profissionais. E não há disciplinas específicas para isso, mas acontece ao longo do ano por meio da ministração dos conteúdos.

 

     Em uma escola de Porto Alegre, foi implementado um programa de educação socioemocional chamado "Círculos de Diálogo". Uma vez por semana, os alunos se reúnem em pequenos grupos para discutir temas como resolução de conflitos ou gestão de emoções, mediados pelo professor (isso é compreensão e interpretação de textos, desenvolvimento do pensamento crítico, habilidades de comunicação). Essas atividades ajudam os estudantes a desenvolverem empatia e a lidarem melhor com situações do dia a dia, como trabalhar em grupo ou superar frustrações.

 

     Outro exemplo é o uso de dinâmicas de grupo para promover a colaboração. Em uma escola em Salvador, os professores organizam "desafios colaborativos", como construir uma ponte com materiais recicláveis, que exigem que os alunos planejem, negociem e dividam tarefas, fortalecendo o senso de responsabilidade coletiva. Aqui dá para aprender Matemática, Ciências, Geografia, Física, Biologia, entre outras disciplinas.

 

     As inovações no trabalho pedagógico nas escolas da Educação Básica refletem a necessidade de adaptar a Educação às demandas de um mundo em transformação. A integração de tecnologias, a adoção de metodologias ativas, a promoção da inclusão, a formação continuada dos professores e o foco nas competências socioemocionais são estratégias que, quando bem aplicadas, tornam o ensino mais significativo e eficaz. Esses avanços não substituem o papel central do professor, mas o fortalecem, permitindo que ele atue como um mediador do conhecimento, inspirando e guiando os alunos em sua jornada de aprendizado. Com exemplos práticos como os mencionados, é possível enxergar um futuro promissor para a educação, onde a inovação caminha lado a lado com a humanização do ensino.

 

     Viram? Inovação pode acontecer com uma mente criativa, post it e cola quente.

E por mais que seja também criticado, ainda acredito ser com essa forma de ensino [não instrucionista nem construtivista] que podemos mudar, para melhor, os rumos da Educação em nosso país, desde que nossas escolas públicas sejam escolas com propósitos firmes, professores capacitados e compromissados.

 

     A pretensão deste livro não é dar dicas ou propor soluções milagrosas, mas levar toda a equipe escolar à reflexão. Professores e diretores não podem ficar acomodados, esperando que tudo venha de cima, de governantes, pois raramente virá. Ou nunca virá. A atuação de cada um varia de escola para escola, de município para município, de estado para estado. Precisamos também parar de copiar o que acontece em outros países. Muita coisa boa tem acontecido em escolas públicas isoladas por esse país continental, como vimos anteriormente. Mas são de escolas privadas – justificarão alguns. Mesmo assim. Muitos dos que agem estão canalizando suas ações num sentido que não tem dado resultados.

 

     Não tenho dúvida alguma de que este trabalho incomodará muitas pessoas ligadas à Educação, principalmente professores e diretores. Muitos vão me chamar de utópico, dizer que estou fora da sala de aula, que não conheço a realidade. Minha consciência está tranquila de que o escrevo com a melhor das intenções. Entretanto, como é inerente à natureza humana discordar, criticar, menosprezar a opinião dos outros, então, inevitavelmente, alguns poderão me interpretar mal. Afinal, vivemos tempos de redes sociais. Então, discordar faz parte.

      

     Por enquanto, só foi a introdução. Sigamos ao livro.

 

 

 

 

 

I  PARTE – OS FUNDAMENTOS DA ESCOLA

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Imagem gerada pela IA, com orientações do autor.

 

 

 

 

 

 

POR QUE EXISTE A ESCOLA?

 

  1. Uma breve reflexão

            Primeiramente, convido aqui o meu leitor a refletir um pouco sobre a escola. Sugiro dois momentos de reflexão: no primeiro, o leitor dará possíveis respostas às perguntas, de acordo com o seu ponto de vista; no segundo momento, o leitor se despirá de todo conceito, pré-conceito, crenças e influências ideológicas, desarmando-se por completo, e buscará as respostas mais plausíveis para as perguntas em questão.

  1. Perguntas importantes para reflexão
  1. O que é escola?
  2. Qual é o propósito da escola?
  3. Qual é a função da escola na sociedade?
  4. Quais são os benefícios de se estudar em uma escola?
  5. O que é requerido de um professor?
  6. O que é requerido de um aluno?
  7. Quais são as responsabilidades de um professor?
  8. Quais são as responsabilidades de um aluno?
  9. Como a escola é organizada?
  10.  Como toda a equipe escolar pode se envolver no processo pedagógico?
  11.  O que a escola pode fazer pela escola?
  12.  Quantas escolas realmente podem ser chamadas escola?

 

  1. Busca por respostas mais plausíveis

1) O que é a escola? É um prédio onde se reúnem alunos e professores com a finalidade de realizar estudos?

2) Qual é o propósito da escola? É repassar conhecimento histórico[1] a crianças e adolescentes? Somente isso?

3) Qual é a função da escola na sociedade? É promover o ensino voltado para o mercado de trabalho, visando sua vida profissional? É preparar para a vida? É construir competências? Isso é muito pouco, muito limitado, superficial ou é o bastante?

4) Quais são os benefícios de se estudar em uma escola? É obter ascensão social, que, em alguns casos, também se consegue sem estudos?

5) O que é requerido do professor? É o bom conhecimento do conteúdo de sua disciplina e boa didática ou isso é o mínimo que deve ser exigido?

6) O que é requerido de um aluno? É um bom comportamento? Que seja comportado, estudioso e passe de ano? Para ser esse tipo de aluno, basta querer e se consegue?

7) Quais as responsabilidades de um professor? É ser assíduo e responsável? É desenvolver um bom trabalho na sala de aula? Ou isso não seria mais que a sua obrigação?

8) Quais são as responsabilidades de um aluno? É estudar, fazer boa prova e passar de ano? Ou isso está muito aquém do que se espera de um aluno?

9) Como uma escola é organizada? É de forma hierárquica, sem que ninguém atrapalhe o trabalho do outro ou isso chega a ser até um tanto ingênuo e infantil?

10) Como toda a equipe escolar pode se envolver no processo pedagógico? É aconselhando o aluno a estudar ou isso é ter uma visão muito pequena da Educação formal?

11) O que a escola pode fazer pela escola? É mantendo o prédio bem cuidado? É impedindo que crianças fiquem fora dela?  Ou isso é uma visão hipócrita de político?

12) Quantas escolas realmente podem ser chamadas escolas? As que possuem prédios próprios e conservados, têm diretor, vice-diretor, coordenador pedagógico, secretário e quadro completo de professores, e é pratica a inclusão [ou integração]?

 

     A que respostas, caro leitor, você chegou?

 

  1. Uma breve história do surgimento da escola

     Acredita-se que o surgimento da escola provavelmente tenha ocorrido entre os povos da antiguidade oriental, mais precisamente no Egito, China e Índia, objetivando transmitir as suas tradições e os seus costumes, privilegiando-se a formação de pessoas já letradas, futuras responsáveis pela manutenção dos cultos religiosos. Alguns estudiosos afirmam que, há mais de quarenta séculos, a China foi onde se instituiu o primeiro ministro da Educação, com ênfase nos deveres das relações humanas.

 

     A escola primária surgiu por volta do ano 600 a.C. A escola grega e a escola romana da antiguidade clássica adotaram duas linhas opostas, mas que se complementavam. Enquanto os gregos enfatizavam a pedagogia da personalidade, visando a formação individual, os romanos utilizaram a pedagogia da humanitas, cujo objetivo era desenvolver o indivíduo dentro de um sistema educacional representativo da realidade social. O modelo de escolas gregas foi levado pelas tropas de Alexandre Magno por todo o mundo, por meio de suas conquistas.

 

     Em Roma, o ensino das primeiras letras, denominado elementar, surgiu antes do século IV a.C. Entretanto, a escola pública mantida pelos cofres municipais surgiu e se espalhou por todo o Império romano somente após o advento do Cristianismo, por volta do século IV d.C. Como ocorreu com os gregos, também as tropas romanas espalharam a Educação de escola para além da Península Itálica, alcançando os territórios conquistados na Europa, na Ásia e no Norte da África.

 

     Na Idade Média, a Educação teve como cenário principal as catedrais e os mosteiros. No entanto, no final desse período, começou a adquirir uma maior independência em relação ao clero, ganhando um sentido mais socializador. No século XVI, com o advento do humanismo e da Reforma protestante, a escola sofreu profundas modificações, modificações essas que se ampliaram a partir da revolução francesa.

 

     Muitos críticos afirmam que a escola, como a temos hoje, apesar de toda tecnologia, não é muito diferente das suas origens na Grécia e em Roma: centralização do saber no professor, organização em séries, foco no conteúdo e pouca valorização da experiência do aluno, e as carteiras em filas indianas. Segundo eles, no século XXI, vivemos a era da informação, da conectividade e da Inteligência Artificial, mas muitas escolas ainda operam com práticas obsoletas, descoladas da realidade dos estudantes. Gritam que é urgente repensar os objetivos, métodos e finalidades da escola para formar sujeitos críticos, criativos e protagonistas do próprio aprendizado. Aí proliferam-se objetivos, métodos e finalidades, e não se chega a lugar algum. Muita teoria e pouca ação.

 

     No Brasil, a Educação escolar iniciou-se no período colonial, mais precisamente após o regime de capitanias, sob a responsabilidade dos jesuítas; sofreu mudanças com as reformas comandadas pelo Marquês de Pombal, com a expulsão dos jesuítas, e posteriormente com a vinda de D. João VI. No período do Império, o ensino foi estruturado em primário, secundário e superior.

 

     Em suma, a escola, como instituição de aprendizado formal, tem suas raízes na Grécia Antiga, onde filósofos como Platão e Aristóteles fundaram academias para o ensino de diversas disciplinas. Com o passar dos séculos, a escola evoluiu e se espalhou pelo mundo, adaptando-se às necessidades culturais e sociais de cada época e de cada região. Na Idade Média, as escolas eram geralmente vinculadas à Igreja, focando na formação religiosa e nos estudos clássicos. A Revolução Industrial trouxe a necessidade de Educação em massa, levando à criação de sistemas escolares públicos e obrigatórios, moldando a escola moderna que, segundo os críticos, é a escola que conhecemos hoje. Vejo, no entanto, que a escola atual no Brasil, com seu papel central na formação do cidadão e na promoção do conhecimento e da inovação, está bem diferente, pois vem se transformando desde a década de 1990 do século passado. Eu cursei a atual Educação Básica de 1965 a 1976, e lecionei de 1979 a 2019, e pude acompanhar muitas transformações. E não foram poucas. Não foram apenas o modelo das carteiras e a cor do quadro que mudaram.

 

  1. Alguns mitos sobre a escola e a Educação

     Nossas escolas, nossos professores, diretores, mas também parte da sociedade, têm criado em seu imaginário, de modo fantasioso − e muitas vezes exagerado −, alguns mitos sem fundamentos que vêm prejudicando, ao longo das décadas, o processo educacional na escola. Vejamos seis deles.

 

Primeiro mito - A Educação vai melhorar quando o governo investir mais

     

     Embora uma grande quantidade de recursos federais, estaduais e municipais tenha sido destinada à Educação no país, a melhoria não depende apenas do volume de dinheiro investido. A deficiência reside na gestão eficaz, tanto por parte dos governantes das três esferas administrativas quanto dos diretores das escolas; e também da gestão da sala de aula. Investimentos em infraestrutura, tecnologia e materiais didático-pedagógicos são cruciais, mas não são a solução completa. É imprescindível uma administração competente e eficiente para garantir que esses recursos sejam utilizados de forma a promover uma verdadeira melhoria na Educação. E a começar da formação inicial dos professores.

 

Segundo mito - A melhor escola é aquela centrada na disciplina e no conteúdo

 

     Apenas a disciplina rigorosa e a ênfase no conteúdo não são suficientes para tornar uma escola melhor. Muitas vezes, o rigor disciplinar imposto pela direção oculta a verdadeira situação, assim como a visão puramente conteudista. É necessário ir além, promovendo um ambiente que valorize o desenvolvimento cognitivo dos alunos, capacitando-os a pensar. Algumas habilidades sociais serão resultado do convívio ao longo dos anos. Assim, a escola poderá proporcionar uma Educação mais completa e eficaz.

 

Terceiro mito – A indicação de uma boa escola é a sua grande quantidade de alunos

 

     A indicação de uma boa escola não deve se basear apenas na sua grande quantidade de alunos. A elevada quantidade de estudantes em uma escola pode, muitas vezes, ser resultado de uma maior facilidade na aprovação, em comparação com outras instituições. No entanto, outros aspectos também devem ser considerados, como a qualidade do ensino, a formação continuada dos professores, os métodos pedagógicos disponíveis, o desenvolvimento integral dos alunos e a infraestrutura da escola. Uma boa escola é aquela que proporciona um ambiente de aprendizagem eficaz, acolhedor e que prepara os alunos para os desafios do futuro por meio do conhecimento, não apenas aquela que apresenta maior número de matrículas.

 

Quarto mito - A direção deve escolher entre a qualidade e a quantidade para que

                       sua escola seja reconhecida na comunidade

 

     A ideia de que a direção deve escolher entre qualidade e quantidade para que uma escola seja reconhecida na comunidade é um mito. Qualidade e quantidade podem, sim, caminhar juntas sem maiores problemas. A direção e a comunidade frequentemente pensam que uma escola com menos alunos tem maiores condições de investir na qualidade do ensino. No entanto, essa percepção é relativa e depende muito da eficácia da gestão escolar e da formação e didática dos professores.

 

Quinto mito - É preciso comprometer o ensino-aprendizagem para obter maiores

                       índices de aprovação dos alunos

 

     A ideia de que é necessário comprometer o ensino-aprendizagem para aumentar os índices de aprovação dos alunos é equivocada. Um aluno pode ser promovido ao próximo ano tanto tendo aprendido significativamente quanto não tendo aprendido quase nada. Entretanto, é possível e essencial elevar os índices de aprovação por meio de um ensino mais eficaz, contextualizado, e avaliações desafiadoras. Ao estabelecer padrões mais elevados, os alunos são incentivados a alcançar seu potencial máximo, garantindo uma Educação de qualidade e um verdadeiro aprendizado, sem comprometer a integridade do processo educacional.

 

Sexto mito - A dedicação dos alunos é a chave principal para melhorar o nível

                    educacional de uma escola

 

     De nada adianta alunos dedicados se os professores têm uma didática fraca e conhecimento superficial de suas disciplinas, assim como uma escola pública sem uma Proposta Pedagógica bem definida. Da mesma forma, uma escola com boa Proposta Pedagógica e professores qualificados não funciona sem alunos mais disciplinados e boa socialização. A participação efetiva da família na Educação escolar é essencial para o sucesso, e a parceria entre escola e comunidade, valorizando a Educação, é fundamental para uma formação completa dos estudantes.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A CRISE DE IDENTIDADE DA ESCOLA ATUAL

 

     Como já deve ter ficado claro, o tema do presente trabalho é a escola pública de Educação Básica, que será abordada sob quatro aspectos principais. O primeiro deles é a gestão, o motor cuja força faz com que a escola ande em sua plenitude. O segundo é o corpo docente, o mecanismo que determina a sua velocidade. O terceiro é o corpo discente, aqueles que passam pela escola e por ela são conduzidos a uma cidadania mais efetiva em sociedade. O quarto enfoque é a Proposta Pedagógica, combustível que gera vida na escola.

 

     Quando reunimos esses quatro aspectos, temos a expressão concreta do organismo vivo mais importante e fundamental para uma nação, como gestão efetiva que impulsiona, professorado que impõe ritmo, alunado que desfruta e se satisfaz, e Proposta Pedagógica com propósito de cidadania. Essa é a escola.

 

     O propósito da escola é formar cidadãos capazes por meio de uma Educação plena para o crescimento do país e edificação da nação. Isso ocorre por meio do conhecimento agregado. O crescimento do país é quantitativo e a edificação da nação é qualitativa. A consumação máxima da Educação plena é uma sociedade integralmente próspera, e os cidadãos individuais como expressão dessa sociedade. A escola é objetiva e a Educação, seja ela formal ou não, é subjetiva. Na verdade, a escola e a Educação formal são dois enfoques do mesmo item. A realização da Educação escolar somente tem sentido quando aplicada no viver diário do indivíduo.

 

     Dessa forma, é possível compreender que a escola desempenha um papel estratégico na formação de cidadãos capazes de pensar criticamente, tomar decisões e resolver problemas de forma consciente e fundamentada. O propósito da escola vai além da simples transmissão de conteúdos: ela existe para formar cidadãos competentes por meio de uma Educação plena, contribuindo tanto para o crescimento quantitativo do país quanto para a edificação qualitativa da nação.

 

     Os conteúdos disciplinares são ferramentas essenciais nesse processo. Ao acessar saberes das diversas áreas − como Ciências, História, Geografia, Matemática e Português, por exemplo −, o indivíduo desenvolve uma visão de mundo baseada em evidências, análises racionais e respeito ao método científico. Essa base sólida permite que ele forme opiniões próprias, deixando de lado o senso comum e os achismos, e adotando uma postura argumentativa e crítica diante dos desafios sociais.

 

     Além disso, a Educação plena favorece o desenvolvimento da autonomia intelectual, tornando o sujeito apto a identificar problemas e propor soluções eficazes. Esse processo é fundamental para a construção de uma sociedade integralmente próspera, onde os cidadãos são expressões vivas do coletivo que se forma. A aplicação dos saberes no cotidiano − seja para interpretar informações, agir diante de dilemas ou participar da vida comunitária − transforma a Educação escolar em uma prática viva e significativa.

 

   Vejamos um questionamento que geralmente fazem alguns palestrantes. Por que estudar a fórmula de Bhaskara?

 

     A fórmula de Bhaskara, tão presente nas aulas de Matemática do ensino médio, vai muito além do papel e das provas. Embora muitos alunos pensem que ela serve apenas para resolver equações do segundo grau, na verdade essa ferramenta matemática aparece em diversas situações do cotidiano − e entender isso pode tornar a aprendizagem mais significativa e interessante.

 

     No transporte, por exemplo, é possível usá-la para maximizar receitas. Imagine um empresário que aluga ônibus e cobra um valor fixo por passageiro, mas que oferece descontos conforme o número de pessoas aumenta. Ao modelar essa situação com uma equação do segundo grau, a fórmula de Bhaskara revela o número ideal de passageiros para se obter o maior lucro. Essa aplicação mostra como decisões comerciais podem ser apoiadas pela Matemática.

 

     Na construção civil, a fórmula também tem utilidade. Quando engenheiros calculam a altura máxima de objetos lançados ou a distância de estruturas com curvaturas parabólicas, eles usam equações do segundo grau para prever o comportamento físico dos elementos envolvidos. Assim, Bhaskara ajuda a definir momentos específicos, como o instante exato em que um objeto chega ao ponto mais alto ou retorna ao solo.

 

     Ela também aparece no planejamento financeiro. Ao simular empréstimos ou pagamentos com juros compostos, é possível modelar os valores com equações quadráticas. A fórmula permite descobrir, por exemplo, em quanto tempo uma dívida será quitada ou qual parcela torna o pagamento viável. Assim, as famílias e empresas podem tomar decisões mais conscientes.

 

     Na área do esporte, especialmente em jogos que envolvem movimentos de projeção, como futebol ou basquete, a trajetória da bola segue uma curva parabólica. Aqui, a fórmula de Bhaskara ajuda a calcular o ponto exato de alcance ou impacto, tornando-se uma ferramenta útil para análises de desempenho e estratégias de jogo.

 

     Outros exemplos rotineiros incluem promoções em lojas, estruturas arquitetônicas, trajetórias de brinquedos em parques de diversões e até mesmo o cálculo do tempo de frenagem de um carro. Em todos esses contextos, a equação do segundo grau aparece como modelo matemático, e a fórmula de Bhaskara surge como instrumento que fornece soluções precisas para problemas reais.

 

     A fórmula de Bhaskara, muito conhecida nas aulas de Matemática, também é bastante útil no desenvolvimento de jogos digitais. Ela é usada especialmente para simular movimentos que seguem trajetórias curvas, como saltos, lançamentos e colisões de objetos no ambiente do jogo.

 

     Nos jogos de plataforma, por exemplo, quando um personagem salta, ele não sobe e desce em linha reta. O movimento segue uma curva chamada parábola, e essa curva é representada por uma equação do segundo grau. Para prever onde o personagem vai cair, em que altura ele vai chegar ou quanto tempo vai ficar no ar, os programadores usam a fórmula de Bhaskara para resolver essa equação. Isso garante que o salto seja realista e tenha o tempo e a distância certos.

 

     Outro uso comum é na simulação de colisões. Em muitos jogos, projéteis como flechas, bolas de fogo ou pedras são lançados em uma trajetória curva. Para saber se esse projétil vai atingir um inimigo, a programação calcula se, em algum momento, a posição do projétil será igual à do alvo. Essa conta, novamente, envolve resolver uma equação do segundo grau com a fórmula de Bhaskara.

 

     Além disso, durante a criação de fases e desafios, os designers usam essas equações para ajustar a posição de plataformas e obstáculos. Eles calculam, por exemplo, a altura ideal de uma plataforma para que só seja possível alcançá-la com um pulo bem calculado. Tudo isso ajuda a criar fases mais desafiadoras, lógicas e interessantes para os jogadores.

 

     Em resumo, a fórmula de Bhaskara é uma ferramenta matemática que ajuda programadores e designers a prever e controlar o comportamento de elementos dentro dos jogos, tornando os movimentos mais naturais e os desafios mais bem planejados.

 

     Portanto, perceber essas conexões entre o conteúdo escolar e o mundo fora da escola [inclusive o digital] é essencial para valorizar o papel da Matemática no dia a dia. E como professor, ao trazer esses exemplos para a sala de aula, você estimula o raciocínio, amplia o repertório dos alunos e mostra que a Matemática não é um universo à parte − ela está, literalmente, por toda parte.

 

     Por fim, é importante reconhecer que, embora a escola seja um espaço objetivo, a Educação é subjetiva, pois se realiza na interioridade de cada indivíduo. A convergência entre esses dois enfoques se concretiza quando o conhecimento adquirido encontra sentido na experiência diária e transforma o sujeito em agente da sua própria realidade. Dessa forma, os conteúdos disciplinares tornam-se pilares para uma formação cidadã autêntica, sustentando o ideal de uma nação edificada pela consciência crítica e pelo compromisso coletivo.

 

   Um dos grandes inimigos da Educação (subjetiva) e da escola (objetiva) é a vaidade das ideologias pedagógicas, ou seja, os modismos. Os gestores, os coordenadores pedagógicos e os professores precisam tomar cuidado com as ideologias pedagógicas; elas são pura vaidade humana. Primeiramente, uma ideologia tem um nome exterior, mas não tem a realidade e a essência da Educação. Em segundo lugar, uma ideologia leva um profissional da Educação, especialmente professores, a conhecer a teoria, que é apenas exterior, mas não a vivencia substancialmente na práxis. Por fim, as ideologias são imperfeitas, incompletas e, por conseguinte, falhas. Os professores não devem tentar corrigir as ideologias pedagógicas, aperfeiçoá-las ou contextualizá-las. A verdadeira Educação escolar não está baseada em ideologias. As ideologias pedagógicas não são a base da Educação escolar simples e pura. Os pedagogismos seguem as ideologias pedagógicas, causando uma babel na Educação e descrédito à escola.

 

     Vida é o objetivo da Educação. Não estudamos apenas para sermos cultos ou termos uma profissão. Esse pensamento é muito pequeno diante da grandeza da Educação escolar. Quem frequenta a escola por anos e isso não desemboca em sabedoria e qualidade de vida é porque há alguma coisa errada. Um dos grandes problemas são as ideologias, ou melhor, as diversas pedagogias por elas permeadas (e muitas ideologias políticas). Existem dois tipos de ideologia: a exterior, objetiva, e a interior, subjetiva. A ideologia exterior vem de grupos instituídos, e a ideologia interior vem do próprio indivíduo. O problema não está na ideologia em si, mas no que fazem dela na Educação formal. Por trás de cada ideologia há interesses de grupos ou de indivíduos. Toda mente posta em determinada ideologia é inimiga da Educação. É impossível a essa mente trabalhar com a Educação sem contaminá-la. Nenhum indivíduo está isento de alguma ideologia, mas pode impedir que ela permeie sua prática pedagógica. Entre o estímulo (a vontade de doutrinar) e a resposta (a doutrinação em si) há um espaço de tempo para refletir, para pensar, para evitar as consequências.

 

     A escola atual vem vivendo há décadas uma verdadeira crise de identidade. Principalmente nessas primeiras décadas do século XXI, ela tem se defrontado com uma crise de identidade sem igual. Não somente o papel da escola na sociedade contemporânea está em debate, mas também a finalidade da Educação que ela oferece, seu formato, os profissionais malformados que a integram, a massificação com seus portões abertos para todas as classes socioeconômico-culturais, e a inclusão.

 

     Primeiramente, vejamos o que é crise e o que é identidade.

 

 De acordo com a morfologia, a palavra crise vem do Latim crĭsis, no sentido de 'momento de decisão, de mudança súbita’, e tem sentido semelhante ao da palavra vento, indicando alternância, um distanciamento do estágio original; e do grego krísis, significando ‘momento decisivo’. É um momento de decisão.

 

     O vocábulo identidade vem do Latim medieval identitas, cuja raiz encontra-se em idem, e equivale a “o mesmo, a mesma coisa”. De acordo com o dicionário, identidade, dentre outras possíveis acepções, é um conjunto de características que distinguem uma pessoa ou uma coisa e graças às quais é possível individualizá-la.

 

     Uma crise de identidade é um estado psicossocial caracterizado por desorientação e confusão dentro de uma estrutura social, como uma instituição. Esse fenômeno ocorre quando os indivíduos ou grupos dentro da organização não conseguem alinhar suas expectativas, valores e objetivos com os da instituição em que estão inseridos. Esse desalinhamento pode levar a um sentimento de perda de propósito e clareza, impactando negativamente a coesão e a eficiência do grupo. Em instituições educacionais, por exemplo, uma crise de identidade se manifesta quando professores, alunos e administração têm visões divergentes sobre a função e os métodos de ensino. Para superar essa crise, é fundamental promover o diálogo, a reflexão coletiva e o alinhamento estratégico, garantindo que todos os membros da instituição compartilhem uma visão comum e colaborativa.     A identidade da escola tem a ver com o que ela é, com sua função específica na Educação, com seu papel na sociedade. A crise de identidade na escola atual refere-se ao fato de a escola não saber mais o que ela é, qual sua função, qual seu papel a ser desempenhado na sociedade, haja vista o distanciamento da família na educação dos filhos e a globalização.

 

     Eis um problema profundo e atual: a crise de identidade vivida por instituições, especialmente as educacionais. Esse fenômeno, marcado pela confusão de papéis, valores e objetivos, reflete um desalinhamento entre o que a instituição acredita ser e o que seus membros vivenciam no cotidiano. Quando professores, alunos e gestores não compartilham uma visão comum sobre a função da escola, surgem conflitos, desmotivação e perda de sentido no trabalho educacional. Essa falta de clareza sobre o papel da escola se agrava ainda mais diante de transformações sociais, como o afastamento das famílias do processo educativo e os impactos da globalização, que impõem novas exigências e expectativas.

 

     Diante desse cenário, fica evidente que a escola precisa repensar sua identidade e seu papel na sociedade atual. É urgente retomar o diálogo entre todos os envolvidos no processo educativo e construir, de forma coletiva, um novo sentido para a instituição. Mais do que métodos ou conteúdos, a escola precisa de propósito. Recuperar essa identidade é essencial para que ela volte a ser um espaço de construção de conhecimento, de cidadania e de pertencimento. Sem isso, a crise de identidade continuará afetando sua capacidade de transformar vidas e de cumprir sua missão social.

           

  1. O papel da escola na sociedade

     Primeiramente, seria bom salientar que há diferença entre o papel da escola na sociedade e o papel da escola para a sociedade, ou seja, o que a escola significa para a sociedade. Não é meu desejo saber o que a sociedade pensa sobre o papel da escola. Isso nem me interessa, porque a sociedade brasileira atual não está nem aí para as escolas públicas. O enfoque aqui é outro. Também é bom salientar que se trata aqui da escola de Educação Básica, contemplando a Educação Infantil, o Ensino Fundamental I e II e o Ensino Médio.

 

     Perguntados sobre o papel da escola na sociedade, a maioria dos próprios professores    diverge e tece comentários variados, filtrados por suas crenças, pelos seus conceitos, suas ideologias, suas frustrações, seus anseios relacionados à Educação.

 

     Qual seria realmente o papel da escola na sociedade? Convencer os estudantes de valores específicos? Doutriná-los? Passar instrução? Construir conhecimento? Ser um ambiente formador de opiniões? Propagar a ideologia dominante? Fomentar a organização mental e ampliar a capacidade de resolução de problemas do indivíduo? Preparar para a vida? Qualificar para o trabalho?

 

     A função da escola não é transformar o indivíduo, mas sim ajudá-lo a perceber-se em suas complexidades como ser humano, com o objetivo de contribuir para a existência de uma sociedade integrada, cônscia de seus direitos e deveres e livre de ideologias e padrões pré-estabelecidos de convivência por uma minoria dominante. E tudo isso se faz por meio dos conteúdos das diversas disciplinas, trabalhando o conhecimento e ensinando as crianças os jovens a pensarem, a usarem o cérebro. Tudo começa com a base: Matemática e Português. Impossível viver sem o uso dessa base.

 

     A escola é a sociedade em miniatura. A edificação da escola [em conhecimento, princípios e valores] é o engrandecimento da sociedade, da comunidade. Enquanto a escola é uma questão de ensino-aprendizagem, a sociedade é uma questão do exercício ou do desempenho do que resultou desse ensino-aprendizagem. E isso é muito sério. A negligência em uma ou em outra pode resultar em sérios problemas sociais. A vida escolar é para a vida prática da sociedade.

 

     A escola, como microcosmo social, carrega a responsabilidade de preparar indivíduos não apenas para o domínio de conteúdos acadêmicos, mas para a construção de uma cidadania consciente e engajada. É no ambiente escolar que se plantam as sementes do pensamento crítico, da empatia, da colaboração e do respeito às diferenças. Quando a escola falha em desenvolver esses valores por meio do conhecimento, a sociedade colhe os frutos de uma formação deficiente: intolerância, desigualdades acentuadas e uma fragilidade ética que compromete o tecido social. E incompetência profissional e relacional.

 

     Por outro lado, a sociedade também tem o dever de retroalimentar a escola, oferecendo suporte, recursos e uma visão clara de suas necessidades e aspirações. Uma sociedade que desvaloriza a Educação, que negligencia seus professores ou que não investe em infraestrutura escolar, está, na verdade, sabotando seu próprio futuro. A relação entre escola e sociedade é simbiótica: uma não pode prosperar sem a outra. A escola deve refletir os ideais de uma sociedade justa e democrática, enquanto a sociedade deve se comprometer a fortalecer a escola como espaço de transformação.

 

     Eis que destaco uma verdade fundamental: uma sociedade que não valoriza a Educação está, na prática, comprometendo seu próprio desenvolvimento. Quando os professores são desvalorizados, quando faltam recursos básicos nas escolas e quando a infraestrutura escolar é deixada de lado, o impacto atinge toda a coletividade. A escola é o reflexo da sociedade, mas também é o lugar onde os valores, conhecimentos e comportamentos que moldam o futuro são formados. Se essa base está fragilizada, o progresso social, econômico e humano também fica comprometido. A relação entre escola e sociedade, como o texto diz, é simbiótica − ou seja, interdependente.

Logo, fortalecer a escola é fortalecer a sociedade. Investir em Educação, valorizar os professores e garantir boas condições para o ensino não é caridade − é estratégia inteligente de futuro. Para que haja justiça social, crescimento e verdadeira democracia, é preciso entender que a escola não é um gasto, mas uma construção coletiva. Quando a sociedade cuida da escola, ela está cuidando de si mesma.

 

     Assim, o papel do professor transcende a transmissão de conhecimento. Ele é um mediador entre o presente e o futuro, um agente de mudança que, ao formar indivíduos, “molda” o destino coletivo. Cada aula, cada interação, cada momento de reflexão dentro da sala de aula é uma oportunidade de construir uma sociedade mais ética, mais solidária e mais preparada para enfrentar os desafios do mundo. Ignorar essa responsabilidade é abrir espaço para a perpetuação de desigualdades, conflitos e desumanização. Não se aprende a resolver um problema de Matemática e a compreender e interpretar um texto à toa.

 

     Portanto, refletir sobre a escola é refletir sobre a sociedade. É reconhecer que cada investimento em Educação − seja em tempo, recursos ou interação − é um investimento no bem comum. A escola não é apenas um prédio com salas e carteiras; é o coração pulsante de uma comunidade que sonha com um futuro melhor. Cabe aos professores, aos gestores, aos pais e à sociedade como um todo garantir que esse coração continue batendo forte, alimentado por valores que promovam a dignidade humana e a justiça social.

 

     É por isso que, para alcançarmos uma vida adequada em sociedade, necessitamos de uma Educação escolar adequada, currículo e Proposta Pedagógica adequados, formação de professores adequada, gestão adequada. Penso que a Educação se consuma de fato dentro da sala de aula, na relação diária entre professores e alunos e o conhecimento.

 

     Ensinar toda a população de um país a ler e a escrever não resolve os problemas sociais. Isso liberta a pessoa e a torna mais autônoma, mas não é o bastante. É necessário o despertamento de uma inteligência que derrube as barreiras psicológicas e ideológicas, as crenças, os preconceitos e o desejo de poder. Isso se faz via conhecimento. As diversas ciências existe também para isso.

 

  1. A escola transforma ou reflete a sociedade?

    Grande parte dos professores, coordenadores pedagógicos e diretores de escolas públicas afirma que, ao discutir os problemas enfrentados atualmente pela Educação, não consegue enxergar a escola fora do contexto caótico pelo qual estão passando [e falindo] as instituições. Desde a família ao Congresso Nacional, também a escola é mais uma instituição em crise. A sociedade, segundo eles – os professores −, ao buscar as causas de tudo isso, culpa a Educação, fazendo com que ela viva diariamente nessa ‘fritura’, esquecendo de observar o cenário no qual a escola encontra-se inserida. Alegam, também, que nesse contexto há outras instituições nas quais não se pode encontrar perfeição, há muita gente despreparada, que não tem oportunidades para melhorar profissionalmente, muitos analfabetos funcionais, limitados a trabalhos mecânicos, braçais e por aí vai.

 

     Em meio a tudo isso, a escola se depara com a violência. Há professores apanhando por causa da proibição do uso do celular na sala de aula. Aí percebe-se que, da Segurança Pública ao Supremo Tribunal Federal, tudo está caótico. E pergunta-se: Esse contexto contribui para uma boa escola pública? Um professor tem condições de fazer milagres em meio ao caos? Segundo esses profissionais, a Educação engloba outras necessidades que estão postas na segurança pública, no transporte, na saúde, na geração de empregos, e não depende apenas de professores. Mas não estamos falando da Educação escolar, em que uma das principais funções é o ensino formal, ou de uma educação mais abrangente – como querem que a escola dê conta, com a quase total ausência da família nesse sentido?

 

     A sociedade é o lugar onde a Educação escolar se torna realidade concreta, beneficiando-a preferivelmente em todas as áreas e estando ao alcance de todos os seus membros. Entretanto, somente a Educação pura e plena deve ser apresentada à comunidade pela escola, e ser percebida, experimentada e desfrutada por todos. Após apresentada, percebida, experimentada e desfrutada, ela indubitavelmente será expressa na vida prática da sociedade. Temos, então, a sua apresentação, a sua percepção, a sua experimentação, o seu desfrute e a sua expressão. Mas isso parece utopia, e está muito longe de se tornar uma realidade. Será?

 

     É por isso que a Educação escolar deve estar livre de ideologias – incluindo a doutrinação religiosa. A escola pública é laica. Tanto a pedagogia tradicional quanto a socioconstrutivista são ideológicas. As ideologias objetivam o controle da mente e, por conseguinte, o controle da sociedade. Eu fui estudante da atual Educação Básica durante o período da ditadura militar e sei muito bem como é isso. Por quê? Um eleitor que vivenciou a Educação pura é perigoso para o sistema político-ideológico. A política que temos jamais trabalhará em prol de uma Educação escolar pura, pois a sua plenitude lhe é subversiva. É extremamente desinteressante e de certo modo perigoso para o sistema político que um indivíduo deixe de viver por meio ou sob a influência da ideologia e passe a viver embasado na Educação formal plena. A mente posta na ideologia é uma mente imbecilizada, ignorante, alienada, morta – como temos visto na mídia e nas redes sociais −; a mente posta na Educação plena é uma mente que tem discernimento e, portanto, viva. E é possível ocorrer uma Educação pura?

 

     Faço aqui uma crítica contundente ao sistema político-ideológico atual – bestialmente polarizado –, apontando que uma Educação plena e crítica representa uma ameaça a esse sistema. Independentemente de ser esquerda, centro ou direita. A ideia central é que um cidadão bem-educado, com pensamento autônomo e capacidade de questionar, torna-se menos manipulável e mais consciente de seus direitos e deveres. Uma pessoa que possui um mínimo de inteligência não acredita em fake news. Isso contraria os interesses de estruturas de poder que se mantêm justamente pela alienação e pela reprodução de ideologias prontas. Quando a Educação é reduzida a conteúdos vazios ou ideologicamente moldados, ela não forma cidadãos, mas indivíduos conformados, que aceitam o que lhes é imposto sem reflexão. É nesse contexto que a crítica à imbecilização da mente pela ideologia se faz tão direta: uma mente sem Educação crítica é facilmente manipulável, controlável.

 

     Uma Educação verdadeira e libertadora transforma o indivíduo em agente do próprio pensamento e, por isso, assusta sistemas que dependem da alienação. É por isso que muitos governos evitam investir em uma escola que ensine a pensar. E não interessa se é de esquerda ou de direita. Todos! Valorizar a Educação plena é, portanto, um ato político de resistência. Quanto mais formarmos cidadãos críticos e conscientes, menos espaço haverá para a manipulação ideológica. Educar com profundidade não é apenas ensinar conteúdos – é preparar pessoas, mediante o conhecimento, para não se deixarem enganar.

 

    A Educação escolar não deve ser apenas libertadora. Isso é muito pouco. Ela também precisa ser transformadora e edificadora. Precisa gerar sabedoria para a vida. O ponto básico da Educação escolar é a preparação do indivíduo – por meio do conhecimento − para o desfrute da cidadania plena, ajudando-o – repito –  a perceber suas complexidades como ser humano imperfeito, consciente de seus direitos e deveres e com sua mente livre de ideologias e apta para discernir, analisar e refletir sobre tudo − ou quase tudo. A cidadania plena, adquirida por meio da Educação escolar pura, vivifica o indivíduo, a sociedade e a nação. Por isso a Educação escolar pura é a principal inimiga das ideologias. As ideologias se opõem à efetivação da Educação pura por ela ser libertadora, conscientizadora, transformadora e edificadora. A ideologia, pois, é um inimigo a ser vencido pela escola.

 

     Se o objetivo da escola for apenas o de formar bons médicos, advogados, engenheiros etc., jamais contribuirá para a construção de uma sociedade igualitária, fraterna e justa, pois desconsiderará, dessa forma, a formação de um ser humano pensante.

 

     Um dos principais motivos da existência das escolas é produzir uma profunda transformação na sociedade por meio da preparação e edificação do indivíduo, trabalhando o conhecimento científico e teórico acumulado ao longo dos séculos. E o professor, como um dos principais agentes da escola (penso que o mais importante), tem uma imensa responsabilidade nesse processo. Infelizmente, existem professores que não são capazes de produzir mudanças efetivas nem em si mesmos, quanto mais na sociedade, na comunidade da qual fazem parte.

 

     Mas que preparação é essa? O que é mais importante: a acumulação de conhecimento ou o desenvolvimento integral do indivíduo mediante o conhecimento? As escolas que não têm uma visão de futuro e uma missão estão aquém de educar seus alunos integralmente como indivíduos. Elas apenas corrompem a mente dos seus alunos. O mesmo acontece com as ideologias pedagógicas, como o escolanovismo, o construtivismo e quantos “ismos” mais criam por aí.

 

     Um dos fins da escola é proporcionar aos alunos e aos professores um florescimento natural que os leve à frutificação para a vida e para a sociedade. Qual é o principal propósito da escola? Posso dizer, caro leitor, que não é ensinar os alunos a fazerem prova e a tirarem boas notas, conquistado diplomas, nem a formar bons profissionais. Isso é consequência. Nossa sociedade está cheia de bons profissionais vazios como pessoas e como cidadãos, que eram disciplinados [no sentido do comportamento] e tiravam boas notas nas provas escolares.

 

     As escolas não deveriam estar preocupadas somente em repassar teorias, conceitos e ideias dos conteúdos curriculares; elas devem, isto sim, preocupar-se de forma que esse aprendizado seja útil e aplicável nas atividades da vida diária dos alunos. E já apresentei aqui, inclusive, a importância e algumas utilizações da criticada fórmula de Bhaskara. Que os leve a pensar, a refletir, a tornarem-se pessoas melhores. Dessa forma, a sociedade também é beneficiada.

 

     Qual é o principal objetivo e fundamental papel da escola perante a sociedade neste milênio, especialmente nestas primeiras décadas? Não seria formar [e não deformar] uma geração de seres humanos que pensam, têm bom senso e que sejam menos egocêntricos? O que fez a escola brasileira ao longo do século XX?

Volto a insistir. Qual é o principal objetivo e o papel fundamental da escola diante da sociedade neste milênio, especialmente nestas primeiras décadas marcadas por profundas transformações sociais, tecnológicas e culturais?

 

     Não seria formar – e não deformar – uma nova geração de seres humanos mais conscientes, críticos, empáticos e capazes de pensar por si mesmos, com bom senso e menos centrados apenas em seus próprios interesses? Em um mundo cada vez mais polarizado, consumista e individualista, a escola precisa assumir, com coragem e clareza, sua função de formar cidadãos éticos, responsáveis e preparados para viver em sociedade de forma colaborativa e solidária. Quem ama o Brasil não o usa apenas em benefício próprio.

 

     A escola não pode mais se limitar a transmitir conteúdos ou preparar para provas. Ela deve ser um espaço de diálogo, escuta, convivência e construção de sentido. Seu papel é desenvolver a autonomia intelectual, a sensibilidade social e a capacidade de discernimento – qualidades urgentes diante dos desafios do século XXI, como as fake news, o extremismo ideológico, o colapso ambiental e as desigualdades crescentes.

 

    Mas o que, de fato, a escola brasileira fez ao longo do século XX? Em grande parte, reproduziu modelos autoritários, conteudistas e excludentes, que priorizavam a disciplina e a obediência, em vez da criatividade e da liberdade de pensamento. Durante décadas, foi uma escola que formava para o silêncio, não para a participação. Que promovia a memorização mecânica, não o pensamento crítico. Que muitas vezes reforçava desigualdades sociais, ao invés de combatê-las.

 

     Agora, mais do que nunca, é hora de virar essa página. A escola precisa se reposicionar, reconhecer os erros do passado e assumir com firmeza seu compromisso com a formação integral do ser humano. Isso exige uma mudança profunda na prática pedagógica, na gestão escolar e na visão que a sociedade tem da Educação. Afinal, não existe futuro possível sem uma escola que forme pessoas que saibam pensar, dialogar e cuidar umas das outras.

 

     Cada professor, com sua prática, tem o poder de romper com modelos ultrapassados, de criar espaços de escuta, de promover o pensamento crítico e o respeito à diversidade. É nas pequenas ações – numa escuta atenta, numa aula provocadora, numa mediação sensível – que se constrói a escola do futuro.

 

     Por isso, é hora de agir. Professores não são meros executores de conteúdos: são formadores de consciências, semeadores de mudança, agentes de transformação. Não podemos esperar que as políticas mudem para então mudarmos nossa prática. A mudança começa em cada escolha pedagógica, em cada relação construída com os alunos, em cada espaço que abrimos para o diálogo e a autonomia, na criatividade e inovação na sala de aula. E quando menciono inovação, não estou me referindo ao uso de tecnologia. Também se inova por meio de cuspe e giz e cola quente.

 

     A escola precisa mudar, sim. Mas essa mudança começa por nós, professores. Porque não existe futuro possível sem uma escola viva – e não existe escola viva sem professores que acreditem no poder da Educação e lutem por ela todos os dias.

 

     A escola que, inserida no espaço geográfico de uma comunidade, não interfere de forma positiva nessa mesma comunidade, contribuindo para o crescimento e edificação de seus membros como pessoas, como cidadãos, como profissionais, proporcionando-lhes a busca por uma vida cada vez melhor, participativa e solidária em sociedade, nada mais é que uma escola inútil, uma escola morta, um prédio apenas.

 

     3. O fim da Educação Básica

    Antes que alguns distorçam meu pensamento, fim aqui refere-se ao que se busca alcançar, atingir; finalidade, objetivo, propósito. É bom esclarecer, porque existe gente que quer acabar com a escola. A verdadeira Educação Básica não envolve apenas a educação infantil, o ensino fundamental e o ensino médio. Ela engloba também o estudar e o aprender sobre o ser social mediante o conhecimento visto nas diversas disciplinas. E essa deve ser a função de cada professor e a intenção de cada estudante. Uma escola apenas conteudista contribui para a desordem interior dos indivíduos. Mas é melhor conteudista do que largada ao léu. De que adianta conhecer fatos, células e átomos, se a pessoa desconhecer a si mesma e não souber pensar, aplicar o que aprendeu em benefício de uma vida e de uma sociedade melhores? Conhecer o ser social, consequentemente, é também uma função da Educação Básica, que será complementada com estudos superiores. Todo o resto é apenas enchimento. Importante para a sociedade, mas apenas complemento. O conhecimento do todo engloba conhecer o ser social e conhecer, dominar e saber aplicar o conteúdo. Aplicar, utilizar no dia a dia. Claro que não será tudo, mas o principal no contexto de cada indivíduo. O conteúdo é apenas uma parte do todo. O conteúdo, por si mesmo, é vazio.

 

     De que adianta conhecer as operações básicas da Matemática, e não souber somar como cidadão, dividir com os necessitados, multiplicar o amor e subtrair o ódio e o egoísmo? De que adianta aprender a gramática da língua e não souber se comunicar com o outro, de saber que, além do eu, existem o tu e o nós? De que adianta estudar o corpo humano e destruí-lo com vícios, não souber dominar as emoções? De que adianta estudar a geografia e a história e não souber dividir espaços com outro ser histórico? A Educação escolar básica não pode se resumir ao afunilamento de vastos conteúdos disciplinares na cabeça dos alunos. E o professor deve ter ciência disso, caso contrário estará apenas repassando informações [vazias] na sala de aula, e não construindo conhecimento. Faz-se necessário aprender a pensar, a raciocinar, a aplicar o que aprendeu na vida diária.

 

     Portanto, a Educação deve transcender o ensino de conteúdos técnicos e promover a formação integral do ser humano. Não basta memorizar fórmulas, regras ou fatos históricos, se não houver reflexão sobre valores éticos e convivência. Não estou afirmando que a escola deva substituir a educação realizada pela família. Não se trata disso. São papéis diferentes. E o professor, como mediador, deve estimular o pensamento crítico, a empatia e a aplicação prática do conhecimento, transformando aulas em espaços de diálogo e construção coletiva. Tais ensinamentos não ocorrerão em disciplinas separadas, ou em horários específicos, mas concomitantemente aos conteúdos disciplinares (e sem essa de tema transversal). Só assim a escola cumprirá seu papel de formar cidadãos conscientes, capazes de somar esforços, dividir responsabilidades, multiplicar solidariedade e subtrair preconceitos, contribuindo para uma sociedade mais justa e equitativa.

 

     Vimos, anteriormente, que a escola é a sociedade em miniatura, e que a edificação da escola [em princípios e valores, mediante a aquisição do conhecimento e sua aplicação] é o engrandecimento da sociedade. Logo, o fim último da Educação escolar básica seria a vida prática da sociedade? O objetivo da escola não é ensinar teorias, doutrinar alunos. O propósito da Educação escolar é muito mais elevado do que se apresenta e parece a nós e do que fazem dela. A Educação escolar deve ir aos alunos por meio dos professores, para que os alunos retornem à sociedade, após anos de estudo, com a plenitude da cidadania e do ser social a eles ministrada de forma prática e experimental – sabendo pensar, raciocinar, refletir, comunicar, entender, interpretar, utilizá-lo para o seu bem-estar e de seu semelhante ao longo da vida. Servir a sociedade em vida é um objetivo da Educação escolar. Quanto maior for a qualidade da Educação oferecida pela escola, maiores serão a experiência e os benefícios despendidos à sociedade. Onde quer que haja uma escola, ali devem ser bastante visíveis os inúmeros benefícios para a comunidade na qual ela está inserida. Se isso não ocorrer, ela pode ser tudo, menos uma escola de fato. Sei que isso não é fácil, mas não impossível. E leva tempo.

 

     Uma escola de Educação Básica não pode viver apenas de teoria, mas também da práxis; pois a teoria divide, mas a prática une. Toda teoria causa divisão. Principalmente hoje, em que se considera tudo relativo. A sociedade não vive apenas da teoria, mas da prática que desemboca dessa teoria. A boa teoria desemboca na boa prática. Portanto, a escola precisa também da prática. A prática conduz o aluno ao aprendizado efetivo, enquanto a teoria lhe transmite apenas informação, que posteriormente será esquecida. Informação está disponível para qualquer um fora da escola, principalmente na internet. No entanto, nem toda informação edifica. É preciso filtro e saber utilizar. Teoria e prática devem caminhar juntas.

 

     Informação – repito – está disponível para qualquer um fora da escola, principalmente na internet. No entanto, nem toda informação edifica. Muitas vezes, o que encontramos online é fragmentado, superficial ou até mesmo enganoso, exigindo um senso crítico apurado para separar o que é valioso do que é apenas ruído. A verdadeira edificação vem não apenas do acesso à informação, mas da capacidade de interpretá-la, contextualizá-la e aplicá-la de forma significativa. Isso requer habilidades que vão além da simples busca, como análise, reflexão e discernimento, que são frequentemente desenvolvidas em ambientes educacionais estruturados ou por meio de uma busca pessoal consciente por conhecimento de qualidade. Portanto, embora a internet seja um vasto repositório de dados, a construção de um saber sólido depende de como filtramos e utilizamos essas informações para nosso crescimento intelectual e moral.

 

     Um adendo aqui. Sabiam que a Inteligência Artificial comete alucinações? Sim, o termo técnico é exatamente esse: alucinação. Ele se refere ao momento em que um sistema de IA “inventa” informações − apresenta dados falsos como se fossem verdadeiros, de forma convincente. Isso acontece porque ela não pensa nem entende como um ser humano (não é inteligente, portanto): ela apenas calcula padrões com base nos dados com os quais foi treinada (não é artificial). Por isso, é essencial que professores, estudantes e demais usuários saibam fazer as perguntas corretas, detalhadas, e interpretar criticamente as respostas geradas por ferramentas de IA, sempre conferindo as fontes e checando a veracidade do conteúdo. A IA pode ser uma aliada incrível, mas precisa ser usada com consciência.

 

     A Educação é um processo − ou a consumação dele − de crescimento intelectual do indivíduo. Ser educado na escola é ser edificado interior e exteriormente, e isso acarreta mudança. Vai muito além do fator cognitivo. Na vida da escola e no dia a dia da sala de aula, o professor e o aluno passam por mudanças e ambos são edificados. A Educação plena é para a edificação do indivíduo – o ser social – e da sociedade.

 

   A Educação escolar plena e pura é uma questão de relacionamento [e sobrevivência, especialmente dos professores] do indivíduo com o conhecimento e com a sociedade, tanto pessoal quanto profissionalmente. A Educação pura não cria protótipos formatados em ideologias; ela abre a mente do indivíduo, é libertadora. De acordo com o meu pensamento, a Educação escolar plena e pura e a edificação do indivíduo para o exercício da cidadania em sociedade estão interligadas de tal maneira que podemos até afirmar que são apenas uma, totalmente inseparáveis. Se não existir Educação escolar plena e pura, então não existirá edificação para a cidadania. A Educação escolar plena e pura é a essência e o exercício da cidadania é a prática de vida. Nesse sentido, a Educação escolar plena e pura deve ser tanto para a vida pessoal e profissional do indivíduo quanto para a sociedade. Não confundam com educação emocional, afeto, valores morais. Isso cabe à família, e não é papel nem responsabilidade da escola. Os professores não estão na sala de aula para distribuir afeto; isso é importante na Educação Infantil e na alfabetização.

 

     Aproveito aqui para enfatizar que as professoras da alfabetização são a base de toda a formação escolar. Ensinar uma criança a ler e escrever vai muito além de aplicar métodos: exige sensibilidade, escuta ativa, paciência e inteligência emocional. Não se trata apenas de transmitir conteúdos, mas de formar sujeitos. Não gosto de utilizar esta expressão, mas vejo como uma missão sublime. Merecem meu respeito e admiração.

 

     Alfabetizar é ensinar o código escrito, a formar sílabas e palavras, mas também é ensinar a pensar, interpretar, organizar ideias e compreender o mundo por meio das palavras. Esse processo exige olhar atento para cada criança, respeitar seu tempo e suas singularidades. É necessário saber identificar dificuldades precoces, adaptar estratégias, estimular a autonomia e manter o vínculo afetivo que sustenta o aprendizado.

 

     Essa etapa não é para qualquer professor. Ela exige domínio dos fundamentos da linguagem, conhecimento de psicogênese da escrita, neurociência da aprendizagem, metodologias ativas e, principalmente, vocação – outra palavrinha que não gosto de usar ao me referir a professores; prefiro, aqui, dedicação. Quem alfabetiza precisa lidar com a diversidade: crianças com diferentes histórias, contextos, transtornos, ritmos e formas de aprender.

 

     A professora alfabetizadora é, muitas vezes, a primeira a perceber sinais de dislexia, TEA, TDAH, defasagens cognitivas ou emocionais. Seu trabalho é pedagógico e diagnóstico ao mesmo tempo. Ela não realiza diagnósticos, não emite laudos, mas informa a família (a qual nem sempre aceita). Ela faz mais do que ensinar: ela transforma.

 

     Valorizar essa profissional é reconhecer que, sem ela, não há base sólida. É urgente que escolas, gestores e a sociedade compreendam: alfabetizar com qualidade é um dos trabalhos mais complexos e importantes da Educação. E quem faz isso com responsabilidade e competência merece respeito, formação continuada e reconhecimento. Uma professora alfabetizadora deveria receber um salário equivalente ao de um vereador de seu município. A diferença é que ela trabalha mais e seu trabalho é muito mais importante para a comunidade.

 

   O objetivo central do serviço prestado pela escola é [ministrar] apresentar a Educação plena e pura aos indivíduos, mediante o conhecimento, para que eles sejam edificados e possam exercer uma cidadania plena em sociedade. Deve ser a capacitação de seres humanos pensantes. Esse é o ponto central da Educação formal plena e pura: conduzir indivíduos comuns à cidadania plena para a edificação de uma sociedade justa, equitativa e próspera. E prosperidade integral, muito além do financeiro.

 

     Então, é função social da escola conduzir os indivíduos à cidadania plena por meio da Educação pura para a edificação da sociedade? Penso que sim. O que a escola é e o que a escola faz é expresso pela vida prática na sociedade. O objetivo central da escola é, pois, permitir aos indivíduos o desfrute de uma cidadania plena em sociedade. Os conteúdos aprendidos precisam fomentar o pensamento lógico.

 

     A cidadania plena está fundada em três pilares, que são: dignidade, liberdade e prosperidade. A dignidade humana, valor máximo que inspira respeito e consideração; a liberdade, direito individual que, sem confrontar com os deveres do indivíduo e com a liberdade de outrem, engloba as capacidades físicas, mentais, intelectuais, espirituais e verbais do indivíduo; e a prosperidade, que, abrangendo todas as áreas da vida do indivíduo, propicia-lhe a superação de adversidades, das quais ninguém está imune. Essa prosperidade envolve também o dinheiro, mas não somente ele.

 

     A cidadania plena e a edificação da sociedade são o resultado da Educação escolar plena e pura. A expressão plena da Educação escolar pura é a definição mais elevada que podemos dar à escola. O poder da Educação escolar plena e pura é que viabiliza a existência de uma cidadania plena e de uma sociedade justa. E isso bate de frente com a ideologia política, com o pensamento e intenções dos governantes.

 

     Eis um princípio básico da Educação escolar plena e pura: se você a conhecer em sua essência, colaborará para que ela edifique a vida prática em sociedade. A verdadeira Educação escolar, quando bem compreendida, ajuda a formar pessoas que contribuem para melhorar a vida em sociedade. Em outras palavras, uma Educação completa e de qualidade não é apenas sobre aprender conteúdos, mas sobre entender seus valores e usá-los para viver melhor com os outros, promovendo harmonia e progresso no dia a dia.

 

     4. Características da Educação formal

    Peço licença para discorrer aqui neste espaço sobre a natureza da Educação formal. Quais são as características principais da Educação formal? A sociedade valorizava a educação recebida no meio familiar [será?], na comunidade, e valorizava também o autodidata; atualmente, valoriza mais o dinheiro como fonte das demais coisas. A educação familiar é realmente imprescindível, mas tem deixado muito a desejar; o aprendizado recebido nos relacionamentos sociais também é importante, apesar de o homem andar carente de princípios e valores; ser autodidata é algo maravilhoso, mas o aprendizado dessa forma é muito relativo, e é também um tanto arriscado, haja vista que se pode encontrar livros de todos os tipos à disposição, entre eles muitos best-sellers nada recomendáveis; informações várias são passadas pela mídia, especialmente pela televisão; um mar de informações disponíveis na internet, nas redes sociais, que, sem um filtro adequado, podem ter um efeito destrutivo e não construtivo; e agora temos também algo como o ChatGPT. E ter dinheiro é bom, óbvio – não vivemos sem ele –, desde que se saiba como usá-lo com responsabilidade, pois tanto pode ser benéfico, quanto o amor a ele ser a raiz de todos os males na vida de uma pessoa e no seu meio. Todos, sem dúvida, são importantes. Entretanto, um dos bens mais preciosos que se adquire na vida é a Educação formal, ainda que tão desvirtuada em nossas escolas, e desmerecida em nossa sociedade. Infelizmente.

 

     É comum afirmarem que o conhecimento é a única coisa que não nos roubam. No entanto, fontes confiáveis mostram que a lavagem cerebral coercitiva pode distorcer ou eliminar conhecimento, especialmente sob isolamento, privação, pressão psicológica sistemática. Contudo, métodos modernos (educação, mídias) raramente produzem efeito tão intenso ou irreversível. Realmente não se rouba, mas se destrói.

 

     Mas o que é Educação formal? A Educação formal é uma das maiores criações da humanidade − ou a maior e mais grandiosa delas −, levada a cabo pela escola, tendo como base os conhecimentos científicos, teóricos e culturais construídos ao longo da história, com a finalidade de propiciar ao indivíduo uma cidadania plena e uma boa prática de vida. Para isso, a Educação escolar deve ser pura e contextualizada.

 

     Educação formal é o processo estruturado de ensino e aprendizagem oferecido por instituições como escolas e universidades. Segue currículos específicos e deveria ser conduzido por profissionais qualificados, valorizados e bem pagos, visando ao desenvolvimento intelectual, social e profissional dos indivíduos.

 

     A Educação formal tem quatro características. Elas são a sua natureza. A primeira característica da Educação formal é ser pura, ou seja, ela não está relacionada a ideologias. Pelo menos não deveria estar. A ideologia imbeciliza o indivíduo e o torna egoísta. Contaminada pela ideologia, a Educação formal deixa de ser pura e plena, e torna-se algo a serviço de pequenos grupos ideológicos. Esse é, portanto, um dos grandes males da Educação brasileira. As ideologias, sejam elas determinadas por grupos ou individuais, têm servido de empecilho para que nossos estudantes se beneficiem da cidadania plena e de uma boa prática de vida em sociedade.

 

     Alguns filósofos podem aqui retrucar que tudo tem um fundo ideológico, que nada está isento de ideologia, que não existe neutralidade. Mas isso não quer dizer que não exista a Educação escolar pura e plena. O fato de indivíduos a contaminarem com suas ideologias não impede a sua existência. Assim, a primeira coisa que precisamos entender é que as ideologias não devem se colocar no caminho da Educação formal. Não estamos cem por cento livres de ideologias, mas podemos minimizá-las.

 

     A segunda característica da Educação formal é que ela não prepara diretamente para o mercado de trabalho. As escolas podem preparar alunos para um mercado de trabalho multifacetado? Quais competências e habilidades as escolas vão trabalhar nesse sentido? Haja inteligências múltiplas para isso, e não consegue. A tendência do mercado de trabalho ou é capitalista neoliberal ou socialista. A Educação básica, especialmente, não deve fundamentar o seu currículo no mercado de trabalho. O mercado de trabalho, principalmente no capitalismo, é competitivo, traiçoeiro, cruel. Não é função da Educação escolar formar cidadãos competitivos. Isso é um grande mal para a sociedade. Esse tipo de mentalidade é doentio, mesquinho simplório, bem aquém daquilo que realmente está na essência da Educação escolar pura e plena. O mercado de trabalho é egoísta e devorador. Quem sai da Educação formal, após vários anos de estudo, preparado para a vida prática, sai também preparado – ainda que parcialmente – para a vida profissional, pelo menos sabendo pensar e agir. Isso não impede que, paralelamente, existam cursos técnicos e profissionalizantes.

 

     A terceira característica da Educação formal é que ela não prepara os alunos diretamente para a vida. Que tipo de vida? Baseada em qual classe social, haja vista que existem uma variedade enorme de condições socioeconômicas e culturais? Volto a perguntar: Que tipo de vida? A Educação formal, nesse sentido, seguirá um modelo padronizado que prioriza conteúdos acadêmicos e habilidades gerais, mas sem considerar as realidades específicas de cada estudante. Ela pode até ensinar conceitos teóricos ou técnicos, mas frequentemente deixará de abordar as demandas práticas e contextuais da vida cotidiana, que variam conforme o ambiente social, econômico e cultural de cada indivíduo. Se já é complicado para os professores trabalharem com a heterogeneidade e diversidade de alunos em sala de aula, quem dirá preparar para a vida. Isso é querer muito de um professor.

 

     A quarta característica da Educação formal é que ela não é uma mercadoria – apesar de ter se tornado como tal, tanto na Educação Básica quanto no ensino superior; neste mais ainda. A Educação formal não é um produto para estar à venda em prateleiras de escolas e faculdades privadas nem em prateleiras político-partidárias. Quem assim o faz é oportunista, hipócrita e nada entende de Educação. Educação não se vende. A Educação escolar nada tem a ver com empresa, com marketing, com vitrines, e muito menos com lucro financeiro.

 

     A grande contradição é que, enquanto se fala em formar cidadãos críticos e conscientes, o que se vê é um modelo educacional moldado por interesses econômicos. Escolas viraram marcas. Faculdades, franquias. Avaliações, produtos com selo de qualidade. Tudo isso embalado com promessas de sucesso rápido, empregabilidade e "alta performance". Mas a pergunta que não cala é: sucesso para quem? A quem interessa esse modelo que transforma o estudante em cliente e o professor em prestador de serviço?

 

     O conhecimento perdeu espaço para a nota, o diploma virou moeda de troca, e o currículo escolar foi reduzido a uma lista de competências mercadológicas. É como se pensar criticamente fosse um obstáculo ao sistema, e não o seu objetivo principal. Muitas escolas viraram palco de marketing e palco político, onde discursos prontos são vendidos como verdade absoluta, enquanto os reais problemas da Educação pública – falta de estrutura, desvalorização docente, exclusão social – seguem invisíveis.

 

     Educação de verdade exige tempo, escuta, diálogo e investimento humano. Não cabe nos moldes do lucro. Quem trata Educação como mercadoria não quer formar sujeitos, quer formar consumidores obedientes. Isso não é ensino. É domesticação.

 

     A Educação escolar pura não está relacionada a ideologias, ao mercado de trabalho e à vida de forma direta, nem é uma mercadoria. É um ignorante quanto ao verdadeiro valor da Educação formal quem assim a vê e a relaciona.

 

     5. Tendências e práticas pedagógicas

   As teorias psicopedagógicas são maléficas à Educação, pois levam nossas escolas e nossos professores à confusão e à desordem, sejam elas no âmbito político-pedagógico, inter-relacional e individual. E como pode haver aprendizagem nessas circunstâncias, em meio a tantos modismos ou pedagogismos?

 

     A Educação no país nunca vai melhorar discutindo velhas teorias pedagógicas – de autores defuntos – ou criando novas teorias, substituindo uma metodologia por outra, copiando outros países, fazendo reformas superficiais a cada governo, e sem continuidade. Quando as ideias pedagógicas, as metodologias de ensino e os instrumentos de avaliação tornam-se mais importantes para quem conduz a Educação nos âmbitos federal, estadual ou municipal, e para gestores, coordenadores e professores do que o próprio aluno e o conhecimento, esse antagonismo desvirtuará o verdadeiro sentido da Educação.

 

     Assim como a religião era ópio da humanidade para Karl Marx [e está se tornando no Brasil, só que do lado oposto], as teorias político-pedagógicas e seus modismos são o ópio da Educação, segundo meu ponto de vista. Em que melhorou a Educação escolar em nosso país após o surgimento do escolanovismo, da epistemologia, do construtivismo, das inteligências múltiplas, das competências, dos quatro pilares, da zona de desenvolvimento proximal e da perspectiva socioconstrutivista? E copiando a escola da pinguela ou visitando aquele país minúsculo que fica do outro lado do lado de lá? Como tem se dado o desdobramento dessas teorias pedagógicas dentro de nossas escolas e nossas salas de aula e que resultados positivos, plausíveis e de impacto têm provocado desde o início de sua implantação? E os ciclos? E a aprovação automática?

 

     Pois é. A revolução educacional brasileira é um show de teorias e pouco resultado. Então, quer saber como a Educação escolar brasileira deu um salto quântico com a chegada da epistemologia, do construtivismo, das inteligências múltiplas, das competências, dos quatro pilares, da zona de desenvolvimento proximal e da perspectiva socioconstrutivista? Prepare-se para uma viagem hilária pelo mundo das teorias pedagógicas que, teoricamente, deveriam ter transformado nossas escolas em utopias do saber. Spoiler: o buraco é mais embaixo, e a pinguela continua firme.

 

     Vamos começar com o desfile de jargões acadêmicos. Epistemologia? Parece nome de remédio para dor de cabeça, mas é só uma palavra chique para dizer que a gente deveria entender como o conhecimento é construído. Construtivismo? A ideia de que o aluno constrói o próprio saber, como se professores fossem meros decoradores de sala, assistindo o milagre do aprendizado brotar sozinho. Inteligências múltiplas? Genial, agora temos oito tipos de inteligência para provar que todo mundo é especial, mas ninguém sabe como ensinar isso na prática. Competências? Um checklist de habilidades que soa mais como manual de RH do que algo útil para uma sala de aula lotada. Os quatro pilares da Educação? Soam majestosos, mas, na real, são mais quatro colunas segurando o teto de promessas não cumpridas. Zona de desenvolvimento proximal? Vygotsky deve estar se revirando no túmulo vendo como transformaram sua ideia em um conceito decorativo para teses de doutorado. E Piaget, então? Coitado! O que fizeram com seus estudos de anos... E a perspectiva socioconstrutivista? Parece que alguém jogou todas as teorias no liquidificador e serviu um suco intragável de boas intenções. Parece engraçado, mas é trágico. Extremamente trágico.

 

     E o que dizer das nossas inspirações internacionais? Copiar a escola da pinguela (ou ponte?), aquele modelo rústico onde o aluno “atravessa um rio” para aprender tabuada, ou fazer peregrinação a um país minúsculo do "lado de lá" (Finlândia, é com você)? Porque, claro, basta importar um sistema educacional como quem compra um móvel pronto no e-commerce para tudo se resolver. Ignoremos o detalhe de que nossos professores ganham salários de fome, as escolas caem aos pedaços e o Wi-Fi da escola é tão confiável quanto promessa de político. Isso quando tem.

 

     Agora, os resultados. Desde que essas teorias desembarcaram por aqui, com pompa e circunstância, o que mudou? Nossas escolas viraram laboratórios de experimentos pedagógicos, onde professores viram acrobatas tentando equilibrar currículos inflados, pais confusos (a maioria ausente) e alunos que, muitas vezes, não têm nem caderno. Os ciclos e a aprovação automática, então, são a cereja do bolo: uma ode à mediocridade disfarçada de inclusão. Porque nada diz "Educação de qualidade" como passar de ano sem saber ler ou escrever, né? Dados do IDEB estagnam, o PISA nos coloca na rabeira do ranking mundial, mas pelo menos temos seminários acadêmicos para discutir como a zona de desenvolvimento proximal vai salvar o futuro. Se ela não salvar, a tecnologia salvará. Assim muitos esperam. E que esperem confortavelmente sentados.

 

     Em resumo, as teorias são lindas no papel, mas, e na prática? Um show de retórica que não sobrevive ao primeiro contato com a realidade das nossas salas de aula, neste país continental. Enquanto continuarmos achando que jargões importados e políticas mal implementadas são a solução, seguiremos atravessando a pinguela – e caindo no rio. Pior que a maioria nem sabe nadar...

 

     O conteúdo não pode ser compreendido apenas pela teoria; ele somente deve ser compreendido em sua plenitude por meio da prática e da experiência; é assim que gera o conhecimento. O aprendizado teórico ocorre com a experiência. Quando se atribui à teoria toda a sua importância, o conteúdo de uma disciplina se torna sem sentido, chato, e as aulas caem numa rotina mecânica, sem nexo, proporcionando o desinteresse e a consequente indisciplina dos alunos. O conteúdo precisa ser contextualizado, temático, experimentado como algo interessante e útil para o viver diário. Caso contrário, torna-se estúpido e estéril. Desvinculado da práxis, por si mesmo, nada é. Mas como contextualizar o conteúdo em uma classe plural, com mais de trinta alunos, de condições socioeconômicas e culturais variadas?

 

     Mais um adendo. A ideia de que a escola precisa ser "mais atraente" para competir com as distrações do mundo digital revela um perigoso equívoco sobre o verdadeiro papel da Educação. Não se trata de transformar a escola em um parque de diversões, em um espaço de entretenimento ou numa réplica de uma balada para disputar a atenção dos estudantes com jogos, redes sociais ou influenciadores digitais. A escola não foi feita para divertir. Foi feita para formar.

 

     Transformar o ambiente escolar em algo meramente “atraente” é subestimar a capacidade dos alunos de se interessarem por aquilo que é sério, profundo e transformador. Diversão eles encontram lá fora. O que falta não é brilho nem espetáculo, é propósito. O que falta não é tecnologia de ponta, é uma Proposta Pedagógica que valorize o saber, que respeite a inteligência do estudante e que enfrente de frente os desafios da aprendizagem − mesmo que isso exija esforço, dedicação e desconforto. A vida, em si, é cheia de desconforto.

 

     Aprender é, sim, um processo que exige disciplina, escuta, paciência e trabalho intelectual. E isso não se alcança com luzes coloridas, música alta ou joguinhos “gamificados” que simulam ensino. Sou a favor da gamificação com sentido pedagógico, mas deve haver planejamento, objetivo. Não é preciso transformar o professor em animador de palco nem a sala de aula em palco de shows. A Educação tem, sim, seu lugar de encantamento − mas um encantamento que nasce da descoberta, da superação, da reflexão crítica, da autonomia construída com esforço e mediação. Os alunos devem aprender que, na vida, não se consegue nada sem esforço.

 

     A escola precisa ser um espaço de sentido, não de ilusão. Um espaço de convivência, de formação ética, de leitura do mundo. E isso pode acontecer com ou sem carteiras alinhadas, com ou sem paredes coloridas, desde que haja intencionalidade pedagógica, compromisso com o conhecimento e respeito pela função social da escola. Não tenho nada contra a colocação das carteiras em fila indiana; podem ser em círculo, em forma de U; tanto faz. O importante é o aluno aprender. Reduzir o problema à “falta de atratividade” é tratar o aluno como consumidor insatisfeito, e não como sujeito em formação. Pior que há muita gente boa com esse mesmo pensamento de atratividade.

 

     Quem acredita que o problema da escola é que ela não é “divertida” o suficiente, não entende o que é Educação. E mais: está ajudando a esvaziar a sua potência.

 

     Na verdade, o conteúdo descontextualizado e desvinculado da prática torna-se apenas um acúmulo de informação; e o aluno, no futuro, como cidadão, poderá vir a fazer mau uso desse “conhecimento”, seja ele de qualquer disciplina. E como o usará?

 

     Quando os conteúdos disciplinares, que, agregados ao pensamento dos alunos como conhecimento, são vinculados à práxis, tornam-se experiência, então existe o aprendizado de fato. O aprendizado é limitado pelo conhecimento. Mas quando existe um elo entre o conhecimento e a prática do viver diário, ele se torna aprendizado. Daí dificilmente é esquecido. Esquece quem não usa. O conhecimento é limitado ao tempo e ao espaço. O aprendizado está para além da lembrança. Nos moldes atuais da maioria de nossas escolas públicas, um aluno consegue se sair bem em uma avaliação quando é dotado de boa memória e raciocínio lógico. Mas apenas isso não comprova que ele aprendeu o conteúdo daquela disciplina. Vai muito do momento e do contexto. É por isso que eu questiono os resultados apresentados por avaliações nacionais e internacionais. Avalia apenas o momento. O aluno pode até se lembrar de tudo por um bom tempo, mas não o saber aplicar na prática de sua vida diária. No máximo, o conhecimento pode colocá-lo dentro de uma faculdade e propiciar-lhe a aquisição de um diploma no término do curso de graduação. Mas o que é isso diante da vida? Para que serve? E repetindo, é justamente por isso que eu não dou muita credibilidade a resultados de testes padronizados, sejam brasileiros ou internacionais. Eles são importantes, mas não podem ter a palavra final.

 

     Transmitir determinado conteúdo aos alunos só faz sentido se levá-los a buscar, inteligentemente, soluções para os problemas que a vida lhes oferece no dia a dia. Ensinar conteúdos disciplinares é válido somente se incentivar os alunos a resolver problemas do cotidiano de forma inteligente. Contudo, vale lembrar que a aprendizagem depende da vontade dos estudantes em absorver e aplicar o conhecimento, pois só aprende quem realmente deseja aprender. Sem vontade de aprender, sem interesse no aprendizado, a coisa passa batida.

 

     Então, a escola onde o aluno não aprende conteúdos úteis para a sua vida diária e, por meio do conhecimento adquirido e construído na prática pedagógica, não se encontrar minimamente preparado para esse viver diário, não é de fato uma escola? Não é isso que eu quero dizer. Todo o conteúdo ensinado na maioria das escolas é útil. Além disso, visto que o viver diário é uma constante mudança, é também papel da escola estimular o aluno ao constante aprendizado ao longo de toda a sua vida? De que forma os professores podem fazer isso? São perguntas praticamente sem respostas imediatas, mas existentes.

 

     Um problema muito sério com a Educação e a escola desde o século XX foi a quantidade e a complexidade de ideias pedagógicas, a maioria delas mal interpretada e mal praticada na sala de aula. Interpretações de teorias várias de autores defuntos, geralmente de outros países, outra cultura, outra realidade, e de quem nunca teve noção do que é uma sala de aula de Educação Básica. Nunca foi e nunca será objeto de desejo da Educação escolar plena e pura essa enorme variedade de pedagogias que assola a cada década. O fracasso da Educação está, muitas vezes, nesses modismos pedagógicos, em não entendermos o mal que eles fazem ao ensino-aprendizagem.

 

     6. A escola, a indisciplina e a violência   

       Vamos começar contando uma historinha.

        Na escola Vira-Lata, João "Bagunceiro" atirava bolinhas de papel. A professora Dona Clara gritava, mas ninguém ouvia. Fora              da sala, Zé "Brigão" trocava socos com Pedro "Maluco". O diretor, Seu Zé, suspirava: "Essa turma é pior que circo pegando fogo!".

 

     A meu ver, não pode haver crescimento integral do indivíduo fora do contexto da escola, pois a Educação escolar se preocupa, mediante o conhecimento formal, com a socialização, com a formação e o exercício da cidadania. Tudo isso por meio do conhecimento.

 

     Divergências e conflitos são inevitáveis onde se relacionam várias pessoas; entretanto, pode-se evitar que tomem proporções exageradas se houver interesse comum, coesão, cordialidade e respeito às diferenças. Isso vale também para a sala de aula e para a sala dos professores. Cada um vem de uma família diferente, de uma cultura diversificada, pautada em valores (ou pseudovalores).

 

     Todos os professores nas escolas (ou quase todos), de uma forma ou de outra, desejam viver em uma sociedade esclarecida, fraterna, livre de preconceitos, da violência, das inimizades. Não creio que haja outra intencionalidade por parte de meus colegas de profissão. Mas como, se a maioria encontra dificuldade em estabelecer limites ou não os estabelece na sala de aula, não transmite valores aos alunos? Infelizmente, o que temos visto em muitas escolas públicas são desentendimentos, brigas, intrigas e rivalidades entre eles, e no relacionamento com a direção e com a coordenação pedagógica. Não generalizo. Uma parte significativa dos professores não está apta, portanto, a transmitir às nossas crianças e aos nossos adolescentes, pelo exemplo, aquilo que almejam. Expõem-se pela contradição entre o querer e a maneira de ser. E aqueles que tentam fazê-lo sofrem muito diante de tal contexto.

 

     Um dos grandes problemas de boa parte dos professores é que eles querem, a todo custo, colocar em ordem a desordem externa na Educação, especialmente na sala de aula, e se esquecem de [ou não querem] fazer o dever de casa, ou seja, pôr em ordem suas desordens internas, subjetivas e intersubjetivas. Muitos o fazem até inconscientemente, maquinalmente, imperceptivelmente, pois estão imbuídos por uma cultura que assim os molda e cauteriza a mente. Por que querer disciplinar os alunos se muitos professores são categoricamente indisciplinados? Por que taxar um aluno de pouco inteligente, desinteressado, que não lê, se muitos professores têm extrema dificuldade em aprender, inclusive com os próprios erros? Livros? Para alguns, passam longe. Alguns reclamam dos preços. Por que os professores querem obrigar seus alunos a ficarem calados e sentados nas suas carteiras enfileiradas, ouvindo, muitas vezes, uma aula chata [diga-se de passagem, pois já aconteceu comigo mesmo, nos meus quarenta anos de magistério], se esses mesmos professores, quando sentados em um auditório, participando de formações, por exemplo, ficam inquietos, conversam alto, não desligam seus celulares, acessam as redes sociais, recebem e enviam mensagens pelo WhatsApp, ou até atendem ligações? Aqui nos lembramos dos célebres versos de Gregório de Matos, sobre o saber governar a própria cozinha.

 

     Não estou generalizando, repito. Obviamente que não estou. Esses são minoria. O sofrimento dos professores frente à indisciplina, falta de respeito e desinteresse dos alunos é imenso. Eles enfrentam diariamente um ambiente desafiador, em que seus esforços em ensinar são muitas vezes desvalorizados e interrompidos. Essa realidade afeta profundamente sua motivação e saúde mental, tornando o trabalho pedagógico ainda mais árduo e desgastante. Isso acompanhado da síndrome do uso de telas. O celular na sala de aula tem gerado um constante caos, inclusive depois de sua proibição nas escolas mediante lei federal.

 

     Respeito e responsabilidade. Sim, dois valores básicos a serem trabalhados pelos professores com seus alunos para o estabelecimento de limites na sala de aula. Respeito e responsabilidade. Nossas crianças e nossos adolescentes estão carentes desses e de outros valores. Juntamente com os alunos, o professor pode criar apenas três regras simples e básicas para cada valor, e bastam. Regras fundamentadas em princípios funcionam. Mas não é uma receita mágica e infalível. Não são os valores que dividem a sociedade ou coloca um indivíduo contra outro, mas a falta e a relativização de valores ou valores imbuídos de preconceitos e intenções pessoais e egoísticas. A divisão procede do egoísmo, e não dos valores em si. O bom professor, livre de uma mente fechada ou extremamente aberta, egoísta, preconceituosa, ensina, por meio dos conteúdos de suas respectivas disciplinas, valores universais a seus alunos. Não estou afirmando que é função da escola ensinar valores, sejam eles morais ou não, aos alunos. Essa função é da família, e a escola não existe para substituir a família nesse quesito.

 

     O que podem fazer os professores e a escola, tendo em vista uma mudança radical, ética e moral, diante da degeneração da sociedade? As relações diárias entre professores e alunos, somadas à colaboração mútua entre aqueles, é que levará a sociedade a compreender o verdadeiro valor da Educação e sua possibilidade de torná-la mais justa, equitativa e pacífica. Na sala de aula, vários fatores podem provocar a indisciplina, além da falta de limites e de respeito por crianças e adolescentes: conteúdo descontextualizado, falta de didática, má comunicação, entre outros. Cabe aos professores trabalhar todos eles. Só que não anda nada fácil. Cada um sabe de si, de suas dificuldades e limitações. Isso além do estresse diário.

 

     E a formação de professores nas faculdades tornou-se uma comédia trágica. As faculdades de Pedagogia são mestres em ilusionismo: prometem formar professores, mas entregam teóricos desorientados. Conteúdos disciplinares? Um apanhado raso. Prática em sala? Um estágio-relâmpago [quando existe] onde se aprende a sobreviver, não a ensinar. Os estudantes saem com um diploma e zero preparo para domar a selva da sala de aula. Ironia? Formamos analfabetos funcionais em ensinar. Bem-vindos à Educação, futuros professores!

 

     Em relação à violência dentro e no entorno da escola, a melhor maneira é o desenvolvimento de projetos pontuais junto aos alunos e à comunidade. Projetos da escola, envolvendo todos. A arte e o esporte são uma excelente forma de conscientização, despertamento e integração. O teatro é muito bom. Vivemos em tempos de inclusão social, e a escola não pode excluir de seu convívio adolescentes sem princípios, sem limites e sem valores, frios e que não medem as consequências de seus atos. Esses pobres infelizes precisam de quem os levem a conviver em paz na sociedade, em um convívio saudável com seus semelhantes. No mais, violência cabe à segurança pública, às autoridades. Anda bastante difícil, dependendo da localidade da escola.

           

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

GESTÃO ESCOLAR COM PROPÓSITOS

 

           

     Escolas são feitas de gente e para gente. A escola não é apenas um espaço de papéis, planejamentos e currículos; ela é, acima de tudo, um ambiente vivo, sustentado pelas pessoas que o constroem diariamente. Professores, alunos, gestores e toda a equipe formam a essência da Educação escolar, e é na interação entre eles que o aprendizado ganha sentido. A gestão escolar, portanto, deve transcender a burocracia, promovendo um equilíbrio entre organização e humanização. Uma liderança eficaz valoriza o planejamento, mas prioriza o diálogo, a escuta e o respeito às singularidades, criando uma comunidade educacional acolhedora e inspiradora.

 

     Um grande problema, atualmente, é que alguns estão valorizando mais as habilidades não técnicas dos professores, do que as habilidades técnicas. A exigência de que os professores desenvolvam habilidades socioemocionais, como empatia e gestão emocional, para lidar com turmas numerosas e atender às demandas individuais dos alunos, ultrapassa os limites de suas capacidades. Sobrecarregados por pressões acadêmicas, desvalorização profissional e falta de suporte contínuo, eles enfrentam um fardo desproporcional, que ignora suas próprias necessidades emocionais e pessoais. Essa sobrecarga, sem políticas eficazes de apoio e formação, compromete a saúde mental dos professores e prejudica a qualidade do acolhimento e do ensino, evidenciando um sistema educacional que negligencia seus principais agentes. Voltarei ao assunto em outro capítulo.

 

     O propósito da escola reside em formar indivíduos que pensam e humanos, e isso exige uma gestão que coloque as pessoas no centro; uma gestão humanizada, que coloca os professores e toda a esquipe escolar no centro. Planos e metas são fundamentais, mas sem empatia e colaboração, tornam-se vazios. A liderança escolar deve ser um exemplo de equilíbrio [dentro dos limites humanos], unindo a racionalidade do planejamento com a sensibilidade de compreender as necessidades de cada professor. Somente assim a escola cumpre seu papel: ser um espaço de transformação, onde professores e gestores, juntos, constroem um ambiente que reflete valores humanos e promove o crescimento coletivo. Aí o ensino-aprendizagem faz sentido.

 

     Nenhuma escola cresce quantitativa e qualitativamente sem que em sua gestão seja utilizado um planejamento detalhado que envolva o pedagógico, o administrativo e o financeiro, haja participação de toda a equipe escolar nas decisões e a execução seja descentralizada, com divisão de responsabilidades entre pessoas qualificadas, e desenvolvimento de projetos com objetivos bem definidos de acordo com a realidade e as prioridades da escola.

 

     Além disso, é crucial estabelecer uma cultura de humanização, de comunicação aberta e colaborativa entre todos os membros da comunidade escolar, incluindo pais e alunos. A implementação de programas de formação contínua para os professores (semanal, quinzenal ou mensal) e o uso de tecnologias educacionais inovadoras também são elementos fundamentais para o crescimento da instituição. E o uso de tecnologia – incluindo a IA – só funciona se os professores forem capacitados a usá-la na prática da sala de aula, e também em seu trabalho administrativo, como planos de aula, elaboração de testes e provas, entre outras). A avaliação periódica dos processos e resultados, com base em dados concretos, permite ajustes e melhorias constantes. Nenhuma avaliação mede verdadeiramente a realidade, mas é fundamental. Finalmente, o engajamento da comunidade e parcerias estratégicas com outras organizações podem fornecer recursos adicionais e enriquecer o ambiente educacional, garantindo um desenvolvimento sustentável e de qualidade.

 

  1. A autonomia da escola

     A escola pública precisa ter determinado grau de autonomia pedagógica, administrativa e financeira, com a responsabilidade e responsabilização da pessoa de diretor.

 

     Essa questão de autonomia da escola pública varia muito, dependendo de dois fatores principais: o controle externo e a disposição interna. De acordo com o primeiro, depende da unidade da federação ou do município, na figura da Secretaria de Educação. Em determinados estados e municípios, as escolas não podem acrescentar um tijolo à sua estrutura física; já em outros, os diretores têm total autonomia em construir ou ampliar salas, fazer modificações, seja com recursos públicos ou por meio de parcerias ou doações, e também na parte pedagógica.  De acordo com o segundo fator, depende do diretor. Alguns recebem total autonomia da sua esfera administrativa, mas coloca dificuldades em tudo; outros, tendo autonomia ou não, correm atrás, fazem as coisas acontecerem, pois têm uma visão mais ampla da administração da escola, incluindo a parte pedagógica. E é esse último tipo de gestor que enfatizo aqui. É desse tipo de gestor que precisamos nas escolas públicas. Pessoas de peito, que enfrentam mundos e fundos e colocam a mão na massa, fazendo as coisas acontecerem para melhorar a qualidade do ensino-aprendizagem dos alunos.

 

     A escola pública precisa ter determinado grau de autonomia pedagógica, administrativa e financeira, com a responsabilidade e responsabilização da pessoa de diretor. Essa autonomia, no entanto, não deve ser entendida como um fim em si mesma, mas como um meio para promover uma gestão escolar eficiente, democrática e alinhada às necessidades da comunidade escolar. Para tanto, a gestão escolar deve ser pautada por princípios como a transparência, a participação coletiva e o compromisso com a qualidade do ensino. E uma gestão humanizada.

  •  Autonomia com responsabilidade

  A autonomia pedagógica permite que a escola desenvolva projetos educacionais que respeitem as especificidades de seus alunos e da comunidade local, adaptando o currículo às demandas regionais sem desrespeitar as diretrizes nacionais, como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Por exemplo, uma escola rural pode incorporar temáticas relacionadas à agricultura familiar ou à preservação ambiental, enquanto uma escola urbana pode priorizar questões como cidadania digital ou mobilidade urbana. Essa flexibilidade fortalece o vínculo entre a escola e seu entorno, tornando o aprendizado mais significativo.

 

     A autonomia administrativa, por sua vez, confere ao diretor a capacidade de gerir recursos humanos e materiais de forma estratégica, otimizando o funcionamento da escola. Isso inclui a organização de horários, a alocação de professores conforme suas competências e a manutenção da infraestrutura escolar.

 

     Já a autonomia financeira permite a aplicação de recursos de maneira eficiente, priorizando investimentos em materiais didáticos, formação continuada de professores e melhorias estruturais, sempre com prestações de contas claras e acessíveis à comunidade.

 

     No entanto, essa autonomia exige um diretor ou uma diretora preparados, com habilidades de liderança e gestão, capazes de tomar decisões responsáveis e éticas. A responsabilização do gestor é essencial para garantir que a autonomia não se transforme em práticas arbitrárias ou desvios de finalidade. Assim, é fundamental que haja mecanismos de controle, como conselhos escolares atuantes e auditorias regulares, que monitorem a gestão sem tolher sua capacidade de inovação.

  • Gestão democrática e participativa

     Uma gestão escolar eficaz não se sustenta apenas na figura do diretor, mas na construção de uma cultura colaborativa que envolva toda a comunidade escolar – professores, funcionários, alunos, pais e responsáveis. A gestão democrática pressupõe a criação de espaços de diálogo, como conselhos escolares, assembleias e fóruns, em que diferentes vozes possam ser ouvidas. Esses espaços fortalecem o senso de pertencimento e incentivam a corresponsabilização pela escola. Pelo menos na teoria é mais fácil. Algumas realidades, no entanto...

 

     Por exemplo, a elaboração da Proposta Pedagógica deve ser um processo coletivo, no qual os objetivos da escola são definidos com base nas necessidades e expectativas da comunidade. Uma PP bem construída serve como um norteador para a gestão, alinhando as práticas pedagógicas e administrativas a um propósito comum. Além disso, a participação da comunidade no acompanhamento das ações escolares, como na fiscalização de recursos ou na organização de eventos, reforça a transparência e a confiança na gestão.

  • Formação continuada como pilar da gestão

     Outro aspecto crucial é o investimento na formação continuada de toda a equipe escolar, principalmente dos professores. E a formação continuada dos professores deve ser, pelo menos, mensal, caso contrário deixa de ser continuada. Um diretor gestor deve priorizar o desenvolvimento profissional dos professores, oferecendo oportunidades de capacitação que os preparem para enfrentar os desafios da sala de aula, como o uso de tecnologias educacionais e estratégias pedagógicas para lidar com a diversidade. A formação também precisa incluir os funcionários administrativos, que desempenham papéis essenciais no funcionamento da escola.

 

     A gestão escolar deve criar condições para que os professores se sintam valorizados e motivados, o que impacta diretamente na qualidade do ensino. Programas de mentoria, grupos de estudo e parcerias com universidades podem ser estratégias eficazes para promover o aprendizado contínuo e a troca de experiências. Essa é outra coisa que na teoria é bem mais fácil do que na realidade.

  • Avaliação e melhoria contínua

     Por fim, a gestão escolar deve ser orientada por processos de avaliação contínua, que permitam identificar pontos fortes e áreas que necessitam de melhorias. Indicadores como desempenho acadêmico, evasão escolar, satisfação da comunidade e clima organizacional devem ser monitorados regularmente. Esses dados, quando analisados de forma crítica, fornecem subsídios para a tomada de decisões e para o planejamento de ações que promovam a equidade e a excelência educacional.

 

     Em síntese, gerir uma escola pública demanda um equilíbrio entre autonomia, responsabilidade e participação. O diretor, como líder, deve articular esses elementos, promovendo uma gestão que seja ao mesmo tempo estratégica e humanizada, capaz de transformar a escola em um espaço de aprendizado, inclusão e cidadania. Somente assim a instituição escolar cumprirá seu papel de formar indivíduos preparados para os desafios do século XXI, contribuindo para uma sociedade mais justa e equitativa.

 

     Infelizmente, em nosso país, nem todos que assumem a direção de uma escola estão aptos a geri-la, seja por escolha política, eleição ou concurso. Um gestor deve ser, acima de tudo, responsável e honesto; caso contrário, precisa ser responsabilizado e penalizado. A primeira questão básica que quem pretende assumir a direção de uma escola precisa conhecer bem é a dimensão trina da gestão escolar: administrativa, pedagógica e financeira.

 

     Como vimos no início, a gestão é o motor cuja força faz com que a escola caminhe em sua plenitude. Se a potência do motor não for adequada ao impulso que a escola necessita para prosseguir em seu propósito, nada feito. E nada feito mesmo. Se não tem autonomia que lhe é de direito para gerir a escola, mesmo que o queira e seja capacitado para isso, o diretor fica impossibilitado de realizar uma boa gestão.

 

     Com autonomia, o gestor tem maiores condições de realizar um bom trabalho administrativo, gerir adequada e responsavelmente os recursos financeiros da escola e proporcionar enormes ganhos na área pedagógica. Essa autonomia, entretanto, deve ser, além de responsável, limitada de acordo com a legislação em vigor e passível de punição. Os gestores escolares não podem fazer o que bem entendem, e sair impunes. Há muita irresponsabilidade por parte de alguns diretores que prejudicam e muito o andamento da escola, quando deixam a gestão, refletindo até na parte pedagógica, desde questões financeiras até a destruição de documentos importantes da escola. E isso geralmente tem relação com ideologias político-partidárias.

 

     A descontinuidade administrativa prejudica muito a gestão escolar. Esse fenômeno ocorre frequentemente quando mudanças bruscas, como trocas frequentes de diretores ou alterações nas políticas educacionais, interrompem a implementação de projetos de longo prazo e desestabilizam o funcionamento da escola. Para mitigar esses impactos e promover uma gestão escolar eficaz, é essencial adotar estratégias que garantam estabilidade, planejamento consistente e continuidade nas ações pedagógicas e administrativas.

 

  1. O que motiva a escola?

   Em tempos difíceis, em que faltam recursos, segurança, reconhecimento e dignidade, a pergunta parece até provocativa: o que ainda motiva a escola? Como seguir adiante quando a estrutura física desaba, o salário não acompanha o esforço, e muitos dos rostos que nos olham em sala carregam histórias de abandono, fome ou violência?

 

     Motiva a escola aquele brilho teimoso no olhar da criança que lê sua primeira palavra. Motiva o professor que, mesmo exausto, volta no dia seguinte com uma nova estratégia. Motiva o reencontro com colegas que também resistem. A escola é movida por pessoas que, apesar de tudo, continuam acreditando que ensinar é uma forma potente de transformação − ainda que lenta e invisível aos olhos apressados.

 

     Existe alguma razão para isso? A razão existe, ainda que fragmentada, escondida entre planilhas e burocracias. A escola, mesmo machucada, é um dos últimos espaços públicos onde a esperança pode ser ensinada. É onde se aprende a conviver, a respeitar, a discordar. Onde se escuta pela primeira vez que o mundo pode ser maior do que a rua que se conhece. Ela resiste porque, sem ela, o que sobra? A ausência, a marginalização, a reprodução do abismo social.

 

     Há esperança para o seu futuro? Há, sim − mas não se trata de uma esperança ingênua. É uma esperança construída com luta, articulação e coragem. Ela mora nas comunidades que abraçam suas escolas; nos professores que produzem conteúdo, que se fortalecem uns aos outros; nos alunos que desafiam as estatísticas, ainda que tudo diga o contrário. Está nas experiências que brotam das periferias e provam que inovação não nasce apenas em laboratórios, na tecnologia, mas também em pátios de terra batida. A esperança da escola pública está em reconhecer sua potência, exigir o que lhe é de direito, e não permitir que sua importância seja esquecida.

 

     A escola é uma instituição que carrega em si uma grande responsabilidade, pois trabalha com um bem precioso chamado conhecimento e, acima de tudo, com vidas. Nenhum integrante da equipe escolar é independente. Todos devem trabalhar com o mesmo propósito. Mas qual é esse propósito? Qual é a força que direciona e motiva a minha escola? A escola é mais do que um lugar de aprendizado; é um espaço onde sonhos começam. Cada professor, funcionário e aluno faz parte de uma corrente que se fortalece com união. Mas cadê essa união, professores?

 

     No entanto, o que mantém ou tenta manter essa corrente firme? Como garantir que todos caminhem na mesma direção? Será que o propósito de uma escola é apenas ensinar conteúdos, ou há algo maior que inspira cada passo dado nesse ambiente?

 

     Essa questão tem tudo a ver com gestão escolar, com o papel do diretor da escola. De acordo com o dicionário, o verbo ‘dirigir’ significa não somente administrar, mas também guiar, encaminhar, orientar. Por que caminhos o diretor guia sua escola? A que rumos ele a encaminha? Primeiramente, é de suma importância que se saiba que há várias forças motivacionais disputando a atenção de toda a equipe pedagógica da escola e, especialmente, da direção.

 

     Levando-se em consideração que toda e qualquer escola, seja pública ou privada, é motivada, direcionada, guiada por algo, por alguma convicção, é necessário que todos tenham conhecimento disso, estejam a par daquilo que influencia a escola na parte administrativa, na disciplinar e na pedagógica. Qual ou quais os focos principais que motivam a escola? Vejamos dez possíveis motivações.

  1. Escola focada no ensino tradicional e no conteúdo

     As escolas tradicionais? Um verdadeiro museu da Educação, agarradas ao passado como se fosse um troféu. Mudanças? Nem pensar, são tratadas como vilãs. Direção e professores parecem seguir um roteiro fossilizado, onde o que "sempre funcionou" é lei eterna, não importa a geração. E pior que muita gente aprendeu e ainda aprende nesse tipo de escola. Até fazem uso da IA: ignorância aumentada. Centradas no conteúdo, como se despejar informações fosse sinônimo de ensinar. Enquanto o mundo gira, elas ficam paradas, achando que decorar é o mesmo que aprender. Vamos tomar o ponto?

 

     As escolas tradicionais são realmente resistentes a mudanças, não as veem com bons olhos, e vivem pautadas no passado, naquilo que acreditam que sempre funcionou e funcionará em qualquer geração. Da direção à didática do professor, tudo é estagnado. São escolas centradas no conteúdo.

 

     Nada contra priorizar o conteúdo; mas que tudo ocorra com uma didática inovadora, mesmo que usando apenas cuspe e giz. Uma escola focada exclusivamente no ensino tradicional e no conteúdo tende a priorizar a memorização de informações e a transmissão unilateral do conhecimento, frequentemente negligenciando outras habilidades e o pensamento crítico. Não ensinam os alunos a pensarem. Esse modelo geralmente limita a criatividade e a capacidade dos alunos de resolver problemas de forma autônoma. Além disso, a ênfase excessiva em testes padronizados e resultados quantitativos cria um ambiente de alta pressão e competitividade, desmotivando os estudantes. Para uma formação completa e relevante, é essencial integrar métodos pedagógicos inovadores que considerem as necessidades e interesses dos alunos no contexto contemporâneo. Algumas escolas privadas de grandes capitais, que se destacam no Ideb, fazem parte desse grupo, e são muito procuradas pela elite (ou pela família que quer ser elite).

 

  1. Escola focada na disciplina

  Nas escolas onde a disciplina reina como ditadora suprema, o pedagógico é apenas um coadjuvante subserviente. Regras, essas sim, são as verdadeiras rainhas: dos professores, que marcham como soldadinhos obedientes, aos alunos, que desfilam em uniformes impecáveis, sentadinhos em filas tão alinhadas que fariam um general chorar de emoção. Tudo é rigor, método e uma devoção quase religiosa à ordem. Afinal, quem precisa de criatividade ou pensamento crítico quando se tem um manual de comportamento para seguir? Não é de se perguntar se essas escolas estão formando mentes brilhantes ou apenas soldadinhos de chumbo muito bem ensaiados?

 

     Nas escolas focadas na disciplina, as regras estão acima do pedagógico. Desde os professores até os alunos, todos devem seguir regras rígidas de comportamento, de vestuário/uniforme, sentarem-se em filas certinhas, em total alinhamento. São escolas focadas no rigor disciplinar e no método.

 

     Nada contra a disciplina; ela é benéfica ao aprendizado. Mas uma escola excessivamente focada na disciplina cria um ambiente rígido e pouco acolhedor, onde a obediência é priorizada em detrimento do desenvolvimento integral dos alunos. Esse modelo reprime a criatividade e a autonomia, gerando conformismo ao invés de pensamento crítico. Além do mais, a ênfase desmedida na disciplina aumenta o estresse e a ansiedade entre os estudantes, dificultando o aprendizado e a construção de habilidades socioemocionais mediados pelo conhecimento e a convivência diária. E a corda acaba rebentando nas mãos dos professores. A Educação escolar deve equilibrar regras e liberdade para promover um desenvolvimento mais holístico e eficaz.

 

  1. Escola focada na direção

    Na escola focada na direção, o mundo gira em torno da majestosa figura do diretor ou da diretora, o supremo líder, o farol iluminado de sabedoria que, com sua presença divina, mantém tudo nos eixos. É ele ou ela quem decide o destino das aulas, dos professores, dos alunos e até do cardápio da cantina − porque, claro, ninguém mais tem competência para isso. Quando esse ser quase mítico [mito?] resolve pendurar as chuteiras (ou o apito de diretor), a escola entra em colapso total, como se o próprio Sol tivesse decidido tirar férias. Afinal, quem ousaria preencher o vazio deixado por tamanha grandeza? E aí, caro leitor, você acha que uma escola assim sobrevive sem o seu "grande timoneiro" ou é só esperar o naufrágio inevitável?

 

     Nesse tipo de escola tudo é centralizado na figura do diretor, aquela pessoa específica, que em alguns casos ocupa o cargo por um tempo mais prolongado e que, quando sai, deixa a escola totalmente desestabilizada. Uma escola excessivamente focada na direção torna-se autoritária, onde as decisões centralizadas limitam a autonomia de funcionários, professores e alunos. Esse modelo sufoca a inovação pedagógica e a criatividade, resultando em um ambiente educacional rígido e burocrático. A falta de participação da comunidade escolar nas decisões costuma gerar desmotivação e ressentimento, comprometendo a qualidade do ensino. Para uma Educação eficaz e inclusiva, é essencial que a gestão da escola seja colaborativa e humanizada, valorizando as contribuições de todos os membros da comunidade escolar.

 

  1. Escola focada em modismos pedagógicos

     Oh, a gloriosa escola obcecada por modismos pedagógicos, onde o lema é "novo é sempre melhor"! Mal surge uma metodologia fresquinha, ainda cheirando a tinta de algum guru educacional morto há séculos, e lá vão a coordenação pedagógica e a trupe de professores, com brilho nos olhos e zero profundidade, correndo para implantá-la. É ela que ocupa toda a semana pedagógica e reuniões ao longo do ano letivo. Conhecimento sólido? Para quê? Basta misturar um pouquinho de Piaget, um toque Vygotsky, outro de Montessori, uma pitada de Freire misturada com construtivismo e, pronto, temos uma salada pedagógica digna de um chef cinco estrelas − ou de um completo desastre. É uma febre de tendências, um desfile de ideias desconexas, onde o importante é parecer moderno, mesmo que ninguém entenda direito o que está fazendo. E aí, caro leitor, será que essa escola vai formar gênios ou apenas especialistas em jargões pedagógicos da moda? Aliás, será que existe esse tipo de escola pública?

 

     Nessas escolas, basta surgir uma nova metodologia, que a coordenação pedagógica e a maioria dos professores já estão querendo implantá-la, muitas vezes sem um conhecimento mais profundo, misturando-a com outras tendências pedagógicas. Uma escola focada em modismos pedagógicos tende a adotar práticas educativas temporárias e não fundamentadas em pesquisas sólidas, o que geralmente leva a uma inconsistência nos métodos de ensino. Isso cria um ambiente instável onde professores e alunos estão constantemente se adaptando a novas tendências, sem tempo para consolidar o aprendizado. A busca por novidades pode desviar a atenção de métodos comprovados, comprometendo a qualidade da Educação. É essencial que a escola avalie criticamente e selecione práticas pedagógicas baseadas em evidências concretas, garantindo um ensino estável e eficaz, em vez de seguir modismos passageiros.

 

  1. Escola focada em recursos financeiros

     Em um universo paralelo onde a Educação escolar é apenas um [insignificante] detalhe, eis que surge a escola "business-class": um oásis de preocupações financeiras onde pedagogia rima com patologia. Nesses santuários do cifrão, diretores, secretários e coordenadores pedagógicos se transformam em exímios contadores, malabaristas de orçamentos e caçadores implacáveis da nota de cem. A busca incessante por recursos, que milagrosamente nunca são o bastante para a demanda insaciável, transforma a instituição de ensino em um balcão de negócios de quinta categoria, onde o conhecimento é apenas um subproduto (muitas vezes, esquecido) da gloriosa planilha de lucros. Afinal, quem precisa de mentes brilhantes quando se pode ter bolsos recheados [como em muitas igrejas]? E pensar que alguns incautos ainda acreditam que uma escola não é uma empresa... Mas, sério, quem é o louco que diria que isso é uma escola de verdade?

 

     Nas escolas focadas em recursos financeiros, direção, secretaria e coordenação pedagógica, principalmente, estão mais preocupadas com as finanças, desde o quanto vai custar alguma coisa até a busca obstinada por mais recursos, que nunca são suficientes para a demanda. Tudo gira em torno do dinheiro. Se for escola privada, o foco é todo no lucro. Esse é um mal de muitas escolas particulares. A escola não é uma empresa.

 

     Uma escola privada excessivamente focada em recursos financeiros prioriza o lucro sobre a qualidade da Educação. Algo semelhante pode ocorrer com escolas públicas. Esse modelo pode até resultar em infraestrutura e tecnologia impressionantes, mas negligenciar a formação continuada dos professores e o aprendizado e o bem-estar dos alunos. A Educação se torna um produto comercial, perdendo de vista a missão fundamental de desenvolvimento do aluno. É essencial que a gestão financeira seja equilibrada com um compromisso genuíno com a excelência pedagógica e o crescimento dos estudantes como seres humanos pensantes.

 

  1. Escola focada em projetos

     Ah, os projetos escolares! Que ideia maravilhosa, não é mesmo? Tão modernos, tão inovadores, tão "fora da caixinha". No início, são a fagulha do conhecimento, a promessa de mentes brilhantes e futuros promissores. Mas, como tudo que é bom demais para ser verdade, a coisa desanda. O que começa como uma ferramenta pedagógica útil rapidamente se transforma em uma obsessão delirante, um fetiche pedagógico que engole tempo, energia e sanidade de alunos, professores e, por que não, pais desprevenidos. De repente, a escola não é mais um lugar de aprendizado, mas uma fábrica de projetos, onde a quantidade supera a qualidade e a criatividade é sacrificada no altar da burocracia e do "ter que apresentar algo". O resultado? Uma exaustão generalizada e a certeza de que o tiro saiu pela culatra. Mas, sejamos sinceros, quem não adora uma boa dose de trabalho extra disfarçada de inovação educacional? Eu sou a favor e amo projetos, sejam de cada disciplina ou da escola toda; mas tudo em excesso tende a desandar um dia, quando menos se espera. É assim na vida.

 

     A equipe escolar, nesse tipo de escola, guiada pela direção ou por alguém da área pedagógica, converge toda a sua energia para o desenvolvimento de projetos vários, mantendo todos ocupados durante o ano, em detrimento até das aulas, do aprendizado dos alunos no que se refere ao conteúdo. A escola respira projetos, vive projetos, ama projetos. O desenvolvimento de projetos pela escola é bom e necessário; entretanto, quando se torna uma obsessão, passa a ter efeitos negativos, sendo mais prejudicial do que benéfico. Da mesma forma, os projetos desenvolvidos individualmente pelas disciplinas. Não sou contra os projetos escolares, repito; muito pelo contrário. Mas tudo deve ser bem dosado.

 

   Uma escola exclusivamente focada em projetos pode vir a negligenciar a base teórica essencial para o aprendizado. Esse modelo sobrecarrega alunos e professores, gerando ansiedade devido à demanda constante por inovação. Além disso, a falta de estrutura pode dificultar a avaliação objetiva do progresso acadêmico. É crucial equilibrar projetos com ensino para garantir uma Educação holística, abrangendo tanto habilidades práticas quanto teóricas.

 

  1. Escola focada em infraestrutura

    No panteão das escolas onde a casca vale mais que o conteúdo, encontramos os templos da infraestrutura faraônica. Nesses santuários do brilho e da ostentação, a direção, com o aval entusiástico de uma equipe que claramente entendeu a prioridade, dedica-se de corpo e alma a um propósito sublime: garantir que o prédio seja um espetáculo visual. O foco aqui não é na formação de mentes brilhantes, mas na exibição de quadras poliesportivas de última geração, laboratórios de informática que fariam inveja ao Vale do Silício, espaços "maker" tão modernos que nem os professores sabem como usá-los, e bibliotecas que, convenhamos, servem mais como cenário para fotos do que para a leitura. Já viu esse filme?

 

    Todos os recursos, claro, são fervorosamente direcionados para a manutenção e a glorificação dessas instalações. Afinal, quem precisa de um plano pedagógico robusto quando se tem um auditório com assentos acolchoados? O detalhe hilário, e talvez o mais trágico, é que toda essa parafernália tecnológica e arquitetônica opera em um vácuo pedagógico, completamente desconectada da realidade em sala de aula. Professores, muitas vezes, são meros espectadores deslumbrados, sem a menor ideia de como integrar esses "avanços" ao processo de ensino-aprendizagem. Mas, pensando bem, quem se importa com o que acontece dentro das salas quando a fachada está tão impecável? Seria a Educação escolar um mero pano de fundo para a grandiosidade arquitetônica?

 

     Isso mesmo. Nas escolas focadas na infraestrutura, a direção, apoiada pela maioria da equipe, está mais preocupada com a aparência do prédio escolar, com aquilo que há de melhor em termos de quadra de esportes, de laboratório de informática, de ciências, de biblioteca, espaço maker etc. Todos os recursos são direcionados para a manutenção dessas instalações. Entretanto, tudo desvinculado do pedagógico, haja vista que boa parte dos professores nem sabe utilizar os recursos de que dispõem.

 

     Uma escola excessivamente focada em infraestrutura pode impressionar com suas instalações modernas, mas falhar em oferecer uma Educação de qualidade. Esse modelo prioriza prédios e equipamentos, frequentemente em detrimento da formação contínua dos professores e do desenvolvimento pedagógico. A Educação de excelência requer mais do que um ambiente físico atrativo; é necessário investir em práticas pedagógicas eficazes, apoio emocional e desenvolvimento integral dos alunos.

 

     Existem, por este Brasil afora, escolas debaixo de árvores, representando resiliência e a busca por Educação apesar das adversidades. Nesses espaços informais, professoras dedicadas superam a falta de infraestrutura, criando ambientes de aprendizado comunitário. As árvores oferecem sombra e frescor, transformando a natureza em sala de aula e fortalecendo laços entre alunos professoras, promovendo conhecimento e cidadania. Crianças são alfabetizadas.

 

     Complementando o cenário das escolas que funcionam sob árvores pelo Brasil, é importante ressaltar que, embora a improvisação demonstre criatividade e determinação, ela também evidencia a necessidade urgente de investimentos adequados em infraestrutura educacional. O aprendizado não pode depender exclusivamente da boa vontade dessas professoras e da resiliência dos alunos. O Estado (estados e municípios) deve garantir condições dignas para todos, proporcionando ambientes apropriados que valorizem e fortaleçam o processo educacional.

 

  1.  Escola focada em eventos e comemorações

     Bem-vindos à gloriosa Escola "Festa Sem Fim", onde o aprendizado é um mero detalhe inconveniente em meio à orgia de balões, confetes e fantasias. Nesses vibrantes centros de "educação", o calendário pedagógico é impiedosamente substituído por uma maratona exaustiva de datas comemorativas, folclóricas e, por que não, esotéricas. A obsessão é tamanha que até o mais obscuro "Dia Internacional da Meia Furada" vira motivo para uma semana inteira de atividades "interdisciplinares" – leia-se: aulas canceladas e professores transformados em diretores de eventos.

 

     Não contentes em celebrar o óbvio, esses templos da festividade buscam nos almanaques mais recônditos qualquer pretexto para mais uma decoração extravagante, mais um desfile de alunos fantasiados e, é claro, mais uma oportunidade de introduzir elementos folclóricos de culturas tão distantes que nem os professores conseguem pronunciar os nomes. A vida, afinal, é uma festa interminável, e a escola, claro, precisa refletir essa filosofia. Mas será que, no meio de tanta purpurina e bolo, alguém ainda se lembra do motivo pelo qual a gente realmente vai à escola? Pior que tais escolas comemoram o Dia dos Pais com alunos que nem conhecem o pai.

 

     Vamos lá novamente. Esse tipo de escola procura seguir à risca o calendário de datas comemorativas, folclóricas, e isso de forma excessiva, a tal ponto de comprometer o andamento das aulas. Além das datas principais, que comumente as escolas comemoram, buscam nos almanaques tudo aquilo que lhe apraz para festejar, decorar a escola, fantasiar os alunos, incluindo coisas específicas do folclore de outros países. Além disso, essas escolas costumam desenvolver muitos outros eventos, festejos, congratulações. Pecam pelo excesso. Afinal, a vida é uma festa!

 

  1. Escola focada nos alunos ou no ensino-aprendizagem

     Ah, a joia da coroa do sistema educacional: a escola "ultra focada" no aluno! Um verdadeiro farol de esperança para aqueles que acreditam piamente que o propósito supremo da Educação é transformar cada estudante em uma máquina de tirar notas altas e gabaritar exames estaduais e federais. Nessas instituições, todo o universo gira em torno do desempenho do aluno – e tão somente dele, como se o processo de aprendizado fosse uma mera formalidade entre um gabarito e outro.

 

     A missão é clara, cristalina, e um tanto quanto assustadora: garantir que cada jovem brilhante do ensino médio seja catapultado para os cursos mais cobiçados e as universidades mais elitizadas. Afinal, quem se importa com a formação integral, o pensamento crítico ou a paixão pelo conhecimento, quando o que realmente importa é o selo de aprovação em uma prova concorrida? E, claro, toda essa glória e excelência vêm com um preço, muitas vezes exorbitante, pago não apenas pelos pais, mas principalmente pela equipe escolar, que se desdobra em mil para atender às expectativas de uma sociedade obcecada por resultados. Mas, sejamos honestos, qual seria o problema em transformar a escola em uma espécie de reality show de desempenho acadêmico?

 

     Pois é, essas escolas concentram todo o seu trabalho nos alunos, e tão somente neles, no seu aprendizado. Fazer com que seus alunos tirem sempre boas notas, destaquem-se em exames estaduais e federais é o seu objetivo principal. O ingresso de alunos do ensino médio nos melhores cursos e nas melhores universidades/faculdades é sua missão. Isso tudo a um custo, muitas vezes, bem elevado para toda a equipe escolar, principalmente para os professores. Não é esse o caminho.

 

     Em conclusão, escolas que se concentram exclusivamente no desempenho acadêmico dos alunos, buscando altas notas e aprovações em exames, muitas vezes impõem uma carga excessiva sobre a equipe escolar, especialmente os professores. Esse foco intensivo pode gerar um ambiente de alta pressão, negligenciando a importância do desenvolvimento cognitivo e do bem-estar dos envolvidos no processo educacional.

 

  1. A escola equilibrada

     Ah, a utopia da escola "pés no chão"! Seria ela uma lenda urbana ou uma miragem distante no horizonte pedagógico? Em meio a um cenário educacional que oscila entre a obsessão por resultados financeiros, a paixão desenfreada por eventos ou a megalomania infraestrutural, a busca por uma instituição de ensino que consiga manter um equilíbrio sensato parece, por vezes, uma utopia.

 

     A ideia de uma escola "pés no chão" evoca a imagem de um lugar onde o pragmatismo e a paixão pela Educação coexistem. Uma escola que compreende que o dinheiro é um meio, e não o fim; que os eventos são temperos, e não o prato principal; e que a infraestrutura é suporte, e não o espetáculo. Seria um espaço onde a prioridade é genuinamente o ensino-aprendizagem, mas sem a pressão desumana por notas perfeitas ou a exaustão de um calendário acadêmico voltado apenas para o Enem. Um ambiente que valoriza o desenvolvimento do aluno, reconhecendo que o conhecimento vai muito além das páginas dos livros ou das telas dos computadores.

 

     A escola "pés no chão" seria aquela que investe na formação continuada dos professores (pelo menos dez por ano letivo), que oferece suporte pedagógico diário e consistente e que enxerga o corpo docente como a verdadeira espinha dorsal da instituição. É a escola que promove a colaboração, o pensamento crítico e a criatividade, sem se perder em modismos pedagógicos vazios ou em projetos que visam apenas o marketing. Em suma, seria a escola que compreende que a verdadeira excelência reside na capacidade de conectar o conteúdo à vida real, de despertar a curiosidade e de preparar os alunos não apenas para o próximo exame, mas para os desafios de um mundo em constante transformação. Mas, cá entre nós, será que essa escola ideal existe, ou é apenas um sonho de consumo para professores e pais cansados da ciranda das modas pedagógicas?

 

     Não existe um modelo de escola, a escola ideal, uma receita pronta para uma boa gestão escolar. O diretor pode e deve se preocupar com o conteúdo, com a disciplina e com os recursos financeiros, desenvolver projetos, propiciar uma boa infraestrutura, promover eventos e comemorações, desejar que seus alunos se saiam bem em que quer que seja. Faz parte. Entretanto, é necessário equilíbrio, bom senso e pés no chão. O que não pode é ser centralizador e permitir que a escola fique correndo de forma irresponsável atrás de modismos pedagógicos.

 

     Para promover um aprendizado mais holístico (palavra da moda), é crucial que as escolas equilibrem a busca por excelência acadêmica com a atenção ao desenvolvimento integral dos alunos. Isso inclui, permeado entre a ministração do conteúdo e da convivência diária, na construção do conhecimento, considerar suas habilidades socioemocionais, valores e interesses, além de fornecer apoio adequado aos professores e a toda a comunidade escolar. Um ambiente educacional saudável e equilibrado beneficia todos e contribui para uma formação mais completa e satisfatória.

 

  1. Possíveis respostas para os principais problemas da escola

     A escola enfrenta desafios complexos sem soluções perfeitas. As indagações a seguir exploram respostas possíveis e provocam reflexões sobre problemas educacionais. Como implementar formação contínua para professores que realmente melhore a prática pedagógica e engaje os alunos? De que forma a gestão escolar pode equilibrar recursos limitados para atender às necessidades de infraestrutura e tecnologia? Será que basta pintar as paredes da escola de cores vibrantes para os alunos aprenderem mais e nunca mais faltarem às aulas? E se colocarmos tablets em todas as carteiras, será que os problemas de indisciplina e desinteresse dos estudantes vão magicamente desaparecer? É... Mas o uso do celular foi proibido.

 

     A escola não é uma instituição perfeita, imune a problemas. Já mencionei anteriormente que divergências e conflitos são inevitáveis onde muitas pessoas se relacionam. Além disso, a escola funciona em um prédio e necessita de materiais diversos para que ocorra o ensino-aprendizagem. Vejamos agora alguns possíveis problemas enfrentados pela escola, a pergunta errada que geralmente fazem e a pergunta correta que deveriam fazer e para a qual devem buscar a resposta mais plausível.

 

Problemas: indisciplina, desinteresse, desrespeito, uso excessivo de telas (solucionado?); comunicação ineficaz, práticas pedagógicas ineficazes; falta de material de apoio pedagógico e de expediente; infraestrutura inadequada; falta de recursos.

 

A pergunta errada: O que fará a nossa escola melhorar?

 

                   A pergunta correta: O que está impedindo a nossa escola de melhorar?

 

 

  1. A definição dos propósitos da escola

     Qualquer escola pode ser dirigida por propósitos, independente de seu tamanho, infraestrutura e quantidade de alunos. Não é função de diretores e professores estabelecer os propósitos da escola, mas sim descobrir quais são esses propósitos. Para isso, a equipe escolar precisa buscar respostas para as seguintes perguntas:

  1. Por que a escola existe?
  2. O que devemos ser como escola?
  3. O que a sociedade espera da escola?
  4. Qual é o fim último da escola?
  5. Como a escola vai executar a sua função?

     A escola que tem um propósito bem definido sabe não somente o que deve fazer, mas também o que não deve fazer. Ela estabelece limites claros, priorizando atividades e métodos que estejam alinhados com seus valores e objetivos educacionais. Ao evitar práticas que desviem do seu propósito, a escola mantém o foco na qualidade do ensino e no desenvolvimento dos alunos. Dessa forma, consegue criar um ambiente coerente e eficiente, que favorece o aprendizado significativo e a formação de cidadãos conscientes e responsáveis.

 

     Uhm, então a escola que sabe o que não fazer... ela por acaso oferece um curso intensivo de "como procrastinar eficientemente" para seus alunos, já que sabe o que evitar? Interessante essa ideia de estabelecer limites claros. Será que isso inclui uma política rigorosa de "proibido pensar fora da caixa" para garantir que ninguém desvie do tal propósito bem definido? Um caso a ser pensado.

 

  1. A prática da democracia na escola

     Recordemos os dois primeiros dos quatro aspectos principais da escola pública de Educação Básica: a gestão, que é o motor que impulsiona a escola para que ela ande em sua plenitude, e o corpo docente, que é o complexo de engrenagens que determina a sua velocidade. Muito bem, além desses dois aspectos, não devemos desconsiderar a importância da equipe pedagógica e da equipe administrativa da escola. Por quê? Porque o processo de gestão democrática e humanizada passa por todos eles. Um bom gestor parte do nível de compromisso educacional de cada um de seus professores, coordenadores pedagógicos, coordenadores de turno, técnicos administrativos, porteiros, merendeiras, bibliotecários etc., mas jamais os deixará no mesmo nível de comprometimento. Ele também vê os professores como principais agentes de mudança para lidar com os problemas da escola. Será?

 

  1. O desenvolvimento de projetos pela equipe escolar

     Diretores e professores, juntamente com a coordenação pedagógica, não devem se concentrar em fazer com que a escola seja reconhecida por meio dos projetos que desenvolve, mas se concentrarem na transformação e crescimento de seus alunos mediante esses projetos. Transformação no que se refere à forma de pensar, raciocinar, refletir, que desemboca em ações, e crescimento no que se refere à maturidade como ser social. Enfim, gera experiência, a qual consolida o aprendizado.

     

     Tais projetos podem ser desenvolvidos apenas no âmbito da escola, mas também há a possibilidade de se estenderem a toda a comunidade na qual a escola está inserida, voltados para temas como indisciplina, violência, drogas, meio ambiente, saúde, uso excessivo de telas, e ainda para o desenvolvimento de valores que contribuirão para a vida dos alunos em sociedade, entre outros.

No caso da violência, tema bastante discutido e cobrado por muitos, inclusive pela mídia – que mais cobra soluções do que auxilia –, tem-se esquecido quase que totalmente da prevenção, o que poderia evitar vários casos sérios de atos de violência de alunos com alunos e de alunos com professores. A execução de bons projetos pode prevenir a maioria dos casos comuns de violência.

 

     A violência na escola, envolvendo alunos, poderia ser quase erradicada com o desenvolvimento de projetos pela equipe escolar em parceria com a comunidade, o comércio local, profissionais liberais, igrejas e outras entidades, inclusive oficiais? Se o gestor da escola pública não sabe como desenvolver esses projetos, acha difícil, ou não tem iniciativa, o ideal é que peça exoneração do cargo e dê o lugar a alguém com mais competência.

 

 

 

 

 

 

 

 

PROFESSORES COM PROPÓSITOS

 

           

     Em princípio, todo cidadão pode estar professor em uma sala de aula; entretanto, nem todos são professores. Estar professor é bem diferente de ser professor. A palavra “estar”, segundo o dicionário, significa “ter ou apresentar provisoriamente” [certa condição profissional], “encontrar-se provisoriamente”. A palavra “ser” significa “ter como característica ou propriedade de si mesmo”. É possível estar professor sem sê-lo de fato; entretanto, o indivíduo nunca se sentirá bem na profissão. Não basta ter diploma. Você pode estar em uma casa sem morar nela; assim, não terá aquela intimidade peculiar de quem nela reside. Do mesmo modo, é o indivíduo estar professor, contudo, “impossibilitado” em seu íntimo de exercer bem e espontaneamente o magistério. E não estou falando de vocação, pois discordo do uso desse termo.

 

     Sei perfeitamente que é bastante polêmico esse tema, mas cá não estou muito preocupado com isso. E não estou me referindo a vocação, a dom, repito. Se essa qualidade peculiar a que me refiro não estiver no indivíduo [que não é vocação, dom, missão ou sacerdócio, repito], como propriedade, então ele estará professor, mas não será professor. A qualidade peculiar de professor tem de ser algo subjetivo no indivíduo, tem de permear todo o seu interior, para que ele possa estar no magistério. Todos que se graduam em Licenciatura ou Pedagogia precisam entender e admitir isso. Não basta ser habilitado, precisa ser capacitado. Tenho observado que na medicina, na engenharia, na advocacia, não há muita diferença. Eu não faria uma cirurgia com um médico que não ama o que faz. Você faria?

 

     Eu, particularmente, arrisco a afirmar que o prazer para o magistério, com características próprias, é responsável apenas 30% pela decisão de um indivíduo ao escolher a profissão de professor – e acho que já é muito; os outros 70% são definidos no viver diário. Assim, o “querer” pode ser alterado devido ao ambiente e ao contexto, de acordo com as circunstâncias e influências externas. Se a sua decisão pelo magistério for correta, o indivíduo não fraquejará diante dos problemas, pois a atitude o fortalecerá; se incorreta, sofrerá todas as suas consequências e será prejudicial à Educação. E pior que há muita gente cursando Pedagogia por falta de opção. Além disso, só como exemplo, os cursos que fazem em faculdades particulares, à noite, têm deixado muito a desejar. Mas há públicas piores.

 

     O magistério estar no indivíduo é a condição para ele estar no magistério. Parece muito subjetivo, apontado para a vocação, mas não é. O primeiro se refere ao atributo, e realmente subjetivo; o segundo se refere ao exercício do ofício de professor, e é objetivo. Força de vontade não faz ninguém ser professor, mas apenas estar professor. Muitos denominados professores não o são realmente. Isso acontece também no ensino superior. Novamente afirmo que não estou me referindo a vocação, a dom. Que fique bem claro isso.

 

     Na verdadeira Educação, não há espaço para aqueles que atuam no magistério apenas para sobrevivência, ou seja, para ter um emprego, em troca de salário. O magistério é uma profissão, mas não deve ser considerado como um simples meio de vida. Aliás, nenhuma profissão merece isso.

 

  1. A autonomia didático-pedagógica

     Em uma gestão democrática, obviamente, os professores, dentro dos limites estabelecidos pela Proposta Pedagógica da escola − a qual ajudaram a elaborar −, devem ser detentores de uma responsável autonomia didático-pedagógica. Entretanto, é necessário bom senso e compromisso com um ensino-aprendizagem efetivo. Infelizmente, essa não é a realidade em muitas escolas públicas. E nas privadas?

 

     Três são as principais características de um professor: saber ouvir, saber conduzir o processo ensino-aprendizagem com precisão (didática) e saber gastar bem o tempo com os próprios estudos. Quem não sabe ouvir não sabe se expressar de forma adequada, tem dificuldades em conduzir de forma precisa o aprendizado dos alunos nem tem interesse nos próprios estudos. Além disso, o professor que tem a mente embotada por dogmas, ideologias, superstições, usos e costumes radicais, está impossibilitado de levar seus alunos a despertarem a inteligência. O que o professor pensa, o que ele faz, o que ele fala, todas as suas atitudes, podem ter certeza de que são de suma importância dentro do processo educativo de crianças e adolescentes. Todos estão de olho nele.

É fascinante como o professor com a "mente embotada" está impedido de despertar a inteligência dos alunos, mas suas atitudes ainda são de "suma importância". Talvez a importância esteja em mostrar exatamente o que não fazer para estimular o pensamento crítico. Uma lição e tanto! Felizmente, todos os professores são ilibados. Será?

 

     A Educação formal não necessita de professores ideologizados, de pedagogos utópicos, de metodologias extrema e irresponsavelmente inovadoras. Mais importante que novos métodos criados ou aplicados pelo professor é a sua inteligência como professor. Se ele começar a compreender o magistério em sua essência, em lugar de olhá-lo através da vidraça embaçada de seus conceitos sobre o que ele deveria ser, estará então interessado em exercê-lo no que ele é. Deixará de lado os pedagogismos que querem transformar os alunos, moldá-los segundo concepções ideológicas, as quais não se encaixam na Educação escolar. Aí eu pergunto: isso é possível?

 

  1. O que motiva o professor?

     Vou primeiramente discorrer sobre a motivação. Vejamos. Motivação é o impulso ou a força interna que nos leva a iniciar, direcionar e persistir em um comportamento para alcançar um objetivo. Ela envolve fatores emocionais, biológicos e sociais, e é o que nos impulsiona a agir para satisfazer necessidades ou desejos. Pense nela como o "combustível" que nos faz ir em frente.

 

     A motivação pode ser classificada em dois tipos principais, dependendo de onde vem a força motriz:

 

     Motivação Intrínseca: surge de dentro do indivíduo. É quando fazemos algo pelo prazer, satisfação pessoal, interesse genuíno na atividade, ou por um senso de desafio e autonomia. A recompensa está na própria realização da tarefa. É amar o que faz. Essa é a verdadeira motivação, tanto do professor quanto do aluno.

 

     Motivação Extrínseca: vem de fatores externos ao indivíduo. É quando agimos para obter uma recompensa externa ou para evitar uma punição. As recompensas podem ser financeiras, reconhecimento, elogios, promoções, ou até mesmo a pressão social.

 

     Aplicando esses conceitos à profissão de professor, podemos observar ambas as formas de motivação. Para um professor, a motivação intrínseca é frequentemente o motor principal. Ela se manifesta quando o professor sente prazer em ensinar e ver o aprendizado dos alunos; é apaixonado pela sua área de conhecimento; busca o desafio de adaptar-se e inovar; tem um senso de propósito e impacto social; gosta de interagir e construir relações com os alunos.

 

     A motivação extrínseca também desempenha um papel na vida do professor, embora muitas vezes seja menos sustentável a longo prazo se não houver um componente intrínseco, apesar de se apresentar como a principal para grande parte dos professores. Exemplos incluem: remuneração e benefícios; reconhecimento e valorização; promoções e progressão na carreira; segurança no emprego; local de trabalho acolhedor.

 

     Idealmente, um professor é impulsionado por uma combinação saudável de motivação intrínseca, que alimenta a paixão e o propósito, e motivação extrínseca, que oferece o suporte e o reconhecimento necessários para uma carreira sustentável e gratificante. A primeira é mais importante do que a segunda. Entretanto, acredito que hoje em dia os professores não são impulsionados por nenhuma delas. Mas não custa perguntar: Qual tipo de motivação você acredita ser mais importante para a longevidade e a qualidade na carreira docente?

 

     Atualmente, há mais desmotivação do que motivação para nossos professores, especialmente na sala de aula. Recentemente, o uso excessivo de celular pelos alunos exacerbou essa desmotivação. Veio a proibição mediante lei federal, mas parece que a coisa ficou pior. Muita agressividade psicológica por parte de alunos, e até mesmo física. Quantas e quantas vezes, na última década, os alunos não deixaram o professor falando sozinho por causa do celular?

 

     No dia a dia, alguns abrem a boca durante a explicação do professor apenas para fazer o resto da turma rir, para dispersar a atenção já quase inexistente. O profundo desinteresse dos alunos em aprender muitas vezes é doído, depois de madrugadas preparando uma aula. Não só o desinteresse, mas também o descaso. E esse desinteresse e descaso se estende também às famílias; não todas, mas a maioria A culpa de a escola “não ser atraente” para os pimpolhos de tamanhos vários recai quase exclusivamente sobre os professores, que lecionam em escolas públicas com prédios feios, pichados, depredados por dentro e por fora. E ainda por cima, precisam se virar com os baixos salários e uma carga horária massacrante, muitas vezes em mais de uma unidade escolar. Alguns lecionam em até três escolas diferentes, entre públicas e privadas.

 

     No mais, um professor verdadeiramente dedicado à Educação não necessita de estímulos externos [válidos, não nego] ou controle sobre ele para que desempenhe um bom trabalho na sala de aula. Será verdade? Ninguém vive de brisa. Mas o que motiva esse professor?

 

     Há uma condição para estar no magistério. A condição é que o indivíduo tenha uma aptidão disposicional para professor. A aptidão é exterior e diz respeito à qualificação e habilitação legal para exercer a profissão; a disposição é interior, e diz respeito à “inclinação” [e não dom] para o magistério. Aptidão disposicional refere-se à capacidade inerente de uma pessoa para desenvolver habilidades e comportamentos eficazes em determinadas situações ou contextos, sejam elas profissionais ou não. Envolve traços de personalidade, atitudes e predisposições que influenciam como um indivíduo reage e se adapta a diferentes desafios e oportunidades, facilitando o sucesso e a competência em atividades específicas. Pois é... Porém, essa teoria anda bem distante da prática diária de uma sala de aula de Educação Básica.

 

     A graduação em Licenciatura ou Pedagogia habilita o indivíduo de maneira objetiva e sua atitude o capacita de maneira subjetiva. O diploma habilita-o objetivamente para o magistério; a aptidão disposicional [e não vocação] capacita-o subjetivamente. Portanto, para ser um professor de fato não basta ser habilitado legalmente por um diploma; o magistério requer muito mais que isso. Estar apto é uma questão posicional; ter aptidão é uma questão disposicional. É preciso amar o que faz, conforme costumam dizer por aí.

 

     A função de um professor na sala de aula, ao ministrar o conteúdo de sua disciplina, não é apenas transmitir conhecimentos aos alunos; é, sim, abrir-lhes a mente para a verdade e mostrar-lhes o caminho da sabedoria, capacitando-os a pensar. Portanto, se o professor quer contribuir para a existência de uma sociedade mais justa e equitativa, primeiramente ele deve educar-se a si mesmo. O conhecimento enriquece.

 

     Antes de ser um professor, ele é um ser humano; assim, profissionalmente, ou seja, sua vida como professor não se resume apenas ao pequeno espaço da sala de aula ou da escola. Ela também engloba seus anseios, seus conflitos, seus ideais, seu círculo de relacionamentos, suas idiossincrasias, conceitos e preconceitos. Daí a necessidade de o professor perceber a importância perante seus alunos como formador de opinião e qual a sua função, diante da comunidade estudantil e da sociedade, de um verdadeiro professor. Não é somente um transmissor de conhecimentos. Seu exemplo de vida fala muito alto também. Um professor é o verdadeiro influencer.

 

     Mas o magistério – reafirmo – não é sacerdócio. Eu não exerci o magistério por 40 anos como uma missão, mas como uma profissão. Dessarte, sei o que afirmo.

 

  1. Respostas eficazes [ou quase] para os principais problemas da sala de aula

     Problema é o que não tem faltado nas salas de aula de nossas escolas nas últimas décadas, fazendo cair o nível da qualidade de nossa Educação, causando estresse nos professores, desestímulo na busca por essa tão sofrida profissão. Entre os problemas mais graves, destaca-se o comportamento dos alunos, seguido da falta de infraestrutura adequada, que impede a realização de um ensino de qualidade. Salas de aula superlotadas, equipamentos defasados e recursos pedagógicos escassos são comuns, prejudicando o aprendizado dos alunos.

 

     A indisciplina e a falta de respeito por parte dos alunos tornam o ambiente escolar mais difícil e desgastante para os professores, que já enfrentam cargas horárias excessivas e baixos salários. A desvalorização da profissão docente e a falta de apoio psicológico e administrativo agravam ainda mais a situação, resultando em um alto índice de burnout entre os educadores. Para reverter esse cenário, é fundamental investir em políticas públicas que valorizem a Educação escolar e ofereçam melhores condições de trabalho para os profissionais da área. Mas somente isso não basta.

 

     A saúde mental dos professores da Educação Básica enfrenta desafios crescentes devido à indisciplina e ao desinteresse dos alunos. O desgaste emocional, causado por conflitos em sala e falta de engajamento, eleva o estresse e a exaustão. A ausência de suporte institucional e a sobrecarga de trabalho agravam o quadro, exigindo políticas de bem-estar, formação continuada e estratégias pedagógicas que promovam ambientes de aprendizado mais colaborativos e motivadores. Não podem faltar melhores salários e diminuição da carga horária. Os professores precisam trabalhar em uma só escola.

 

     Os professores de nossas escolas de Educação básica já estão saturados de teorias, desde sua formação em Licenciatura até as reuniões pedagógicas, especialmente em início de ano letivo. E não é teoria o que proponho aqui. O que os professores necessitam é de respostas eficazes [ou o mais próximas delas] para os problemas que eles enfrentam diariamente, mensalmente, anualmente na sala de aula. É de prática que eles precisam. E é bom lembrar aqui que essas respostas e a solução para a maioria dos problemas enfrentados na sala de aula é de responsabilidade única e exclusiva do professor. Mais essa responsabilidade? – podem perguntar alguns. A atitude de agir parte dele, de mais ninguém. A sala de aula é dele. É isso mesmo, já que ele é quem está na linha de frente? Boa pergunta. Mas o buraco é mais embaixo, e estamos em busca de soluções. Vamos juntos nessa?

 

     Em primeiro lugar, o professor precisa fazer um levantamento dos principais problemas que ele enfrenta na sala de aula, turma por turma, individualmente (se é que já não o faz). Creio que o uso do celular não entre dessa vez.

 

     Pergunta: Quais são os principais problemas que eu enfrento na turma X?

 

     Em segundo lugar, o professor precisa ir em busca das prováveis causas desses problemas. Pode parecer difícil, mas não impossível. Dá trabalho? Claro que sim. Como buscar essas causas? Fazendo uma autorreflexão e pesquisando junto a seus alunos. Essas causas podem estar tanto nos alunos ou turma quanto na didática do professor. Nesse caso, trata-se de causas exclusivamente internas. Pelo menos é o que se espera. A Inteligência Artificial, sabendo usá-la, pode auxiliar nessa tarefa.

 

     Pergunta: Qual(is) a(s) possível(is) causa(s) de ‘tal’ problema na turma X?

 

     Em terceiro lugar, o professor precisa buscar soluções para a resolução desses problemas, ou seja, aquilo que vai agir diretamente na(s) sua(s) causa(s). Também nesse caso a IA pode auxiliar, desde que o professor saiba como utilizá-la corretamente.

 

     Em quarto lugar, o professor executa as ações por ele propostas, que vão agir sobre as causas e solucionar ou pelo menos minimizar os problemas levantados. Mais fácil do que tomar pirulito de menino. Fácil, não? Até parece! Mas vale tentar [não tomar o pirulito, mas executar as ações].

 

     Vale lembrar que tudo isso é um processo [de médio e longo prazos], e pode levar tempo, e que esse é um trabalho em equipe, e deve ser desenvolvido por todos os professores da escola. Se todos não falarem a mesma linguagem, os alunos também não falarão. E isso tem sido um problema recorrente em muitas unidades escolares.

Não existem turmas iguais, ainda que seja a mesma série/ano e mesma faixa etária de alunos. Portanto, além de verificar quais são as barreiras que impedem o bom desempenho de sua aula e quais são as principais causas dessas barreiras, ele necessita também verificar se existem princípios metodológicos que funcionam de uma forma ou de outra na maioria das suas turmas. Isso vai facilitar o seu trabalho.

     

     Apenas a título de exemplo, vejamos algumas “possíveis” causas para o problema da indisciplina na sala de aula. Apenas hipóteses. Hipóteses, bem entendido.

 

PROBLEMA: Indisciplina

CAUSAS: Falta de limites, Desinteresse, Falhas na comunicação

ORIGEM: Aluno

 

 

PROBLEMA: Indisciplina

CAUSAS: Didática ruim, Autoritarismo, Permissividade, Despreparo (conteúdo/didática), Falhas na       comunicação, Excesso de conteúdo, Conteúdo descontextualizado

ORIGEM: Professor

 

     Observem o que eu consegui, com base nos dados acima, via Inteligência Artificial:

                                        

                                        

      Sei que não é tão simples assim, pois cada professor vivencia um contexto. Mas ficam as dicas, e a partir delas os professores pode criar novas alternativas. Só não gostei do “afetuoso”, que vejo como válido apenas na educação infantil e na alfabetização. No mais, professor não é parente, não é amigo, não é educador.

Vejamos outros problemas e suas possíveis causas:

 

     Indisciplina:

  1. Falta de limites claros e consistentes em casa pode resultar em comportamento desrespeitoso e desobediente na escola. Problema na família. Aí fica difícil.
  2. Ambiente escolar pouco envolvente e ausência de atividades que estimulem a participação ativa dos alunos podem levar à indisciplina como forma de expressão de frustração. Problema na escola.

     Desinteresse:

  1. Currículo pouco relevante e desconectado da realidade dos alunos e métodos de ensino tradicionais podem desmotivar e gerar falta de engajamento nas atividades escolares.
  2. Transtornos de aprendizagem e/ou transtornos neurodivergentes.

     Uso excessivo de celular/telas (antes da lei federal proibindo):

  1. Falta de políticas claras e consistentes sobre o uso de dispositivos eletrônicos na sala de aula pode resultar em distrações frequentes. O problema agora está na forma de execução da lei que proibiu o seu uso na sala de aula.
  2. A atração e o fácil acesso a redes sociais e entretenimento digital podem competir com o foco nas atividades escolares, tornando difícil para os alunos se concentrarem no aprendizado. Novamente, o problema agora está na forma de execução da lei que proibiu o seu uso na sala de aula.

 

     Alguns temas para reflexão:

  • A didática do professor é demonstrada mais por suas atitudes do que pelo seu saber? O que dizer sobre isso?
  • A diferença entre uma aula mediana e uma aula excepcional é a sua dinâmica?
  • Qualquer aluno pode ser participativo na sala de aula, se o professor descobrir qual é seu ponto fraco ou seus interesses, ou seu tipo de inteligência?
  • O que os alunos necessitam atualmente são menos conteúdos em cada disciplina e mais contextualização?
  • O conteúdo mais importante para o aluno é aquele que vai fazer diferença no seu dia a dia fora da escola?
  • O conteúdo determina o que o professor ensina, mas sua didática é determinada quando, onde e a quem ele ensina?
  • Cobrar dedicação dos alunos nos estudos não os afasta da escola. O que os afasta é a forma como os professores ensinam e pedem essa dedicação?
  • O respeito à figura do professor é adquirido, cultivado, conquistado?                                                        Um pouco complexo, mas vale tentar. Eis a dica. Pior do que está não fica! Pior seria se pior fosse. Trata-se apenas de reflexões. A teoria, na prática, pode ser outra completamente diferente. E é.    

 

     3. Uma didática dialógica

 

     Didática dialógica é uma abordagem pedagógica centrada na interação entre professor e estudantes, baseada no diálogo como meio essencial para o ensino e a aprendizagem. Essa didática considera o estudante como sujeito ativo do processo educativo e valoriza o conhecimento prévio, a escuta e a construção coletiva do saber.

 

     Uma didática dialógica e de caráter equitativo é baseada na troca de ideias e na construção coletiva do conhecimento, promovendo um ambiente inclusivo onde todos os alunos participam ativamente, respeitando e valorizando diferentes perspectivas e contribuições. Essa é a teoria. E na prática, será fácil assim?

 

     Um verdadeiro professor, ao assumir o exercício do magistério em uma escola, deve preocupar-se com três atributos essenciais: equidade, integridade e autenticidade. Lá vem ele de novo! Pois bem, um professor é equânime quando trata e avalia cada aluno de forma equitativa, de acordo com sua individualidade de aprendizado; íntegro quando tem inteireza de caráter (o exemplo costuma, às vezes, falar mais alto do que as palavras); e autêntico quando tem postura em seu modo de ser. Isso deveria valer para todas as profissões, mas me refiro aqui especialmente a professores.

 

     As suas atitudes estão relacionadas à equidade; a sua índole está relacionada à integridade; a sua maneira de ser está relacionada à autenticidade. Na equidade percebemos se um professor se utiliza de “dois pesos e duas medidas” dentro da sala de aula; na integridade conhecemos a natureza, o caráter, a essência da personalidade de um professor; na autenticidade vemos a expressão da equidade e da índole de um professor, se ele é falso ou verdadeiro. Sei que vão me atirar pedras aqui, mas aprendi isso ao longo de meus 40 anos de magistério. Frequentei pelo menos 13 escolas diferentes, e convivi com dezenas de professores de várias idades, em 3 cidades diferentes.

 

     Esses três atributos de um professor devem servir de exemplo para os seus alunos. Os professores (adultos maduros) precisam expressar a marca da verdadeira Educação a seus alunos (crianças e adolescentes em formação) para que todos possam crescer. Outra teoria que na prática pode ser diferente. Isso é realizável?

 

    O professor é equânime quando trata os alunos de uma turma de forma equitativa, sem predileções e discriminações, procedendo da mesma forma nas avaliações. Já vi acontecer de tudo neste mundo de meu Deus. O professor é íntegro quando possui um caráter ilibado, não devasso (já presenciei coisas absurdas em escolas e sala de professores), mesmo com as limitações próprias do ser humano. O professor é autêntico quando é verdadeiro, tem um procedimento sincero. Um professor somente será equânime e autêntico se for íntegro. Sua integridade é que determinará se ele será justo e verdadeiro. A equidade e a autenticidade do professor dependerão de sua integridade.

 

     O parágrafo anterior propõe uma reflexão ética profunda sobre o papel do professor como agente de justiça, autenticidade e integridade. A perspectiva apresentada parte do princípio de que a conduta do professor transcende a técnica e o conteúdo: ela se funda em valores morais sólidos, que orientam suas decisões e relações com os alunos. Há, aqui, uma relação direta entre os conceitos filosóficos de equidade, autenticidade e integridade, cujo eixo comum é o compromisso ético com a humanidade do outro.

 

     A equidade, conforme delineada por mim anteriormente, não é apenas tratar todos de forma igual, mas sim com justiça − respeitando as singularidades, sem discriminações nem favoritismos. Essa visão aproxima-se do pensamento de Aristóteles, ao afirmar que o justo é tratar os iguais como iguais e os desiguais como desiguais, na medida de suas diferenças. O professor equânime age com sabedoria prática (phronesis), sabendo adaptar suas ações conforme as necessidades de seus alunos. Isso um professor faz brincando numa turma de 40 alunos. Moleza! Mas, porém, contudo, todavia, sigamos em frente.

 

     A autenticidade, por sua vez, remete à filosofia existencialista, especialmente em Sartre, ao afirmar que o ser humano deve ser verdadeiro consigo e com os outros, assumindo suas escolhas com responsabilidade. Um professor autêntico não veste máscaras. Ele é coerente entre o que pensa, sente e faz − algo que impacta diretamente na confiança construída com os alunos.

 

     A integridade é o alicerce. Sem ela, não há como ser equânime nem autêntico. Ser íntegro, nesse contexto, é possuir um caráter ético que não se corrompe, mesmo diante das limitações humanas e das pressões institucionais. Muito simples no Brasil. Isso exige coragem moral, como diria Hannah Arendt, para não ceder à banalidade do mal, isto é, à conivência com injustiças no cotidiano escolar.

 

     Portanto, a integridade docente não é uma qualidade acessória, mas fundante. Ela sustenta uma prática pedagógica comprometida com a justiça e a verdade, que reconhece a dignidade de cada aluno. A formação ética do professor é, assim, condição indispensável para uma educação verdadeiramente humanizadora.

 

     Vão me criticar aqui os mesmos professores que brigam comigo quando afirmo que professor não é educador, que esse negócio de afeto em sala de aula é balela, que é impossível para um professor se envolver no histórico de vida de cada aluno e exercer a empatia, e por aí vai. Atiram-me pedras aguçadas quando digo isso. Mas...

 

     Claro, porque ser um professor autêntico é moleza, né? Basta ser verdadeiro, com uma sinceridade que brota naturalmente, como se fosse só respirar e pronto. Um professor só será justo e autêntico se for um poço de integridade, porque, óbvio, a integridade é tipo um superpoder que garante equidade e verdade a cada passo. A autenticidade e a justiça? Pfft, dependem só dessa tal integridade, que, com certeza, todo professor tira de letra sem nem suar. Coisa simples para meros mortais como esses heróis da Educação. Um professor que não é íntegro, equânime e autêntico provavelmente contribuirá para a formação de alunos – futuros cidadãos – semelhantes a ele, por meio de seu exemplo. E esse não o propósito da Educação. Se eu desejo uma sociedade melhor, então devo começar por mim. Garanto que sua vida vai melhorar.

 

     “Mas isso é moralismo puro!” – podem comentar. Não sou conservador, mas tenho aprendido com a vida. Tenho procurado extrair aprendizado da vida, da leitura, dos estudos, da filosofia, da neurociência. E vou continuar aprendendo pelo resto de minha vida. Estudar não mata ninguém.

 

     Continuando, depois desse parêntese. O verdadeiro professor precisa ter três tipos de conhecimento (e lá vem ele de novo): o conhecimento do conteúdo, o conhecimento didático e o conhecimento emocional. Ter apenas conhecimento do conteúdo de sua disciplina não basta. Mas também é inútil ter conhecimento profundo do conteúdo se não souber contextualizá-lo, relacioná-lo à prática. O conhecimento do conteúdo deve vir acompanhado de uma boa didática, fundamental para o efetivo aprendizado dos alunos. Complementando esses dois conhecimentos, temos o conhecimento emocional, que habilita o professor a ter controle de si mesmo, a saber relacionar-se, ter autocontrole para administrar conflitos dentro da sala de aula. Não me refiro aqui às questões emocionais dos alunos; professor não é psicólogo. E esse tema tem estado constante em reuniões pedagógicas, nas redes sociais, em alguns livros, artigos, congressos, palestras e podcasts. E os problemas emocionais têm afetado muito a saúde mental de professores. Providências cabíveis são necessárias. Mas não como uma nova disciplina no currículo. E eu estou do lado de meus colegas professores. A coisa está cada vez mais difícil nas escolas. E gostaria de deixar bem claro aqui que a saúde mental e o histórico de vida dos alunos não é problema dos professores e, sinceramente, nem da escola. O professor é um profissional do ensino. E que venham as pedras. Vou construir meu castelo com elas lá no alto da colina, onde a beleza fascina.

 

     O segredo da didática dialógica está relacionado a quatro aspectos: boa comunicação, criatividade, inovação e dinamismo. A comunicação é a coluna que sustenta a relação pedagógica entre o professor e o aluno. A efetividade da relação pedagógica se dará na medida em que a comunicação for mais aberta, construtiva e positiva. Autista sem o saber, eu forjei minha comunicação na sala de aula, como professor, a partir da idade de 20 anos. Quanto à criatividade, à inovação e ao dinamismo, é bom que se saiba que professor não é animador de auditório. Professor não é obrigado a dar show. O professor criativo é aquele que tem a capacidade de encontrar soluções diferentes e originais em face de novas situações na sala de aula. O professor inovador é aquele que utiliza o que já possui de forma diferente. O professor dinâmico é ativo, cheio de energia, que sabe fazer cada coisa a seu tempo. Só que anda meio difícil manter essa energia a partir do segundo semestre. Anda difícil encerrar até o primeiro.

 

     Faz bom uso da didática aquele que a conhece bem. Isso não se aprende com teoria, nos cursos de faculdade. Nesse sentido, os cursos de formação inicial falham feio. Se o professor não adentrar as profundezas da didática e relacionar-se com ela diariamente, não poderá fazer bom uso dela na sala de aula. Isso não se ensina na faculdade.

 

     A didática é a ciência e a arte de ensinar, sendo um ramo da pedagogia que estuda os processos, métodos, técnicas e estratégias utilizados para facilitar a aprendizagem. Ela abrange o planejamento, a execução e a avaliação do ensino, considerando o contexto educacional, as características dos aprendizes e os objetivos pedagógicos. A didática busca responder a questões como: o que ensinar?, como ensinar?, por que ensinar? e para quem ensinar?, integrando teoria e prática para promover um aprendizado significativo. A didática não é estática; ela evolui com as demandas da sociedade, as inovações tecnológicas e as mudanças nos paradigmas educacionais.

 

     A didática ou a falta dela pode ser usada para avaliar um professor em sala de aula. As notas dos alunos, em geral, refletem isso, expõem os professores. As notas podem expor a boa e a má didática. Quando os alunos são reprovados, muitos professores também são reprovados com eles. Não todos, mas muitos deles. Quase tudo o que os professores são e fazem na sala de aula está relacionado com as notas dos alunos. A didática ou a falta dela é o que os professores plantam. As notas dos alunos seriam os frutos? Assim, tudo o que o professor é e faz em sala de aula deve ser repensado quando seus alunos vão mal nas avaliações [que, também quando mal elaboradas, resultam em más notas]. É bom que fique bem claro: nem todas as más notas dos alunos são reflexo da didática dos professores. Vale lembrar que existem maus alunos, aqueles relapsos, malandros, que não gostam de estudar. Quanto aos que têm dificuldades na aprendizagem, isso já é outro caso. Todos os professores devem aprender a exercitar a didática. Se exercitar sua didática, ele terá algo novo para oferecer aos seus alunos e propiciar-lhes um melhor aprendizado a cada dia. Anda difícil é encontrar tempo para tudo isso. Utopia?

 

     Os conteúdos necessitam ser contextualizados? Eles precisam ser voltados para alguma temática atual? É possível contextualizar e tematizar tudo?  E a metodologia e as técnicas didáticas utilizadas, precisam ser diversificadas para que as aulas dos professores não se tornem desinteressantes para os alunos? Existem aulas totalmente improdutivas e entediantes, gerando indisciplina? Talvez. Há professores e professores.

 

     Ensinar é relacionar-se. Educação, portanto, seja ela formal ou não, é relacionamento. No caso da escola, a educação se refere ao ensino, aos conteúdos; na família, educar é instituir regras, sejam elas sociais ou não, transmitir valores. Esse é o grande problema de denominar tudo de “educação”. Quando os conteúdos das diversas disciplinas escolares não conversam entre si e entram nesse relacionamento apenas subjetivamente, como informação, ficam estacionados na lembrança, na memória de curto prazo (ou de trabalho), até desaparecerem.

     

     Nesse caso, está bem mais relacionado à responsabilidade do aluno, do seu ‘querer’ aprender. E como relacionamento é entre o aluno, como ser humano, e outros seres humanos e com a natureza, se o conhecimento aprendido não se tornar práxis no viver diário, provocará a degeneração de seu viver como cidadão e, consequentemente, da sociedade na qual está inserido. A Educação exclusivamente conteudista é, portanto, um veneno social. E os governantes sabem, se aproveitam e se beneficiam disso como forma de dominação. Os programas educacionais de governo não são neutros. Ledo engano acreditar nisso.

 

     Então, a escola conteudista não se preocupa tanto com o lado humano dos alunos? Não é bem isso, mas não deixa de fazer algum sentido. Não são as matérias que eles aprendem, o conhecimento superficial que adquirem na sala de aula que vão interferir mais diretamente na produção da sociedade na qual estão inseridos, mas o que o que vão fazer dele, o que os forma como pessoas, interiormente, e lhes é passado indiretamente pelos professores. Isso, sim, irá ditar suas ações e reações como indivíduos, como cidadãos, como profissionais, e o relacionamento com seus semelhantes.

 

Muitos professores vivem enredados pelas próprias palavras. As palavras, a nossa comunicação, moldam nossas ações e reações, assim como os pensamentos controlam nossas mentes. A comunicação na sala de aula é de fundamental importância; porém, ela não é o fim em si, mas um meio. O nome, a descrição e o conceito jamais substituem a pessoa, a coisa, o fato. Se o professor permite que sua visão do aluno e sua explanação do conteúdo disciplinar estejam associadas a seus preconceitos, ao que ele acha, isso distorcerá ou impedirá a verdadeira percepção, prejudicando sobremodo o aprendizado. São, portanto, também ruídos na comunicação. Nada é relativo enquanto seja absoluto, e o oposto também é verdadeiro. As palavras, que deveriam propiciar a percepção pura, passam a ser uma barreira ao aprendizado do aluno. Para explicar aos alunos, o professor precisa observar sem associações. Na observação pura não deve haver interferência do pensamento pessoal, que é limitado, de seus pontos de vista, de seu ‘achismo’.

 

     Clareando mais. A comunicação na sala de aula é essencial, mas não é o objetivo final, apenas um meio para alcançar o aprendizado. Palavras, nomes ou conceitos não substituem a essência das pessoas, objetos ou fatos. Se o professor deixa seus preconceitos ou opiniões pessoais influenciarem a forma como enxerga o aluno ou explica o conteúdo, isso pode distorcer a percepção verdadeira, atrapalhando significativamente o aprendizado. Esses preconceitos funcionam como ruídos na comunicação. Nada é absoluto se pode ser relativo, e o contrário também é verdade. As palavras, que deveriam facilitar a compreensão clara, podem se tornar barreiras ao aprendizado. Para ensinar de forma eficaz, o professor deve observar os alunos sem deixar que seus pensamentos, opiniões ou pontos de vista pessoais, que são limitados, interfiram. Eu me fiz entender?

 

     A relação pedagógica na sala de aula só pode ser estabelecida e determinada por meio da didática dialógica e de caráter equitativo. Mesmo tendo ocorrido uma preparação anterior para a aula, a marca principal da didática dialógica é a espontaneidade, caracterizada pela diversificação e adequação das metodologias ao contexto. Uma de suas vantagens é que, além de prática e dinâmica, ela também é flexível. A boa didática é aquela que desemboca em uma boa prática; e a boa prática é aquela embasada em uma boa didática.

 

     As avaliações, sejam elas de alunos, professores, escolas, níveis e modalidades de ensino, são formas comparativas de fragmentar o sistema educacional. A comparação é destrutiva, pois o melhor não é o bom. Comparar alunos, escolas, estados, países por meio de avaliações é uma forma de destruição, de deseducação. Medir é corromper. A qualidade e a integridade estão naquilo ou naquele que não precisa ser medido. Ou se é ou não se é. E o que realmente é não pode ser mensurado. Educação não é quantidade, mas qualidade. E qualidade não se mede, pois ela é subjetiva. Não estou querendo dizer aqui que as avaliações – testes, provas, trabalhos – não são importantes; são válidos e necessários na escola.

 

     As avaliações, portanto, sejam de alunos, professores, escolas ou tipos de ensino, refletem apenas o momento, as circunstâncias e o contexto em que são aplicadas. Elas fragmentam o sistema educacional ao comparar desempenhos de forma pontual, sem considerar a complexidade e a dinâmica do aprendizado, que variam conforme condições específicas e temporais.

 

     É possível ao professor evitar a comparação no processo ensino-aprendizagem? Como fica a avaliação, se ela é essencialmente comparativa? Os padrões estabelecidos pelo professor para avaliar seus alunos não devem ser comparativos, independente da metodologia utilizada. A avaliação ideal dos alunos é aquela contínua, abrangente e contextualizada, formativa. Sinto vergonha de lembrar que, no início, eu entregava as provas ou redações por ordem crescente de notas. Alguém já fez isso?

 

     Mais à frente, em outro capítulo, trataremos sobre os alunos.

 

     A didática dialógica − fundamentada na BNCC [aquele livrão de mais de 700 páginas] − ganha força quando integrada à Taxonomia de Bloom e à Metodologia ROPES, promovendo uma aprendizagem significativa. A Taxonomia de Bloom organiza os objetivos de aprendizagem em níveis cognitivos progressivos, desde a recordação até a criação, estimulando o desenvolvimento integral das competências previstas na BNCC, que valorizam conhecimentos, habilidades, atitudes e valores para a vida social e profissional.

 

     A Metodologia ROPES complementa essa abordagem ao estruturar atividades que envolvem a Reflexão, a Observação, a Prática, a Experimentação e a Sistematização, favorecendo a construção do conhecimento de forma ativa e colaborativa. Essa combinação assegura que o professor planeje aulas inovadoras, contextualizadas e inclusivas, respeitando os ritmos e interesses dos estudantes, conforme orientações da BNCC para a personalização do ensino e o desenvolvimento de competências gerais da Educação Básica.

Tudo isso é bom quando saem do papel, do digital, e desembocam na prática.

 

 

5. O desenvolvimento de projetos pelo professor

   Os projetos desenvolvidos pelos professores com seus alunos devem ser contextualizados, práticos e complementarem as teorias estudadas. Cada projeto precisa ter uma temática específica, singular, atual.

 

     A finalidade do desenvolvimento de projetos é aliar a teoria e a prática para o fortalecimento do aprendizado dos alunos. A escolha das atividades a serem desenvolvidas pelos alunos deve estar diretamente relacionada ao conteúdo da disciplina em questão. E com planejamento antecipado. Entretanto, vale aqui frisar novamente que o excesso de projetos – sejam eles gerais, de toda a escola, ou individualmente por professor – pode ter efeitos mais negativos do que positivos.

     

     Aqui estão, como exemplos, sugestões de projetos didáticos para as disciplinas de Matemática, Português, Geografia e Ciências, voltados para engajar alunos do ensino básico e auxiliar professores a inovarem em sua prática pedagógica. Cada projeto é prático, interdisciplinar quando possível, e adaptável a diferentes faixas etárias.

 

Matemática

  1. Projeto "Matemática no orçamento familiar"

     Descrição: Os alunos criam um orçamento familiar fictício com base em profissões escolhidas (ex.: professor, mecânico, engenheiro). Eles pesquisam salários médios, custos de vida (aluguel, alimentação, transporte) e aplicam conceitos de porcentagem, adição, subtração e multiplicação para planejar gastos. Podem usar planilhas simples ou aplicativos para visualização.  Adaptável à idade dos alunos.

     Objetivo: Aplicar operações matemáticas em contextos reais, desenvolvendo pensamento crítico e educação financeira. 

     Atividade: Dividir a turma em grupos, cada um com um cenário familiar. Apresentar os orçamentos em gráficos e discutir escolhas financeiras.

  1. Projeto "Geometria na arquitetura local"   

   Descrição: Os alunos exploram formas geométricas (círculos, triângulos, quadrados) em construções da comunidade, como praças, igrejas ou escolas. Eles fotografam ou desenham essas estruturas, identificam formas, calculam áreas, perímetros ou ângulos, e criam maquetes simples. 

     Objetivo: Relacionar geometria ao cotidiano, promovendo observação e criatividade. 

  Atividade: Organizar uma exposição com as maquetes e cálculos, conectando com história local ou sustentabilidade.

 

Português

     1. Projeto "Contos colaborativos"

   Descrição: A turma cria uma história coletiva, onde cada grupo ou aluno escreve uma parte (introdução, desenvolvimento, desfecho). O tema pode ser inspirado em lendas regionais ou questões sociais (ex.: meio ambiente). Os textos são revisados em grupo, trabalhando gramática, coesão e coerência. 

   Objetivo: Estimular escrita criativa, leitura crítica e colaboração. 

   Atividade: Publicar os contos em um blog da escola (usando o Google, por exemplo) ou em um livreto impresso para compartilhar com a comunidade (como exemplo, um livreto de cordel, em cooperação com Artes).

 

2. Projeto "Jornal da escola"

   Descrição: Os alunos produzem um jornal com notícias, entrevistas, crônicas e poesias sobre a escola ou bairro. Cada grupo assume um gênero textual (notícia, editorial, crônica) e aprende suas características específicas. 

   Objetivo: Desenvolver habilidades de escrita, leitura e pesquisa, além de valorizar a comunicação. 

   Atividade: Distribuir o jornal em formato digital ou físico, incentivando a participação de outras disciplinas (ex.: charges com Geografia, Artes, História).

            Há  outras possibilidades, como podcasts, radionovela, telejornal.

 

Geografia

1. Projeto "Mapeando o bairro"

   Descrição: Os alunos criam um mapa do bairro ou da cidade, identificando pontos de referência (escola, praça, rio) e problemas locais (ex.: lixo, falta de acessibilidade). Usam ferramentas como Google Maps ou desenhos manuais, aplicando conceitos de escala e cartografia. 

   Objetivo: Compreender conceitos geográficos e desenvolver consciência cidadã. 

   Atividade: Apresentar o mapa à comunidade escolar com propostas de melhorias para os problemas identificados.

 

2. Projeto "Clima e sustentabilidade"

   Descrição: Os alunos investigam o clima da região (chuvas, temperatura) e seus impactos na vida local, como agricultura ou enchentes. Propõem ações sustentáveis, como coleta seletiva ou uso consciente da água, baseadas em dados coletados. 

   Objetivo: Relacionar clima, meio ambiente e ações humanas, promovendo educação ambiental. 

   Atividade: Criar uma campanha escolar com cartazes ou vídeos curtos sobre as propostas sustentáveis. Podem, inclusive, usar carro de som nas ruas.

 

Ciências

1. Projeto "Horta escolar"

   Descrição: Os alunos planejam e cultivam uma horta na escola, estudando o ciclo de vida das plantas, solo, fotossíntese e nutrientes. Podem integrar Matemática (medir área da horta) e Geografia (clima local). 

   Objetivo: Ensinar biologia de forma prática e incentivar hábitos sustentáveis. 

   Atividade: Organizar uma feira para compartilhar os produtos da horta com a comunidade, explicando o processo científico.

 

2. Projeto "Explorando energias renováveis"

   Descrição: Os alunos pesquisam fontes de energia (solar, eólica, hidrelétrica) e constroem modelos simples, como um moinho de vento ou um aquecedor solar com materiais recicláveis. Discutem vantagens e desafios dessas energias. 

   Objetivo: Compreender conceitos de física e sustentabilidade, estimulando criatividade. 

   Atividade: Apresentar os modelos em uma exposição científica, com explicações sobre o funcionamento e impacto ambiental.

Dicas gerais para os professores: Adaptar ao contexto, considerando a realidade dos alunos (rural, urbana, faixa etária) para tornar os projetos relevantes. 

 

     6. Professor não é educador

    Professor versus educador: é fundamental definir papéis e responsabilidades. Primeiramente, o professor é um profissional especializado, e sua função, grosso modo, é “a transmissão de conhecimentos”. Sua função principal, portanto, consiste em instruir, ou seja, fornecer informações organizadas, desenvolver competências cognitivas e preparar os estudantes para desafios, capacitando-os a pensar, a usar o raciocínio. O educador, por sua vez, é aquele que forma valores, caráter e princípios morais, e essa função cabe à família. Essa distinção é fundamental para compreendermos as verdadeiras atribuições de cada papel na formação humana. Exigir do professor a função de educador é injusto, pois isso implicaria um vínculo afetivo que não pode ser imposto por profissão ou salário.

 

     Instruir significa capacitar o indivíduo com ferramentas intelectuais e práticas necessárias para sua inserção social e profissional. O professor domina conteúdos curriculares, metodologias de ensino e estratégias pedagógicas que facilitam a aprendizagem. Ele constrói pontes entre o conhecimento científico e a realidade do aluno, transformando informações complexas em saberes acessíveis. Educar, contudo, envolve a formação integral da personalidade, incluindo aspectos emocionais, éticos e comportamentais que transcendem o ambiente escolar.

A família possui o papel primordial e insubstituível de educar. É no seio familiar que se estabelecem os primeiros vínculos afetivos, onde se constroem os valores fundamentais e onde se desenvolve a base emocional da criança. Os pais ou responsáveis têm autoridade natural e legitimidade para estabelecer limites, transmitir princípios e moldar o caráter. Essa responsabilidade não pode ser transferida para terceiros, pois nasce do amor incondicional e do compromisso vitalício que caracteriza as relações familiares.

 

     Exigir que o professor assuma funções educativas representa uma sobrecarga injusta e improdutiva. O vínculo afetivo necessário para a educação não surge por imposição profissional ou remuneração. Não é possível contratar alguém para amar, cuidar emocionalmente ou substituir a autoridade parental. Quando a escola tenta suprir lacunas educativas familiares, compromete sua eficiência “instrutiva” e sobrecarrega profissionais que não possuem ferramentas adequadas para tal função.

 

     A confusão entre esses papéis gera expectativas irreais sobre o sistema educacional. Professores são cobrados por problemas comportamentais, sociais e familiares que fogem completamente de sua competência profissional. Essa distorção prejudica tanto a qualidade do ensino quanto o desenvolvimento dos estudantes, pois nenhuma das funções é exercida adequadamente. A escola perde foco no que deveria ser sua especialidade: a instrução qualificada, ensinar a pensar, a usar a mente, o cérebro.

 

     Reconhecer essas diferenças permite que cada instituição e profissional atue dentro de suas competências específicas. Professores podem se dedicar integralmente ao aperfeiçoamento de suas práticas instrutivas, desenvolvendo metodologias mais eficazes e aprofundando conhecimentos em suas áreas. As famílias, por sua vez, assumem conscientemente seu papel educativo, criando ambientes favoráveis ao desenvolvimento emocional e moral. Essa divisão clara de responsabilidades potencializa os resultados em ambos os aspectos da formação humana. A escola não tem obrigação de realizar aquilo que a família não consegue fazer; essa não é sua responsabilidade.

 

     Quanto à terceirização da responsabilidade familiar, aqui vai uma crítica necessária. Quando pais delegam à escola a educação de seus filhos, cabe questionar: vocês realmente acreditam que um professor, com 50 alunos em sala, mais de 30 alunos por turma, pode substituir o vínculo afetivo que vocês deveriam construir? Acham que contratar alguém por algumas horas diárias substitui o amor, a paciência e a dedicação integral que a educação familiar exige? Essa mentalidade revela uma tentativa conveniente de transferir responsabilidades que são inerentemente suas. Por que escolheram ter filhos se não pretendiam assumir o compromisso de formá-los como pessoas? A escola virou um depósito onde vocês largam suas crianças esperando que saiam prontas, educadas e bem-comportadas, como se fosse uma fábrica de cidadãos. E pior que muitas professoras e professores aceitam isso, e acham ruim quando afirmo que professor não é educador.

 

     É fascinante observar como essas mesmas pessoas que terceirizam a educação são as primeiras a criticar quando algo dá errado. Cadê a coerência quando vocês cobram da professora resultados que vocês mesmos não conseguem alcançar em casa? Por que acham que uma profissional, ganhando salário de professor brasileiro, deve ter mais autoridade sobre seus filhos do que vocês, que os geraram? Vocês percebem a contradição de exigir que estranhos corrijam comportamentos que vocês não souberam ou não quiseram moldar? Essa postura revela não apenas irresponsabilidade, mas uma desconexão total com o que significa ser pai ou mãe.

 

     A realidade é brutal: vocês querem os benefícios da paternidade sem os ônus da responsabilidade. Esperam que a escola resolva birras, ensine limites, transmita valores e ainda prepare academicamente seus filhos para o futuro. Mas me digam: quando foi a última vez que vocês se sentaram para conversar, estabelecer regras ou simplesmente demonstrar interesse genuíno pela formação moral de seus filhos? Por que acham que terceirizar amor e cuidado pode funcionar? Essa mentalidade não só prejudica suas crianças, como sobrecarrega um sistema educacional que já luta para cumprir sua verdadeira função: instruir. Parem de culpar professores por problemas que vocês criaram e assumam finalmente o papel que escolheram quando decidiram ter filhos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ALUNOS COM PROPÓSITOS

 

 

 Etimologicamente, a palavra aluno vem do latim alumnus,i no sentido de 'criança de peito, lactente, menino, discípulo'. Portanto, é um equívoco alguns pedagogos e professores afirmarem que a palavra "aluno" está etimologicamente relacionada a "aquele sem luz"; isso decorre de uma interpretação errônea baseada em uma suposta conexão com o prefixo latino "a-" (indicando ausência) e lumen (luz, em latim), sugerindo que "aluno" significaria "sem luz" ou alguém que ainda não possui conhecimento (luz). Essa ideia, embora poeticamente atraente, não tem fundamento etimológico. Que isso fique bem claro de uma vez por todas.

Repetindo, a palavra "aluno" tem origem no latim alumnus, que significa "criado", "nutrido" ou "discípulo". O termo deriva do verbo "alere", que significa "alimentar", "nutrir" ou "criar". No contexto romano, alumnus era usado para designar uma criança criada ou educada por alguém, frequentemente em um sentido de proteção ou aprendizado, como um pupilo ou aprendiz. Com o tempo, o termo evoluiu para se referir especificamente a uma pessoa que recebe instrução ou educação, especialmente em um ambiente escolar. Em português, "aluno" passou a designar o estudante, mantendo a ideia de alguém que é "nutrido" com conhecimento. A palavra chegou ao português por meio do latim escolástico, usado em textos educacionais e religiosos na Idade Média.

 

     A arte de viver, caro aluno, é a coisa mais importante na vida de um indivíduo. O conhecimento adquirido na escola, por si mesmo, dificilmente será propício ao bom desempenho dessa arte; mas o seu aprendizado prático e contextualizado, sim. Experiência. A arte de viver é ampla, ilimitada, e engloba todos os aspectos e áreas de nossa vida. De que vale estudar anos e anos apenas para adquirir conhecimento, se isso não for utilizado de forma responsável para a edificação de sua vida como indivíduo e de uma sociedade justa? A aquisição de conhecimento, apenas, é pura vaidade. O verdadeiro valor está em aplicar esse conhecimento para crescer como pessoa, desenvolver habilidades críticas, resolver problemas reais e contribuir de maneira significativa para a sociedade.

 

     Pois é. A sabedoria, caro aluno, é o coração da Educação que realmente transforma. O que você aprende na escola, por si só, não garante uma vida plena; mas o uso consciente desse saber, sim. A sabedoria é vasta, conecta tudo o que você é e faz, e ilumina seus caminhos. De que adianta decorar fatos se não os aplicar com propósito? O verdadeiro aprendizado está em usar o conhecimento para construir uma existência ética, cultivar relações humanas e fortalecer uma sociedade mais equitativa e solidária.

 

     A Educação escolar é mais do que acumular informações; é aprender a navegar pela vida com discernimento. A escola não é apenas um lugar de estudo, mas um espaço onde se cultivam valores por meio da convivência, dos relacionamentos – como respeito, empatia e responsabilidade. O conhecimento, quando bem aplicado, torna-o capaz de enfrentar desafios, tomar decisões conscientes e contribuir para um mundo melhor. De que serve memorizar fórmulas ou datas se não souber usá-las para resolver problemas reais? A verdadeira Educação escolar prepara você para crescer como indivíduo e transformar a sociedade com justiça. Ensina a pensar.

 

     Além disso, a escola é um laboratório de convivência, onde você aprende a arte de viver em comunidade. É no diálogo com colegas e professores que se desenvolve habilidades como a escuta ativa e a colaboração. O saber acadêmico é valioso, mas é na prática, no respeito às diferenças e na resolução de conflitos, que ele ganha sentido. O que você aprende na escola deve guiá-lo para construir pontes, não muros, e para edificar uma sociedade mais humana. A Educação formal verdadeira é aquela que faz de você um cidadão consciente e engajado.

 

     Como já mencionei anteriormente, a vida prática do indivíduo como ser social é o objetivo da Educação formal. Você não estuda apenas para ser culto ou ter uma profissão. A vida prática da sociedade é o fim último da Educação escolar básica. A escola é uma questão de ensino-aprendizagem, enquanto a sociedade é uma questão do exercício do que se aprendeu na escola. A sociedade é, portanto, o lugar onde a Educação escolar se torna uma realidade concreta.

 

     A escola, portanto, é o alicerce onde se constroem as ferramentas para sua vida em sociedade. O que você aprende nas aulas não é um fim em si mesmo, mas um meio para que possa atuar com responsabilidade e ética no mundo. Cada lição, cada debate, cada projeto é um preparo para que exerça seu papel como cidadão consciente. A verdadeira Educação se manifesta quando você aplica o conhecimento para solucionar problemas, promover igualdade e fortalecer os laços comunitários, transformando a sociedade em um espaço mais justo e humano.

 

     Mais do que transmitir conteúdos, a escola ensina você a pensar criticamente e a conviver com as diferenças. Ela é o ambiente onde se aprende a respeitar, a dialogar e a colaborar, habilidades essenciais para a vida prática. O aprendizado ganha vida quando você o leva para além das paredes da sala de aula, utilizando-o para enfrentar desafios reais e construir uma sociedade mais solidária. Assim, a Educação escolar se completa na tua atuação como agente de mudança, comprometido com o bem comum.

 

     A escola é o lugar aonde a gente vai para aprender, crescer e se preparar para o futuro. Não é um show, nem um parque de diversões, nem um espaço para passar o tempo jogando ou só conversando. Essas coisas fazem parte da vida, sim, mas existem em outros momentos − em casa, com os amigos, na comunidade, no fim de semana.

 

     Na escola, a gente estuda. E por que isso é importante? Porque o conhecimento que aprendemos aqui vem sendo construído há séculos por muitas pessoas no mundo todo. Cada disciplina − Matemática, Língua Portuguesa, História, Ciências, dentre outras − traz um pedaço desse saber que a humanidade juntou com esforço, pesquisa e dedicação.

 

     A função da escola é oferecer aos estudantes (crianças e adolescentes) o que a vida não oferece lá fora, em casa ou na sociedade.

 

     Quando você estuda, está pegando esse conhecimento e construindo o seu próprio caminho. Está aprendendo a pensar melhor, a entender o mundo, a fazer escolhas mais conscientes.

 

     Estudar nem sempre é divertido, e tudo bem. Nem tudo o que é importante precisa ser divertido. Nem tudo na escola precisa ser divertido. A escola é o lugar onde você treina o seu cérebro, desenvolve sua atenção, sua disciplina e sua capacidade de resolver problemas. É um lugar onde você pode construir amizades para a vida inteira.

 

     Se você quiser ter um bom futuro, com mais oportunidades, precisa começar agora. Leve os estudos a sério. Respeite o ambiente escolar. Aproveite cada aula. Respeite e valorize seus professores. Tudo isso faz diferença.

A escola é para quem quer crescer. E crescer dá trabalho. Mas vale a pena.

 

     1. Autonomia e limites

    Os alunos atuais são frequentemente caracterizados pela sua capacidade de adaptação rápida às mudanças tecnológicas, mas muitas vezes demonstram impaciência e desinteresse pelos estudos. A exposição constante a telas, a estímulos digitais e a valorização de resultados rápidos têm afetado negativamente a concentração e o aprofundamento no aprendizado.

 

     Essa dinâmica, impulsionada pela cultura digital, também reflete uma busca por gratificação instantânea, que contrasta com a natureza gradual do aprendizado acadêmico. Muitos alunos priorizam informações rápidas e superficiais, disponíveis em redes sociais ou plataformas online, em detrimento de análises mais densas e reflexivas. Essa tendência comprovadamente pode comprometer o desenvolvimento de habilidades críticas, como resolução de problemas complexos e pensamento analítico. Além disso, a falta de paciência para processos mais demorados, como a leitura de textos mais longos ou a prática contínua, evidencia a necessidade de estratégias educacionais que equilibrem o uso da tecnologia com o cultivo de disciplina e foco no aprendizado profundo.

Os alunos se tornam o que se comprometem a ser. Ninguém aprende se não quiser. Se o seu compromisso com os estudos for o de crescer como pessoa, expandir como ser social, contribuir e fazer a diferença na sociedade, então está no caminho certo. Um mau hábito de muitos estudantes é não levar os estudos a sério. Perdem seu precioso tempo.

 

    Um verdadeiro aluno, ao adentrar a escola e a sala de aula, deve preocupar-se com três aspectos fundamentais: disciplina, determinação e cooperação. Um aluno é disciplinado quando sabe se organizar para os estudos, colocar todo o seu material em ordem, dividir o seu tempo de acordo com as prioridades; é determinado quando é decidido, firme em seu propósito de estudar; e é cooperador ao colaborar, ao ajudar, ao contribuir, ao atuar juntamente com os colegas e com os professores. As suas atitudes, a sua índole e a sua maneira de ser estão relacionadas aos três aspectos, ou seja, à disciplina, à determinação e à cooperação. Na disciplina percebemos se o aluno tem autocontrole, se sabe a hora certa para cada coisa a fazer, se sabe observar as regras democraticamente pré-estabelecidas na escola e na sala de aula; na determinação conhecemos se o aluno é resoluto, perseverante, se está na escola imbuído do propósito de somar como ser social; na cooperação vemos a expressão da disciplina e da determinação do aluno.

 

     O aluno é disciplinado quando é responsável, sabe definir de forma clara seus direitos e deveres, e sua autonomia não fere a dos colegas e a dos professores. O aluno é determinado quando possui um caráter firme, apesar das limitações como ser humano. O aluno é cooperador quando, mesmo diante das diferenças, está sempre pronto a participar, a ajudar. Um aluno somente será cooperador se for disciplinado e determinado. Sua cooperação nas aulas dependerá de sua disciplina e de sua determinação. Um aluno que não é disciplinado, determinado e cooperador provavelmente pouco ou nada contribuirá para o bom andamento das aulas.

 

     Autonomia tem relação com direitos e deveres, e limites têm relação com valores básicos como respeito e responsabilidade. Ela permite que indivíduos tomem decisões livres, mas exige consciência das consequências de suas escolhas, alinhando-as aos deveres sociais e éticos. Já os limites, fundamentados em valores como respeito mútuo e responsabilidade, garantem que a liberdade de um não prejudique o outro. Essa interação promove uma convivência harmônica, em que a autonomia é exercida com maturidade e os limites são respeitados, fortalecendo a confiança e a cooperação em comunidades e relações interpessoais.

 

     O aluno “geração internet”, que estuda com a televisão ligada, e ao mesmo tempo fala ou passa mensagens pelo celular, bate papo pelo WhatsApp, navega nas redes sociais, e ainda baixa músicas em mp3, responde mensagens ou e-mails, liga o aparelho de som nas maiores alturas, pode ser considerado uma pessoa disciplinada? E como é que consegue se concentrar em uma tarefa? Pior que muitos dessa geração conseguem. Não estou me referindo a comportamento; estou me referindo a método. O que esse tipo de aluno aprende de fato no meio disso tudo? Que contribuição esse aprendizado de Ctrl C - Ctrl V lhe dará na vida? E quem faz suas tarefas é a Inteligência Artificial? E ele sabe usar a IA, sabe pedir alguma coisa a ela, descrever o que deseja? Que tal os alunos aprenderem a utilizar a IA nos estudos no laboratório de informática da escola?

 

     A Inteligência Artificial, como o ChatGPT, o Grok e o Claude, por exemplo, podem ser ferramentas poderosas para pesquisa e aprendizado, mas exige cuidado. O aluno deve sempre formular perguntas claras e específicas para obter respostas mais precisas. Deve verificar as informações em fontes confiáveis, como livros, artigos acadêmicos ou sites oficiais, pois a IA pode gerar dados incorretos ou "alucinações". Deve usar a IA para ideias iniciais, resumos ou explicações, mas não depender exclusivamente dela. Deve comparar respostas com materiais confiáveis e questionar incoerências. Dessa forma, aproveitarão o potencial da IA, mantendo a qualidade e a confiabilidade no aprendizado.

 

     Sabia que a IA pode cometer “alucinações”? Se você não fizer a pergunta certa, da forma certa, ela pode dar uma desinformação qualquer; se você não der o comando certo, da forma certa, ela pode inventar coisas. Para evitar alucinações e garantir precisão, é necessário formular perguntas específicas e bem estruturadas. Perguntas vagas, como "Fale sobre história", podem gerar respostas genéricas ou imprecisas. Em vez disso, pergunte algo como: "Quais foram as principais causas da Segunda Guerra Mundial, com base em fatos históricos?" É uma pergunta ainda simples e pequena, mas reduz a chance de respostas irrelevantes ou inventadas. Repito: você sabia que a Inteligência Artificial inventa respostas? Cuidado. Leia tudo depois de pesquisar na IA. O ideal é que os professores orientem os alunos a sempre pedir à IA para embasar respostas em dados confiáveis, mesmo que o modelo não acesse fontes diretamente. Que conhecimentos, caro aluno, são agregados ao seu intelecto depois de utilizar a IA? Ou foi apenas um monte de informações que lhe bombardearam a mente, sem filtragem, sem seleção do que é lixo e do que não é conveniente? Que contribuição esse aluno dará para a sociedade? A IA está aí para auxiliar nos estudos, não para prejudicar.

 

     Se a função social da escola é conduzir indivíduos à cidadania plena por meio de uma Educação pura para a edificação da sociedade, então a responsabilidade dos alunos é tão grande quanto a dos professores nesse processo. Talvez até maior. Só aprender quem quer aprender. Isso é uma decisão.

 

     A escola é mais do que um prédio com salas de aula. Ela é um ponto de encontro, um espaço de crescimento onde se aprende a viver em sociedade. A função social da escola é justamente essa: guiar os indivíduos para uma cidadania plena, formando pessoas conscientes, críticas e participativas. Nesse percurso, a Educação é a ferramenta principal.

 

     Mas aqui, a gente precisa ser honesto e direto. O professor, por mais dedicado que seja, não pode fazer a viagem sozinho. O papel do aluno, muitas vezes subestimado, é enorme. A responsabilidade dos alunos no processo de aprendizagem é tão grande quanto a dos professores. Aliás, talvez seja até maior.

 

     Ninguém aprende se não quiser aprender. O conhecimento não é algo que a gente consome passivamente, como se estivéssemos assistindo a um filme. Aprender é uma ação, uma escolha diária. É a decisão de prestar atenção, de fazer perguntas, de pesquisar, de tentar de novo quando se erra. É a decisão de se envolver de corpo e alma.

 

     O nosso desafio, como professores, é criar um ambiente que inspire essa decisão. Precisamos mostrar aos alunos que o conhecimento não está distante, mas que ele é a chave para entender e transformar o mundo em que vivem. É nosso dever abrir as portas e mostrar os caminhos, mas quem decide caminhar por eles é o aluno. E haja desafio!

 

     No entanto, é fundamental que a gente pare de romantizar essa ideia. Muitas vezes, a realidade é que os alunos não têm as ferramentas ou o apoio necessário para tomar essa decisão – podem questionar alguns. − A estrutura da escola, a falta de recursos, a pressão por resultados, e a desigualdade social, que molda a vida de muitos estudantes são barreiras reais. Mas o aluno tem a ferramenta da decisão, da escolha, da atitude. A partir do ensino fundamental II isso já pode ser cobrado. Dizer que só aprende quem quer, ignorando todo o contexto que dificulta o querer, é, na verdade, uma forma de transferir a culpa e aliviar a nossa responsabilidade coletiva – retrucam outros. É verdade. Precisamos de um sistema que não apenas espere que o aluno queira, mas que crie as condições para que esse querer seja possível para todos, sem exceção. Porém, tirar a responsabilidade do aluno é romantizar mais ainda. E o resultado está aí.

 

     Assim, não justifica frequentar a escola durante muitos anos se o que se fez nela não desembocar em uma vida de amadurecimento, de sabedoria, mais justa, equitativa e pacífica em sociedade. E os professores não dão conta de tudo. Não sou de passar a mão em cabeça de aluno.

 

  1. O que motiva o aluno a estudar?

     A maioria das pessoas na sociedade tem um entendimento equivocado sobre aquilo que motiva um aluno a frequentar uma escola por mais de uma década, e depois mais alguns anos na faculdade. Qual é a verdadeira motivação de nossas crianças e adolescentes para permanecerem na escola? O que provoca ou desperta o interesse dos alunos para o aprendizado?

 

     Algumas pessoas dizem que as escolas precisam ter atrativos para os alunos desejarem ir estudar. Atrativos são para clubes, locais de lazer; escola é lugar de estudar, de aprender. Pitombas para atrativos. O que a escola precisa oferecer é excelência no ensino, professores qualificados e um ambiente propício à concentração e ao desenvolvimento intelectual. O desejo de aprender deve ser intrínseco, motivado pela qualidade do que é oferecido, e não por distrações que desvirtuam o propósito central da Educação.

 

     Fala-se em transformar escolas em espaços “atraentes”, como se o problema da Educação fosse a falta de entretenimento. Escola não é parque de diversões, é lugar de formar mentes, de ensinar a pensar, não de seduzir com firulas. O que falta é investimento sério: professores bem pagos, infraestrutura digna e um currículo que desafie o intelecto, não que mime alunos com distrações. A verdadeira motivação vem do respeito ao aprendizado, não de malabarismos para “cativar”. Será que precisamos mesmo de escolas que parecem shoppings para ensinar algo relevante?

 

     Um pequeno parêntese para diferenciar motivação e estímulo. Motivação é a força interna que impulsiona a ação em busca de objetivos. Estímulo é o fator externo que provoca uma reação. Motivar envolve inspirar internamente, gerando um desejo contínuo. Estimular é provocar uma resposta imediata por meio de incentivos externos. Ambos são cruciais, mas diferem em origem e duração. Dessa forma, o que os professores podem fazer é estimular os alunos a estudarem, a participarem das aulas. A motivação parte do próprio aluno.

 

     Vamos analisar, primeiramente, essa motivação sob quatro aspectos negativos. Primeiro, a motivação não deve ser a ascensão social. Quem frequenta uma escola e uma faculdade pensando apenas em ascender socialmente possui uma mentalidade medíocre e egoísta. Já se foi o tempo em que se pensava assim. A ascensão social é simplesmente uma das muitas consequências dos estudos escolares. Em segundo lugar, a motivação não deve ser a profissão. Esse também é um pensamento limitado. Terceiro, a motivação não deve ser a obtenção de um diploma. E em quarto lugar, a motivação não deve ser adquirir conhecimento para tornar-se mais culto; essa também é apenas uma das consequências. Esses quatro aspectos são justos, mas, por si mesmos, estão muito aquém do valor da Educação escolar.

 

     Servir a sociedade em vida é o primeiro objetivo da Educação escolar, e essa deve ser a principal motivação dos alunos em relação aos estudos. E só pode servir a sociedade se o indivíduo estiver capacitado para tal. É semelhante a amar o próximo como a si mesmo. O estudante precisa ter em mente, acima de tudo, sua condução à cidadania plena para a edificação de uma sociedade mais justa, equitativa e mais pacífica. Isso ele o faz sendo um cidadão íntegro e solidário, um profissional competente, responsável naquilo que exerce.

 

     3. Respostas eficazes [ou quase] para os problemas na sala de aula

   Em relação aos problemas de indisciplina, desinteresse, dificuldade no aprendizado, conversas paralelas, desrespeito aos professores, uso do celular fora de hora (agora em desobediência à lei), o aluno precisa atentar para a pergunta correta.

 

            As perguntas erradas:

  • O que pode me fazer um aluno melhor?
  • O que pode me ajudar a aprender mais?

            As perguntas corretas:

  • O que está me impedindo de ser um aluno melhor?
  • O que está me impedindo de aprender mais?

 

     4. O caráter democrático do ato educativo

    A Educação recebida na escola é consumada na sociedade. A da família também. Mas interessa-nos aqui a escola. Uma criança ou um adolescente podem ser conformados ou deformados na vida da escola. Ambos estão errados. A função da escola não é padronizar os alunos. Os alunos não devem ser moldados pela escola. Se um sistema educacional se propõe a moldar os alunos ou a mente dos alunos de acordo com suas ideologias, suas teorias pedagógicas, ele pode ser tudo, menos um instrumento da Educação. Ser conformado significa adotar estilos, padrões sociais e culturais sem questioná-los. É entrar na forma. Tudo isso é exterior ao indivíduo.

 

     Entretanto, a verdadeira Educação escolar provoca uma mudança e um crescimento interiores conscientes, possibilitando ao indivíduo um discernimento racional pleno; o aluno aprende a pensar por ele mesmo, e a analisar e refletir sobre os seus pontos de vista e os de outrem. O aluno se torna livre em seu pensar e apto a entender e a compreender quaisquer fatos, situações e conflitos na história, independentemente do contexto, com a possibilidade de uma análise ampla, imparcial, reflexiva. E tudo isso não faz sentido algum se não desembocar na vida prática adequada da sociedade, contribuindo para torná-la melhor tanto como cidadão quanto como profissional. E essa prática adequada tem alguns aspectos a serem considerados pela escola: altruísmo, individualidade, interdependência e habilidade. Isso se obtém por meio dos conteúdos das diversas disciplinas, mas não como temas transversais.

 

     Para viver uma vida social adequada − ou melhor, construirmos uma sociedade adequada −, preciso deixar de lado o egoísmo e ser altruísta; entender que cada indivíduo tem uma função social diferente; perceber que, mesmo sendo muitos, vivemos em “uma” sociedade, e não em várias sociedades, e por isso somos interdependentes, e não seres e cidadãos completos; compreender que as habilidades variam de indivíduo para indivíduo e que todas elas são úteis à sociedade, pois elas se completam e se autocompletam. Esses quatro aspectos são necessários para a vida em sociedade, para sua edificação. E quanto menos desenvolvidos na escola, menos o serão na sociedade. A escola que não passa isso para seus alunos por meio do conhecimento é improdutiva, e, para ser mais radical, nociva à sociedade. Todos os conteúdos trabalhados em sala de aula pelos professores devem passar por esses quatro aspectos, pois a consumação última do trabalho na sala de aula é a vida em sociedade. No mais, tudo perde o sentido. Aqui focamos mais na escola; a família é outro assunto.

 

     Os alunos passam por um longo processo desde quando entram na escola até se formarem em uma faculdade. Nesse processo, sofrem influência de seus professores em todos os sentidos. Infelizmente, não há teoria pedagógica neutra [nem professor neutro] e, consequentemente, escola neutra. Cada governo quer inculcar sua ideologia na sociedade usando a Educação como instrumento. É justamente por isso que um professor deve se preocupar com sua integridade. A integridade ou a falta dela determina a prática de vida. A prática de vida dos indivíduos relaciona-se com e interfere na vida em sociedade. Isso vale também para a sala de aula. A prática de vida não é somente para o indivíduo, é também para a comunidade na qual ele está inserido. Portanto, o aspecto principal da conduta de um professor e de seus alunos é a vida em sociedade. A Educação escolar visa à prática de vida e a prática de vida é bastante orientada na sala de aula. A vida diária de um professor e de seus alunos é tanto parte da vida na sociedade quanto na escola.

 

    No cotidiano da escola, é comum ouvir de estudantes a pergunta: “Para que serve isso na vida?” Esse questionamento, longe de ser uma simples dúvida, revela uma inquietação legítima [ou apenas para encher o saco] sobre o sentido do que se aprende. Diante disso, é papel fundamental da Educação Básica promover uma formação crítica e cidadã, que conecte os conteúdos escolares às vivências sociais, profissionais e culturais dos alunos, tornando a aprendizagem significativa, contextualizada e aplicável.

 

     Quando um estudante compreende que o conhecimento matemático não está restrito à sala de aula, mas presente no cálculo de descontos no comércio ou na elaboração de um orçamento familiar, ele passa a enxergar sentido no que aprende. O mesmo se aplica à Língua Portuguesa, essencial na interpretação de leis, contratos e instruções (inclusive bulas de remédios), habilidades indispensáveis em diversas profissões e também na participação política ativa. Da mesma forma, a Geografia se revela ao se compreender o impacto do clima no cultivo de alimentos ou ao ler mapas e coordenar rotas na logística; saber por que acontece aquela erosão na rua do bairro; como ocorrem as inundações nas cidades. A História oferece ferramentas para interpretar criticamente os acontecimentos atuais, reconhecendo causas e consequências que moldam a sociedade. Já as Ciências possibilitam a compreensão do corpo humano, da prevenção de doenças e da sustentabilidade, fundamentais para a vida e para profissões na saúde, no meio ambiente e na indústria.

 

    Projetos pedagógicos que incentivam os alunos a atuarem como jovens pesquisadores comunitários transformam o processo de aprendizagem. Ao investigar, por exemplo, como uma enfermeira utiliza conhecimentos de Ciências e Matemática em sua rotina ou como um comerciante aplica porcentagens e argumentação persuasiva, os estudantes desenvolvem autonomia, senso crítico e habilidades de pesquisa, ao mesmo tempo em que fortalecem o vínculo entre escola e realidade.

 

     Dessa forma, a escola cumpre sua função social ao preparar o aluno não apenas para avaliações escolares, mas para o exercício da cidadania e da vida em sociedade. A resposta à pergunta “para que serve isso na vida?” está, portanto, no reconhecimento de que cada conteúdo aprendido é uma ferramenta de leitura do mundo, uma ponte entre o saber e a ação, entre a escola e a vida real.

 

     Os alunos precisam ter a consciência de que o propósito da escola é formar cidadãos completos por meio de uma Educação plena, e que o peso maior desse processo para essa formação se dá na sala de aula. E nesse processo, professor, alunos, conteúdo e prática de vida são totalmente inseparáveis, assim como o ensino e a aprendizagem o são.

 

     O processo ensino-aprendizagem não deve ter como foco principal nem o professor nem o aluno nem o conteúdo; o processo ensino-aprendizagem deve ter como foco principal a aula em si, pois a motivação central da aula é a prática de vida em sociedade. Lascou, lá vêm mais pedras para a construção de meu castelo. O professor, o aluno e o conteúdo formam a estrutura desse processo. Se sem aluno não pode existir escola, sala de aula e ensino-aprendizagem, a mesma coisa podemos afirmar em relação ao professor e ao conteúdo. Os três são peças-chave, e nada pode existir e se concretizar na Educação escolar sem um deles. Portanto, o foco principal do ensino-aprendizagem não é o aluno. O aluno apenas integra o processo. Portanto, sem essa de ensino centrado no aluno [que não está nem aí para isso] e o professor como facilitador ou mediador. Só teoria. Modismos pedagógicos.

 

     Por conseguinte, o ato educativo democrático ocorre pela interlocução entre o professor e aluno em torno do conteúdo da disciplina em questão; e conteúdo contextualizado, que fique bem claro. A contextualização do conteúdo é um dos aspectos do ato educativo democrático, e visa a prática de vida em sociedade. É a partir daí que o conhecimento é gerado.

 

     O ato educativo democrático deve ser considerado sob quatro aspectos: a habilidade de comunicação, o conteúdo contextualizado, a interrelação teoria e prática, e a disciplina.

 

     A relação pedagógica somente pode ser efetiva quando há interdependência comunicativa entre o professor e o aluno, ambos se intercalando ora como emissor ora como receptor. O emissor codifica e o receptor descodifica a mensagem, tendo como base o raciocínio, fundamental no processo de ensino-aprendizagem. As habilidades comunicativas são a coluna que sustenta a relação pedagógica. Por isso, é necessário uma didática dialógica e vocabulário adequados, organizar corretamente as palavras nas frases, boa pronúncia e, acima de tudo, procurar interpretar as mensagens sem interferências de ruídos, que são tudo aquilo que prejudica uma boa comunicação.

 

     O segundo aspecto é o conteúdo contextualizado. Se descontextualizado e desvinculado da prática, o conteúdo torna-se apenas um acúmulo de informações. O conteúdo de uma disciplina deve ser experimentado e experienciado como algo interessante e útil para o viver diário do aluno – seja no presente ou no futuro. Para que o aprendizado se concretize, o aluno precisa saber aplicar o conteúdo na prática de sua vida diária, experimentar. É provável que, dada a diversidade social e profissional, alguns nem venham a ser utilizados.

 

     O terceiro aspecto é a interrelação teoria e prática. Aqui devem ser levados em consideração, além dos canais sensoriais visual e auditivo, também os canais sensoriais cinestésicos. Todos nós aprendemos com mais facilidade aquilo que praticamos. Teoria e prática são inseparáveis no processo ensino-aprendizagem. E vale colocar aqui, entre outras coisas, que tarefa de casa nunca matou ninguém. Tarefa de casa faz bem para o cérebro e reforça o aprendizado.

 

     E o quarto aspecto do ato educativo democrático é a disciplina. E não estou me referindo aqui a comportamento, mas a método, constância. Para que o ensino-aprendizagem se efetive é necessário que se tenha ordem, regularidade e perseverança, procedimentos essenciais para se atingir os objetivos na sala de aula. Aplicação, empenho, dedicação e organização são formas de disciplina utilizadas pelo bom estudante. Pense nisso.

 

     Portanto, sem uma boa comunicação entre professores e alunos, sem conteúdos contextualizados, sem uma interrelação teoria e prática e sem disciplina não há ato educativo, e muito menos democrático. A sala de aula, nesse caso, não passa de um agrupamento de pessoas sem fins específicos.

 

     5. A participação de alunos em projetos

    Os alunos necessitam participar de projetos desenvolvidos individualmente por seus professores e pela escola como um todo. A importância dos primeiros é que estão diretamente relacionados às disciplinas e ao aprendizado de cada conteúdo, pois a finalidade do desenvolvimento de projetos nesse caso é aliar a teoria e a prática, desembocando em conhecimento.

 

     É também de suma importância que os alunos participem, de forma democrática, da escolha das atividades a serem desenvolvidas nesses projetos e seus respectivos temas.

 

     Os projetos, como já mencionamos anteriormente, devem ser contextualizados, práticos e complementarem os conteúdos estudados nas disciplinas em questão.

 

     Os alunos de nossas escolas públicas têm adquirido conhecimento ao longo das gerações, ou apenas acumulado informação? Creio que, em alguns casos, não um conhecimento pleno, tendo ficado apenas no âmbito de informação, não se transformando em sabedoria para a prática de vida em sociedade. Para que o conhecimento se torne sabedoria para a prática de vida, é necessário que passe pelo entendimento, pela interpretação e pelo discernimento. Esses três fatores são fundamentais para que o conhecimento deixe de ser apenas informação e atinja o nível mais elevado, a sabedoria.

 

     O entendimento é a capacidade de compreender os conteúdos literalmente. A interpretação é o ato ou efeito de explicar, avaliar o sentido e reproduzir o pensamento dos conteúdos. Discernimento é a capacidade de avaliar a intenção, de estabelecer a diferença, de distinguir com pensamento analítico-reflexivo os conteúdos, como um filtro das informações diversas que lhes são apresentadas. Uma vez havido o entendimento, ocorrida a interpretação e aplicado o discernimento às informações, elas se transformam em conhecimento e em sabedoria, e serão úteis e benéficas à vida prática do indivíduo, tanto pessoal quanto profissional e social. A participação em projetos pedagógicos é fundamental nesse processo.

 

     O que é discernimento e por que vocês precisam desenvolver essa habilidade? Galera, vocês já pararam para pensar na quantidade absurda de informações que recebem todos os dias? TikTok, Instagram, YouTube, notícias, aulas, conversas com amigos... É muita coisa, né?

 

     Discernimento é sua habilidade de separar o joio do trigo. É como ter um detector de fake news interno que funciona para tudo na vida. Quando vocês desenvolvem discernimento, conseguem: identificar se uma informação é confiável ou não; perceber quando alguém está tentando manipular vocês; distinguir entre opinião e fato; avaliar se vale a pena acreditar em algo que viram na internet.

 

     E como isso funciona na prática? Imaginem que vocês viram um vídeo dizendo que beber água gelada faz mal. O discernimento faz vocês pensarem: "Quem postou isso? Tem fonte científica? Faz sentido biologicamente?" Em vez de só compartilhar porque "parece verdade".

 

     O processo acontece assim: vocês captam a informação (entendimento), analisam o que ela significa (interpretação), filtram se é válida ou não (discernimento) e guardam apenas o que realmente serve (conhecimento).

 

     Por que projetos pedagógicos ajudam nisso? Porque vocês praticam essas habilidades de forma concreta. Quando fazem uma pesquisa, um debate ou um experimento, estão treinando o cérebro para questionar, comparar fontes e formar opiniões fundamentadas.

 

     Discernimento não é paranoia. É inteligência aplicada. É a diferença entre ser alguém que engole qualquer informação e alguém que pensa criticamente sobre o mundo. É a diferença entre ser alguém que corre atrás de político e alguém que não tem político de estimação. Uma dica prática: sempre que receberem uma informação importante, façam três perguntas: "Quem disse isso?", "Por que essa pessoa diria isso?" e "Isso faz sentido com o que eu já sei?".

 

     Desenvolvam essa habilidade agora. Ela vai ser seu superpoder para a vida toda.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PROPOSTA PEDAGÓGICA COM PROPÓSITOS

 

      Até agora, abordei a escola pública sob três aspectos: a gestão, que é o motor cuja força faz com que ela caminhe de forma plena e ativa; o corpo docente, que é o mecanismo que estabelece a sua velocidade; e o corpo discente, que são aqueles que frequentam a escola e por ela são direcionados a uma cidadania plena para a vida prática em sociedade. O quarto aspecto é a Proposta Pedagógica, que é o elo sem o qual os demais aspectos não podem funcionar de forma conjunta para cumprirem seus objetivos. A Proposta Pedagógica é o combustível, o sangue que dá vida ao trabalho realizado na e pela escola com a gestão, o corpo docente e o corpo discente. A Proposta Pedagógica é o elo vital da ação educativa.

 

     Dando continuidade ao meu humilde raciocínio, é imperativo reforçar que o quarto aspecto, a Proposta Pedagógica é o elo sem o qual os demais aspectos não podem funcionar de forma conjunta para cumprirem seus objetivos. A Proposta Pedagógica é o combustível, o sangue que dá vida ao trabalho realizado na e pela escola com a gestão, o corpo docente e o corpo discente. Ela é a força motriz que une todos os esforços em prol de um objetivo comum.

 

     Mas, afinal, o que é uma Proposta Pedagógica?

 

     A Proposta Pedagógica, muitas vezes referida como Projeto Político Pedagógico (PPP), é um documento fundamental que guia todas as ações de uma instituição de ensino. Ela nasce de um processo colaborativo e reflexivo, envolvendo toda a comunidade escolar: professores, gestores, funcionários, pais e alunos. Mais do que um conjunto de regras, a Proposta Pedagógica expressa a identidade da escola, seus valores, seus princípios educacionais e seus objetivos.

 

     Em síntese, a Proposta Pedagógica é a base filosófica e metodológica que estabelece:

  • O propósito da Educação: Quais são os objetivos da escola em relação à formação integral dos alunos?
  • O conteúdo a ser ensinado: Quais conhecimentos são essenciais e como serão abordados?
  • As estratégias de ensino: Quais metodologias, abordagens e recursos serão empregados?
  • Os métodos de avaliação: Quais critérios e instrumentos serão utilizados para acompanhar o progresso dos alunos?
  • A participação da comunidade: Como a família e a sociedade se integrarão ao processo educativo?

     Uma Proposta Pedagógica eficaz não deve ser um documento estático. Pelo contrário, ela precisa ser viva, dinâmica e constantemente revisada, adaptando-se às necessidades da comunidade escolar e às novas demandas da sociedade. Enfatizo aqui que ela não é voltada para o mercado de trabalho.

Quando falo em uma Proposta Pedagógica com Propósito, elevo a discussão a um patamar superior. Não se trata apenas de ter um documento que liste as intenções da escola, mas de possuir um norte que, de fato, inspire e impulsione a transformação educacional.

 

     Uma Proposta Pedagógica com propósito significa que a escola tem uma função clara e impactante, que transcende o currículo formal. Ela cada aspecto da vida escolar. Ela se manifesta na escolha dos projetos pedagógicos, nas atividades complementares, na maneira como os conflitos são gerenciados, no tipo de relação estabelecida entre alunos e professores, e na forma como a comunidade é envolvida.

Para o professor, atuar em uma escola com uma Proposta Pedagógica com Propósito confere um significado mais profundo ao seu trabalho. Significa compreender que cada aula, cada interação e cada projeto contribuem para a formação de seres humanos completos, com potencial para transformar a si mesmos e o mundo ao seu redor. É a convicção de que a Educação não é apenas um caminho para o sucesso profissional, mas uma jornada de autodescoberta e de impacto positivo na sociedade.

 

     Ao abraçarmos e vivenciarmos uma Proposta Pedagógica com Propósito, estamos construindo escolas que não apenas ensinam, mas que verdadeiramente inspiram, engajam e transformam. Em sua prática, como você percebe a atuação da Proposta Pedagógica da sua escola?

 

     Quando reunimos os três primeiros aspectos com a interligação feita entre eles pela proposta pedagógica, aí temos de fato a escola, a expressão concreta desse organismo vivo mais importante e fundamental para o crescimento do país e a edificação da nação.

 

     1. A autonomia da Proposta Pedagógica

    A construção da Proposta Pedagógica de uma escola inicia-se com o diagnóstico, que é o levantamento de dados relacionados às áreas pedagógica, administrativa e financeira, o qual é realizado por meio de pesquisas, reuniões, questionários, tanto com a participação da equipe escolar quanto da comunidade. Todos contribuem de forma democrática.

 

     A autonomia da Proposta Pedagógica encontra-se no fato de que é construída total e unicamente voltada para a realidade da escola, partindo dos princípios de uma gestão democrática, em que a liberdade, a igualdade e a qualidade visam à formação para a cidadania, ou seja, a vida prática em sociedade, não de indivíduos isolados, mas pela interrelação de seres sociais.

 

     A Proposta Pedagógica se caracteriza pela sua autonomia porque sua elaboração passa por momentos de reflexão da comunidade escolar, de forma participativa, e pela sua implementação como forma de conquista da autonomia da escola a partir de seu autoconhecimento, sempre com vistas à qualidade do ensino-aprendizagem.

 

     2. O que motiva a existência da Proposta Pedagógica?

    A Proposta Pedagógica de uma escola não deve sofrer influências de ideologias, pois elas imbecilizam e alienam os indivíduos e corrompem as instituições, nem influências das tendências pedagógicas, as quais geralmente interferem negativamente no processo de ensino-aprendizagem.

 

     Enfatizando novamente, a Proposta Pedagógica, muitas vezes chamada de Projeto Político Pedagógico (PPP), é o coração de qualquer instituição de ensino. Ela não é apenas um documento burocrático; é o mapa que guia a jornada educacional de uma escola, definindo sua identidade, seus propósitos e o caminho para alcançar seus objetivos. Sua existência é motivada por uma série de fatores interligados, ancorados na legislação educacional brasileira e em sólidas bases científicas da pedagogia.

 

     

     A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), homologada em 2017 e implementada a partir de 2020, é um dos principais motivadores da Proposta Pedagógica. A BNCC não é um currículo em si, mas um conjunto de aprendizagens essenciais que todos os alunos da Educação Básica devem desenvolver. Ela estabelece direitos de aprendizagem e competências gerais que permeiam todas as áreas do conhecimento e etapas de ensino.

 

     Nesse contexto, a Proposta Pedagógica de uma escola se torna o instrumento pelo qual a instituição traduz e contextualiza as diretrizes da BNCC para sua realidade específica. Ela deve detalhar como a escola garantirá que os alunos alcancem as competências e habilidades propostas pela Base, considerando seu público, sua localização e seus recursos. A BNCC motiva a Proposta Pedagógica ao exigir que cada escola: defina seu currículo, promova uma Educação integral e assegure a equidade.

 

     Além da BNCC, a Proposta Pedagógica é profundamente motivada por estudos científicos em Educação que apontam para a necessidade de uma abordagem planejada e contextualizada do ensino. Diversos artigos científicos contribuem para a compreensão da importância desse documento. Estudos sobre gestão escolar demonstram que escolas com maior engajamento da comunidade escolar (professores, funcionários, pais e alunos) tendem a apresentar melhores resultados. A própria elaboração da Proposta Pedagógica é um exercício de gestão democrática, onde as vozes de todos os envolvidos são consideradas. Isso motiva a existência do documento como um reflexo de uma gestão transparente e participativa.

 

     Finalmente, a Proposta Pedagógica motiva sua existência como um elemento fundamental para a coerência e a identidade da escola. Ela garante que todos os membros da equipe escolar (professores, coordenadores, diretores) compartilhem uma visão comum sobre os objetivos educacionais, as metodologias de ensino e os valores que norteiam a instituição. Sem esse documento, cada professor poderia atuar de forma isolada, sem uma direção pedagógica unificada, o que prejudicaria a qualidade e a continuidade do processo de aprendizagem dos alunos.

Para as famílias, a Proposta Pedagógica serve como um contrato social e educacional. Ela esclarece a proposta da escola, permitindo que os pais compreendam a filosofia, os métodos e as expectativas da instituição, facilitando a parceria entre escola e família no processo de desenvolvimento dos estudantes.

 

     A Proposta Pedagógica, portanto, é muito mais que um documento formal. Ela é o resultado de uma reflexão profunda sobre o papel da educação na sociedade, embasada nas diretrizes da BNCC e nas contribuições da pesquisa científica em Educação. Ela motiva a ação pedagógica, a gestão democrática e a construção de uma identidade escolar sólida, garantindo que a escola esteja sempre focada em seu propósito maior: o desenvolvimento pleno de cada aluno.

 

     A contribuição da equipe escolar para a formação integral do aluno para a prática de vida em sociedade deve estar em mente quando da elaboração da Proposta Pedagógica. Assim, a elaboração ou a reconstrução da Proposta Pedagógica precisa estar voltada necessariamente para a organização da vida escolar, a melhoria das práticas pedagógicas, dando-lhes sentido com a quebra de rotinas, contextualização de conteúdos, desenvolvimento de projetos, ou seja, deve possibilitar uma mudança bastante significativa na escola.

 

     A elaboração da Proposta Pedagógica não pode ser vista apenas como o cumprimento de uma formalidade, mas como a possibilidade de crescimento a partir dos diversos e ricos momentos de reflexão. Portanto, ela não deve ir para uma gaveta depois de elaborada.

 

    Você concorda que a Proposta Pedagógica é um catalisador para a transformação educacional? Sim, a Proposta Pedagógica é um catalisador da transformação educacional.

 

     A Proposta Pedagógica não é apenas um documento obrigatório que fica arquivado na secretaria da escola. Ela funciona como um catalisador real da transformação educacional quando sai do papel e vira ação concreta no cotidiano escolar.

 

     3. A Proposta Pedagógica e a prática escolar

     Uma Proposta Pedagógica bem construída estabelece a identidade da escola e define seu DNA pedagógico. Ela conecta teoria e prática, alinhando objetivos educacionais com estratégias específicas para alcançá-los. É o GPS que orienta toda a comunidade escolar na mesma direção.

 

     A transformação acontece porque a PP “obriga” a escola a se olhar no espelho. Força reflexões sobre: Que estudante queremos formar? Como nossa prática pedagógica dialoga com as necessidades reais dos alunos? Quais metodologias funcionam melhor para nosso contexto?

 

     No entanto, a sua implementação é o verdadeiro desafio. Depois de elaborada, a escola precisa mover montanhas para tirar a PP do papel. Primeiro passo: formação continuada de toda a equipe. Todos precisam conhecer profundamente o documento e entender seu papel na execução.

 

     A gestão pedagógica deve criar cronogramas específicos para implementar cada estratégia proposta. Não dá para querer implementar tudo de uma vez. É preciso priorizar ações, definir responsáveis e estabelecer prazos realistas:

 

Monitoramento e avaliação constantes

     

     A PP viva exige acompanhamento sistemático. A coordenação pedagógica deve criar indicadores para medir se as estratégias estão funcionando. Reuniões pedagógicas regulares para discutir resultados, ajustar rotas e celebrar conquistas são fundamentais.

 

     Os dados de aprendizagem dos estudantes devem dialogar com as propostas da PP. Se os resultados não melhoram, é hora de revisar estratégias, não jogar a culpa nos alunos. As práticas pedagógicas devem coadunar com os objetivos da Proposta Pedagógica − ou seja, as práticas precisam estar alinhadas e em sintonia com o que está proposto no documento.

 

     Ela deve encetar o envolvimento de toda a comunidade. A transformação só acontece quando a PP envolve professores, estudantes, famílias e funcionários. Cada grupo precisa entender seu papel no processo. Comunicação clara e canais de feedback são essenciais.

 

     Estudantes com TEA e TDAH, por exemplo, precisam ver suas necessidades específicas contempladas na PP e, principalmente, nas práticas diárias. Adaptações curriculares, metodologias diferenciadas e avaliações inclusivas devem estar detalhadas no documento e implementadas na sala de aula.

 

     Uma PP transformadora não é estática. Ela evolui conforme a escola cresce e enfrenta novos desafios. Revisões anuais são necessárias para ajustar estratégias que não funcionaram e incorporar novas demandas.

A escola que transforma é aquela que usa sua Proposta Pedagógica como bússola diária, não como documento decorativo. É na implementação consistente, no monitoramento rigoroso e na flexibilidade para ajustes que a verdadeira transformação educacional acontece.

 

     A implementação da Proposta Pedagógica em uma escola apara arestas, constrói e reconstrói relacionamentos, reorganiza as práticas pedagógicas, reorienta o desenvolvimento educativo, incrementa as relações teórico-práticas e democratiza a gestão.

 

     A prática escolar passa pelo compromisso de um trabalho coletivo com o fim exclusivo de preparar cidadãos em sua plenitude para a vida prática e a construção de uma sociedade justa, equitativa e pacífica. Pelo menos teoricamente. Infelizmente, em boa parte das escolas públicas, a PP fica engavetada e, como foi elaborada pela direção e coordenação pedagógica, os professores não têm conhecimento do que ela diz.

 

     A construção e a implementação da Proposta Pedagógica na escola precisam partir da prática democrática, com a tomada de decisões coletivas. Nesse sentido, a participação dos pais e da comunidade é de suma importância. Todos precisam estar envolvidos e comprometidos em participar ativamente do processo.

 

     Se os pais e a comunidade se interessam de fato por uma Educação de qualidade, que forme seres humanos pensantes, devem eles mesmos proporcionar condições dignas de trabalho aos professores de seus filhos, e isso começa em sua participação na elaboração da proposta pedagógica de forma séria, responsável e compromissada. Esse é o papel de uma comunidade esclarecida, pois todas as profissões e toda a cultura se assentam nas mãos dos professores.

 

     A Proposta Pedagógica voltada para a prática escolar tem como objetivo uma Educação pautada no diálogo, em que todos possam desempenhar o papel de atores no processo educativo, oportunizando o crescimento diário dos alunos, crescimento esse que possa desembocar em uma mudança positiva na sociedade de forma impactante, perceptível, maciça. E os alunos colaboram com isso que é uma maravilha. Os professores, nem se fala. É um verdadeiro paraíso na terra.

 

     Nenhum valor tem uma Proposta Pedagógica que, uma vez construída e implementada, não interfira de maneira concreta, substantiva e plausível na prática escolar, com vistas ao bom desempenho, à cooperação e satisfação de todos.

 

     4. Proposta Pedagógica e contextualização

     A Educação escolar básica não pode se resumir no afunilamento de vastos conteúdos disciplinares despejado na cabeça dos alunos. Não estou aqui criticando, como muitos o fazem, com ou sem fundamento, os conteúdos.

     

     Eles são importantes, pois é por meio deles que se trabalha o conhecimento e capacita os estudantes a pensar. Conforme já mencionei em outro capítulo, uma escola excessivamente conteudista contribui para a desordem interior dos indivíduos. O conteúdo somente pode ser compreendido em sua plenitude por meio da prática e da experiência.

 

     A Proposta Pedagógica precisa proporcionar a integração entre a teoria e a prática, incentivando e possibilitando aos professores a contextualização dos conteúdos, para que possam ser experimentados como algo interessante e útil para o viver diário dos alunos. Os conteúdos escolares só fazem sentido se permitir-lhes buscar, de forma inteligente, soluções para os problemas que a vida lhes apresentar no viver diário em sociedade.

 

     A prática advinda de conteúdos contextualizados conduz os alunos ao aprendizado efetivo, pois o conteúdo somente pode ser compreendido por meio da prática e da experiência.

 

     No entanto, acontece bastante o drama das Propostas Pedagógicas fantasmas.  Infelizmente, a realidade de muitas escolas brasileiras expõe uma hipocrisia pedagógica preocupante. Elaboram-se Propostas Pedagógicas sofisticadas (muitas vezes a quatro mãos), recheadas de teorias modernas e metodologias inovadoras, apenas para cumprir exigências burocráticas e impressionar supervisores. Uma vez aprovadas e protocoladas, essas PPs são sumariamente engavetadas, virando documentos mortos que nunca saem da secretaria ou coordenação.

 

     O resultado é devastador: professores trabalham sem norte pedagógico real. A maioria sequer conhece o conteúdo da PP da própria escola onde leciona. Pergunta-se a um docente sobre as diretrizes metodológicas de sua instituição e a resposta é constrangedora: "Não sei, nunca li esse documento". Eu mesmo, lecionei por quarenta anos, e vi um PPP apenas uma vez, em uma das escolas em que trabalhei. Isso foi na década de 1990. Nunca vi o PPP de uma escola privada na qual trabalhei.

 

     Essa desconexão entre o que está escrito e o que acontece na sala de aula perpetua práticas pedagógicas ultrapassadas. Professores continuam despejando conteúdos descontextualizados enquanto a PP, guardada na gaveta, propõe metodologias ativas e aprendizagem significativa. É uma esquizofrenia institucional que prejudica diretamente a qualidade do ensino.

 

     E as consequência dessa incoerência? Quando a escola funciona com essa duplicidade, os estudantes são os maiores prejudicados. Recebem uma Educação fragmentada, sem identidade pedagógica clara. O planejamento vira improviso constante, pois não há diretrizes reais sendo seguidas.

 

     A contextualização dos conteúdos, fundamental para o aprendizado efetivo, vira utopia. Como contextualizar sem direcionamento pedagógico? Como integrar teoria e prática se cada professor segue sua própria metodologia, ignorando completamente a proposta institucional?

 

     Essa realidade transforma escolas em espaços de reprodução mecânica de conhecimento, exatamente o oposto do que uma PP bem implementada deveria promover.

 

     5. A Proposta Pedagógica e a experiência prática dos alunos

    Na vida escolar, o intelecto é necessário, o raciocínio é importante, a formulação de conceitos pela mente é fundamental. Pensar é uma das funções do córtex cerebral. Entretanto, não basta ter a noção de coisas, seres e fatos: é preciso conhecer pela experiência e desfrutar do aprendizado. Saber pensar não mata ninguém; liberta da ignorância.

 

     Há duas maneiras de ter conhecimento de algo. Uma é pela informação; a outra é pela experimentação. Não podemos conhecer só de ouvir falar; é preciso que todos os nossos sentidos o percebam.

 

     O verdadeiro aprendizado ultrapassa os limites do intelecto. Há uma diferença enorme entre a prática de vida e o conhecimento intelectual. A primeira revela, enquanto o segundo apenas instrui. O conhecimento intelectual é o conhecimento teórico, desvinculado da prática, do experimento. Desembocado na prática, o conhecimento se transforma em sabedoria. E sabedoria é essencial para a vida.

 

     Portanto, a Proposta Pedagógica deve estar voltada para a prática dos alunos, pois ela é que norteia todo o processo ensino-aprendizagem na escola.

 

     A prática escolar é para a prática de vida em sociedade.

 

  1. As tecnologias na Proposta Pedagógica

  A escola pública é um espaço de transformação social, onde se constrói conhecimento, cidadania e oportunidades. Valorizá-la é reconhecer o papel essencial de seus profissionais e buscar estratégias para fortalecer o processo de ensino-aprendizagem. Nesse cenário, o uso das tecnologias educacionais, com destaque para a Inteligência Artificial (IA), precisa estar previsto na Proposta Pedagógica das instituições, promovendo inovação e qualidade no trabalho docente.

 

     A inclusão de tecnologias na Educação Básica não é uma tendência passageira, mas uma necessidade. E isso não tem mais volta. As ferramentas digitais ampliam as possibilidades de aprendizagem, tornar as aulas mais interativas e facilitar o acesso a conteúdos atualizados e relevantes.

    

   A IA, especificamente, oferece recursos que vão além da simples automatização de tarefas. Ela pode personalizar o ensino, ajustando atividades conforme o ritmo de cada estudante, além de apoiar o professor com análises de desempenho e sugestões de estratégias pedagógicas.

 

     Para isso, é fundamental que a escola valorize esse recurso no seu planejamento pedagógico. A Proposta Pedagógica deve indicar de forma clara como a tecnologia será utilizada para atender às necessidades dos alunos e potencializar o trabalho dos professores.

 

     O uso da IA pode contribuir, por exemplo, nos planos de aula, na correção automática de atividades, no acompanhamento do progresso dos estudantes e até mesmo no suporte emocional, por meio de plataformas que identificam sinais de desmotivação ou ansiedade.

 

     No entanto, para que os benefícios da IA se concretizem, os professores precisam ser capacitados. Não basta disponibilizar ferramentas tecnológicas − é preciso formar profissionais que saibam usá-las com consciência, criticidade e criatividade.

 

    As formações devem abordar não só o aspecto técnico da IA, mas também suas implicações éticas, pedagógicas e sociais. Um professor bem-preparado pode transformar a IA em uma aliada poderosa no enfrentamento das desigualdades educacionais. Os professores necessitam aprender como conversar com a IA, para que obtenham resultados positivos.

 

     Além disso, a capacitação contínua permite que os docentes acompanhem os avanços tecnológicos e se sintam mais confiantes ao integrar essas ferramentas em suas práticas pedagógicas.

Outro ponto importante é garantir que as tecnologias respeitem a autonomia do professor. A IA deve servir de apoio, e não substituir a sensibilidade e o olhar pedagógico únicos de cada professor. Ouvi recentemente, que hoje ninguém precisa ler livro físico. Ledo engano. O bom livro impresso não saiu de moda, de circulação; nem os cadernos e as canetas.

 

     Incluir o uso da IA na Proposta Pedagógica também é uma forma de mostrar que a escola está atenta às demandas contemporâneas, tornando-se mais atrativa e conectada com os interesses dos estudantes.

 

     Assim, investir na formação dos professores e no uso consciente da Inteligência Artificial é investir na valorização da escola pública e na construção de uma Educação mais justa, inovadora e inclusiva.

A inclusão da Inteligência Artificial na Proposta Pedagógica não é mais uma opção futurista, mas uma necessidade atual. A maioria dos estudantes já convive diariamente com essas ferramentas, e a escola precisa orientar esse uso de forma educativa e ética.

 

     A PP deve estabelecer claramente como a IA será integrada ao processo educativo. Não se trata de substituir professores, mas de potencializar o ensino e personalizar a aprendizagem. A IA funciona como ferramenta de apoio pedagógico, ampliando possibilidades de ensino diferenciado. Sua presença não é obrigatória em todas as aulas.

Para estudantes com TEA e TDAH, por exemplo, a IA pode oferecer adaptações instantâneas de conteúdo, exercícios personalizados e feedback imediato, respeitando o ritmo individual de cada aluno.

 

     A PP precisa incluir um código de ética digital específico. Deve abordar questões como privacidade de dados, autenticidade na produção de trabalhos e responsabilidade no uso das ferramentas. Estudantes precisam entender que a IA é parceira no aprendizado, não substituta do pensamento crítico.

 

     Estabeleça regras claras: quando usar, como usar e para que usar. Defina situações em que o uso é permitido, incentivado ou proibido. Transparência é fundamental – os estudantes devem sempre declarar quando utilizaram IA em suas produções. O uso dessa ferramenta não emburrece os alunos, como alegam alguns. Para fazer um trabalho na IA, eles precisam saber escrever o que desejam, que tipo de pesquisa será realizada, detalhar tudo, e depois conferir se está de acordo com o que foi pedido. Nesse caso, inclusive, os professores podem corrigir apenas o prompt que os alunos redigiram para a pesquisa na IA. Por meio dessa redação, eles saberão se o trabalho está de acordo ou não. Fica bem mais fácil e toma menos tempo. Pesquisa realizada de qualquer jeito na IA gera porcaria, e pode vir até a tal “alucinação”. Com todo o respeito ao animal, “burro” é quem discorda e não aprova o uso da Inteligência Artificial.

 

     A PP deve detalhar metodologias específicas para cada área do conhecimento. Em Língua Portuguesa, a IA pode auxiliar na revisão textual e geração de ideias. Em Matemática, oferece resolução passo a passo de problemas complexos. Em História, simula diálogos com personagens históricos.

 

     Crie protocolos de uso progressivo: estudantes dos anos iniciais usam IA para pesquisa orientada, enquanto estudantes do ensino médio podem utilizá-la para análise crítica de dados e produção de conteúdo mais elaborado.

E a formação docente é necessária. A PP deve prever formação continuada obrigatória para todos os professores. Docentes precisam dominar ferramentas básicas de IA educacional antes de orientar estudantes. A escola precisa investir em workshops práticos, não apenas palestras teóricas.

 

     É fundamental estabelecer grupos de estudo internos em que os  professores compartilhem experiências e descobertas. A alfabetização digital docente é pré-requisito para implementação eficaz da IA na Educação. Caso contrário, será uma lambança.

 

     É importante detalhar na PP quais recursos tecnológicos a escola disponibilizará. Definir políticas de acesso equitativo − todos os estudantes devem ter oportunidades iguais de usar IA educacional. Considerar parcerias com empresas de tecnologia educacional também é fundamental.

 

     Atenção: estabeleçam protocolos de segurança digital e backup de dados. A escola precisa garantir ambiente seguro para experimentação tecnológica.

 

     A PP deve incluir critérios específicos para avaliar o impacto da IA no aprendizado, criando indicadores mensuráveis: melhoria no desempenho, aumento do engajamento, desenvolvimento de competências digitais.

 

     Outro detalhe importante: implementar avaliações periódicas do uso da IA. Estudantes, professores e famílias devem ter espaço para feedback sobre a eficácia das ferramentas implementadas. Essa parte é difícil?

 

     A integração da IA deve focar no desenvolvimento de pensamento crítico, criatividade e resolução de problemas. E desenvolver pensamento crítico não é falar mal do governo, como me disse uma diretora de escola pública uma vez, depois de uma palestra que fiz. Os estudantes precisam aprender a questionar respostas da IA, verificar informações e usar a tecnologia de forma criativa. Precisam pensar.

 

     A promoção de projetos interdisciplinares tendo a IA como ferramenta, não protagonista, tem como objetivo formar cidadãos digitalmente competentes, capazes de usar tecnologia para melhorar a sociedade.

A inclusão da IA na PP representa uma evolução natural da Educação contemporânea. Quando bem planejada e implementada, potencializa o aprendizado e prepara estudantes para um futuro tecnológico inevitável. Lembrando que a Inteligência Artificial é produzida por pessoas e manuseada por pessoas.

 

     A escola pública é um pilar essencial da sociedade, e os professores são seus protagonistas. Ao incluir o uso de tecnologias − especialmente da Inteligência Artificial − na Proposta Pedagógica e garantir a formação adequada dos professores, estamos caminhando para uma Educação que valoriza o ser humano, respeita a diversidade e prepara para os desafios do presente e do futuro.

 

  1. A Proposta Pedagógica e a inclusão

   A inclusão escolar é um compromisso ético, pedagógico e social que visa garantir que todos os alunos, independentemente de suas condições físicas, cognitivas ou emocionais, tenham acesso à aprendizagem e ao convívio em um ambiente escolar acolhedor. É na escola pública que se revela o verdadeiro desafio da equidade: atender a diversidade, respeitar as singularidades e valorizar cada estudante. Nesse contexto, o papel do professor é essencial, exigindo formação, sensibilidade e suporte para promover práticas inclusivas significativas.

 

   A inclusão escolar implica oferecer oportunidades igualitárias de aprendizagem para todos os alunos, respeitando suas diferenças e garantindo o direito à Educação. Não se trata apenas de permitir que crianças com necessidades específicas estejam na escola, mas de garantir que estejam efetivamente aprendendo e participando. Isso exige ajustes na prática pedagógica, na organização do espaço e nas relações humanas que se constroem no ambiente escolar. E os professores precisam de apoio.

 

     A presença da inclusão escolar na Proposta Pedagógica da escola é um indicativo de compromisso com a diversidade. Quando essa temática é prevista no planejamento institucional, há maior possibilidade de ações concretas voltadas à construção de um espaço educativo mais justo. Isso demonstra que a escola reconhece as singularidades dos alunos e assume a responsabilidade de garantir o acesso, permanência e sucesso escolar para todos.

 

     Ao incluir a temática da inclusão na Proposta Pedagógica, a escola também incentiva a formação continuada dos professores. A realidade de alunos com diferentes demandas exige do professor não apenas empatia, mas principalmente conhecimento técnico. A formação específica, os espaços para troca de experiências e o apoio institucional são estratégias fundamentais para o fortalecimento do trabalho docente junto à diversidade presente na sala de aula.

 

     Algumas condições que demandam atenção especial dos professores são: autismo, TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade), deficiência intelectual, dislexia, discalculia, ansiedade, depressão, bipolaridade, esquizofrenia, síndrome de Tourette, mutismo seletivo, transtorno de linguagem, Transtorno Opositor Desafiador, entre outros. Cada uma dessas condições exige estratégias pedagógicas que respeitem limites e potencialidades, garantindo inclusão efetiva.

 

     É importante destacar que o professor não precisa dominar todos os aspectos clínicos relacionados às dificuldades dos alunos. No entanto, é fundamental que tenha noções básicas, saiba identificar sinais e busque estratégias didáticas adequadas. Essa postura amplia a qualidade da relação professor-aluno, fortalece a confiança mútua e potencializa o processo de ensino-aprendizagem para todos os envolvidos.

 

     A escola precisa ser um ambiente acolhedor e adaptável, onde cada aluno tenha voz, vez e espaço para desenvolver-se plenamente. Para isso, é essencial que todos os profissionais da escola assumam o compromisso com a inclusão. Coordenadores, gestores, cuidadores e demais funcionários precisam estar envolvidos nesse processo, promovendo ações conjuntas e articuladas no dia a dia escolar.

 

     O envolvimento da família no processo de inclusão também é imprescindível. A escola deve estabelecer canais de diálogo constantes, esclarecendo dúvidas, compartilhando conquistas e construindo vínculos de parceria. A família precisa se sentir segura e confiante de que a escola está preparada para acolher seu filho com respeito, cuidado e profissionalismo.

 

     A formação continuada dos professores é um dos pilares da inclusão escolar bem-sucedida. Não basta apenas capacitar-se inicialmente; é necessário atualizar-se constantemente, conhecer novas abordagens e refletir sobre as práticas desenvolvidas. Os cursos, oficinas e grupos de estudo são possibilidades que ajudam o professor a ampliar seu repertório de estratégias e lidar melhor com os desafios cotidianos.

 

     Além da formação, o suporte institucional é essencial. O professor precisa saber que pode contar com orientação pedagógica, apoio psicológico e acompanhamento especializado. A escola deve organizar uma rede de apoio capaz de oferecer suporte ao docente na elaboração de intervenções, ajustes curriculares e encaminhamentos necessários para garantir o avanço dos alunos.

 

     Cabe à gestão escolar criar condições para que a inclusão aconteça de fato. Isso inclui garantir recursos didáticos acessíveis, adaptar o Currículo conforme as necessidades dos alunos, fomentar a colaboração entre os profissionais e investir na cultura de respeito à diversidade. Quando a gestão abraça a inclusão como valor, toda a escola se mobiliza para construir práticas mais humanas.

 

     O planejamento de aulas inclusivas deve considerar diferentes formas de ensinar e avaliar. E esse planejamento pode ser feito com o auxílio da IA. Aulas mais visuais, práticas e contextualizadas favorecem a compreensão dos conteúdos por parte dos alunos com dificuldades. Além disso, o uso de tecnologias assistivas, jogos educativos e atividades em grupo contribui para a construção de conhecimento e o desenvolvimento das habilidades socioemocionais. E muito material pode ser confeccionado na própria escola, pelos professores, usando material reciclável. Papelão e cola quente costumam realizar milagres. As professoras dos anos iniciais sabem do que estou falando.

 

     É importante que o professor desenvolva a propalada escuta ativa e sensível, percebendo as particularidades de cada aluno. Ao valorizar as singularidades e respeitar o ritmo de aprendizagem, o professor contribui para que todos se sintam pertencentes ao ambiente escolar. Isso favorece o vínculo, estimula o engajamento nas atividades e potencializa os avanços acadêmicos e pessoais dos estudantes.

 

    No cotidiano escolar, a inclusão deve ser uma prática constante e reflexiva. Enfrentar desafios, superar preconceitos e reconfigurar métodos são ações que exigem coragem e disposição dos professores. A caminhada não é simples, mas é transformadora. Cada conquista, cada sorriso e cada progresso dos alunos mostram que a inclusão é um caminho possível e necessário.

 

     Agora um parêntese: a equipe multidisciplinar que dizem que a escola precisa ter ultrapassa os limites até das escolas privadas, o que dirá das públicas. Além dos pedagogos, citam psicopedagogos, neuropsicopedagogos, psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, e por aí vai. Isso, sim, é utopia. Seria o ideal, obviamente, mas impossível por ser, além de oneroso, não haver esses profissionais tão disponíveis assim, principalmente em municípios menores, do interior. Em Brasília, por exemplo, há carência de terapeutas ocupacionais. Existem escolas públicas por esse rincão brasileiro que nem coordenação pedagógica têm. Em algumas falta giz.

 

     A valorização da escola pública passa, necessariamente, pela valorização de seus professores. São eles que, com dedicação e compromisso, tornam possível a construção de um ambiente escolar justo, democrático e acolhedor. Quando o professor é reconhecido e apoiado, há mais chances de que todos os alunos sejam respeitados e incluídos.

 

     A inclusão escolar é muito mais do que uma diretriz legal; é uma ação educativa com impacto direto na vida dos estudantes. Por isso, este livro propõe, em anexo, estratégias pedagógicas específicas para o atendimento de alunos com transtornos mentais e dificuldades de aprendizagem. Afinal, ensinar é transformar. E incluir é reconhecer que cada aluno importa.

 

     Este capítulo apresenta duas versões de avaliação sobre plural dos substantivos destinadas ao 6.º ano do Ensino Fundamental II. A primeira versão segue o formato tradicional com texto narrativo, quatro questões dissertativas e seis objetivas. A segunda versão foi especialmente adaptada para estudantes com Transtorno do Espectro Autista nível 1 de suporte, incluindo recursos visuais, organização espacial diferenciada, instruções mais claras e elementos gráficos facilitadores. Ambas mantêm o mesmo conteúdo curricular, garantindo equidade na aprendizagem. As avaliações completas estão disponíveis no Anexo II.

 

O que é inclusão escolar

     Inclusão escolar é uma abordagem educacional que reconhece e valoriza a diversidade como elemento enriquecedor do processo educativo. Ela se fundamenta na premissa de que todos os estudantes, independentemente de suas características individuais, têm direito ao acesso, permanência e aprendizagem no ensino regular.

 

     A inclusão pressupõe transformações estruturais no sistema educacional: adaptações curriculares, metodologias diversificadas, recursos de tecnologia assistiva e formação docente continuada. O ambiente escolar se modifica para acolher as diferenças, não o contrário.

 

O que NÃO é inclusão escolar

     Inclusão não é simplesmente matricular alunos com deficiência em salas regulares sem oferecer suporte adequado. Não é tolerância ou caridade. Não é responsabilizar exclusivamente o professor da sala comum pelo processo de aprendizagem desses estudantes.

     Inclusão não é criar "cantinhos especiais" isolados dentro da sala regular ou manter estudantes apenas fisicamente presentes sem participação efetiva nas atividades pedagógicas.

 

Diferença entre inclusão e integração

     A integração parte do princípio de que o estudante deve se adaptar ao sistema educacional existente. O aluno precisa "se encaixar" nas estruturas já estabelecidas, muitas vezes sendo encaminhado para salas especiais quando não consegue acompanhar o ritmo da turma.

 

     A inclusão inverte essa lógica: o sistema educacional se transforma para atender a todos os estudantes. A escola se adapta às necessidades individuais, promovendo participação ativa e aprendizagem significativa para cada um.

 

     Na integração, a presença física do estudante na escola regular é suficiente. Na inclusão, busca-se a participação plena em todas as dimensões da vida escolar: acadêmica, social e cultural.

 

     Algumas instituições abraçam o discurso inclusivo apenas no papel, mantendo práticas excludentes disfarçadas de modernidade. Será que colocar um aluno com TEA no fundo da sala, sem mediação pedagógica adequada, é inclusão? É realmente acolhedor manter estudantes com TDAH constantemente punidos por comportamentos que são característicos de sua condição neurológica? Como uma escola pode se orgulhar de ser "inclusiva" quando seus professores não recebem formação específica e trabalham sem apoio multidisciplinar? Talvez seja mais confortável usar o termo "inclusão" do que investir em mudanças estruturais reais. Afinal, é mais fácil terceirizar a responsabilidade para o professor de sala do que repensar práticas pedagógicas consolidadas, não é mesmo?

 


[1] Quando digo “histórico” refiro-me ao conhecimento científico e teórico adquirido pela humanidade ao longo da História.

 

 

[Fim da I PARTE - Continua na II Parte]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Maurício Apolinário
Enviado por Maurício Apolinário em 24/03/2026
Alterado em 25/03/2026
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"Não existe quem seja incapaz de frequentar a escola. Existe escola que não se capacita para incluir." Carol Souza (@carolsouza_autistando)
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PALESTRANTE, Professor de Língua Portuguesa e Literatura aposentado